Frei Agostinho da Cruz, um poeta da liberdade em tempos de Inquisição

13 Jun 19Cultura e artes, Destaques, Literatura e Poesia, Newsletter, Últimas

“Poeta da liberdade”, que “obriga a pensar o que somos”, viveu em tempos de Inquisição, quando as pessoas com uma visão demasiado autónoma “não eram muito bem vistas”. Uma Antologia Poética de frei Agostinho da Cruz, que morreu há 400 anos, será apresentada esta sexta, 14 de Junho, numa sessão em que Teresa Salgueiro interpretará músicas com poemas do frade arrábido.

Frei Agostinho da Cruz, numa gravura de Lima de Freitas, editada em 1963.

 

“Não há manjar melhor que liberdade”, escreve, no final da Écloga II, frei Agostinho da Cruz, frade franciscano do século XVI, que deixou uma obra poética que ainda hoje está por conhecer na sua plenitude. Para obviar a esse desconhecimento, Ruy Ventura, ele próprio poeta e investigador da obra de Agostinho da Cruz, organizou uma Antologia Poética que será apresentada nesta sexta-feira, 14 de Junho, no Barreiro.

O pretexto são os 400 anos da morte de frei Agostinho da Cruz, que passaram a 14 de Março, e que serão ocasião para vários outros actos celebrativos. Em Janeiro de 2020 está prevista uma conferência do arcebispo José Tolentino Mendonça, actual bibliotecário da Santa Sé, e um colóquio sobre frei Agostinho da Cruz encerrará as comemorações.

A sessão desta sexta-feira decorre no Convento da Madre Deus da Verderena onde, segundo a lenda, frei Agostinho teria vivido, como “castigo”. Lenda ou não, sabe-se que foi esse o único sítio onde se encontrou o único manuscrito autografado de Várias Poesias ao Divino, que recolhe parte da sua obra.

Na sessão desta noite, Teresa Salgueiro interpretará algumas músicas com poemas compostos por frei Agostinho. Entre eles, a Elegia II, dedicado à Arrábida: “Os olhos meus dali dependurados,/ Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos/ Como, quando, por quem foram criados?” Ou um hino dedicado à figura da Virgem Maria (não incluído na Antologia, mas cantado na Liturgia das Horas, embora esta colectânea de orações não identifique o seu autor): “Quem vos escolheu,/ Rainha dos céus,/ Foi o mesmo Deus/ Que de vós nasceu:/ De vós procedeu/ Vossa eterna vida,/ Virgem escolhida.”

Frei Agostinho da Cruz foi um “poeta da liberdade”, que “obriga a pensar o que somos”, diz, ao 7MARGENS, Ruy Ventura, que profissionalmente é professor do 2º ciclo do ensino básico. Tendo vivido em tempos de Inquisição, quando as pessoas com uma visão demasiado autónoma, na esteira de Erasmo de Roterdão “não eram muito bem vistas”, o frade franciscano enfrentou tensões e conflitos com as comunidades conventuais nas quais se integrou.

Obviamente, a sua concepção, tendo em conta o tempo, não é a da liberdade política. É antes a da liberdade como “um comportamento e uma atitude ascética que entende que só desligado dos constrangimentos que o mundo impõe é que o ser humano consegue ser livre”, diz Ruy Ventura.

Essa ideia aparece bem evidente em várias das Éclogas, o único género poético cuja totalidade é recenseada nesta Antologia – são, aliás, praticamente metade da obra recenseada. A certeza sobre o autor e o facto de a última edição que delas existia ter já largas décadas levaram Ruy Ventura a publicá-las todas nesta obra. As Éclogas têm, aliás, um carácter mais autobiográfico: nelas refere frei Agostinho as várias saídas forçadas do convento da Arrábida, a que foi sujeito.

Central na poesia do franciscano, o conceito de liberdade liga-se à ideia da “saudade de Deus”. Na mesma Écloga II, já citada, escreve: “Que pena, ou que aspereza em toda a vida,/Que numa alma ferida de verdade/ Da vossa saudade, causa espanto?”

Aguarela de João Salvador Martins, 2013 (col. de Ruy Ventura)

 
“A quem já caminhou tão longos dias…”

Porque se registam, então, tensões e conflitos, que obrigam o frade a sair da Arrábida por várias vezes? Nascido a 3 de Maio de 1540, dia da festa litúrgica de Santa Cruz, em Ponte da Barca, Agostinho Pimenta, de seu nome de baptismo, era filho de Catarina Bernardes Pimenta e de João Rodrigues de Araújo. Entre os seus dez irmãos, estava o também poeta Diogo Bernardes (c. 1530-1596). Durante a juventude, Agostinho serviu na casa de D. Duarte, neto do rei D. Manuel I, e tornou-se amigo de D. Álvaro de Lencastre, sobrinho de D. Jorge de Lencastre, segundo duque de Aveiro.

No dia em que completou 20 anos, como conta Ruy Ventura na introdução da Antologia, Agostinho deixou para trás a vida de corte e professou como franciscano, atraído pela reforma de São Pedro de Alcântara (1499-1562), eremita e renovador do convento da Arrábida. No entanto, a sua profissão deu-se no Convento de Santa Cruz de Sintra e aí viveu durante 45 anos.

Desejoso de uma vida eremítica rigorosa, o seu desejo estava na Arrábida e por esse objectivo lutou durante 45 anos, até ser autorizado, em 1605, a mudar para o convento setubalense: “Deixem-m’aqui viver nesta montanha”, pede ele, num verso da Écloga V. Foi essa opção que a comunidade não entendeu, como conta ainda Ruy Ventura, o que o obrigou a sair várias vezes do seu novo convento, vivendo em Vale Figueira (Santarém), talvez Verderena e outros.

“Tinha uma interpretação muito livre da regra”, diz o organizador da Antologia Poética. Só aos 72 anos, em 1612 (morreria sete anos depois, a 14 de Março de 1619, na enfermaria da Anunciada em Setúbal), pôde concretizar plenamente o seu anseio de uma vida. Na mesma Écloga V, escreve: “A quem já caminhou tão longos dias/ É néscio quem mostrar quer a estrada:/ Qu’a mudança do tempo muda as vias.”

Frei Agostinho da Cruz (desenho de Agripino Maia, editado em 1919, por altura dos 300 anos da morte).

 
“Com ele morra, só com ele viva”

As datas do seu nascimento e tomada de hábito, bem como o nome do convento de Sintra marcaram outra dimensão da sua poesia: “A cruz e a paixão de Cristo são temas centrais, mesmo se não originais, da sua obra”, diz Ruy Ventura.

“O franciscanismo, muito ligado à humanidade de Cristo, propunha a devoção a Jesus crucificado como contraponto ao Cristo Pantocrator, senhor do universo, mais afastado da humanidade”. Mas frei Agostinho “vai mais longe, na identificação da sua vida com a vida de Cristo” e na ideia de que “o sacrifício de Cristo na cruz é a garantia da liberdade a que ele almejava”.

Uma outra ideia da poesia agostiniana é a da peregrinação, ligada à alegria: “Ele encarna muito uma perspectiva que começa no Antigo Testamento e culmina com São Francisco, que vê Deus numa árvore, no mar, na natureza, enquanto reflexo da bondade de Deus pelos homens”, diz Ruy Ventura.

Natureza e Deus confundem-se, mesmo, em versos como os do soneto [A] Nosso Senhor: “Mostrai-me, meu Senhor, em que deserto,/ Em que ribeiram vale, monte, ou serra,/ Em quanto me deixais andar na terra,/ Do céu me deixareis andar mais perto.”

Também por isso, são muitos os poemas ou os versos que falam da Arrábida, “Alta Serra deserta, donde vejo/ As águas do Oceano de uma banda/ E doutra já salgadas as do Tejo”, como escreve no início da Elegia II.

Para frei Agostinho, diz Ruy Ventura, a peregrinação não é só material e física, mas “também uma aprendizagem da aceitação paciente de todas as adversidades da vida e de ver essas dores da vida como modo de chegar à liberdade, porque o mais importante está em Deus”.

A Elegia XVII termina com estes versos:

“Qual branda cera ao fogo derretida,/ No fogo do meu Deus minha alma seja,/ Quer sarada por ele, quer ferida.//

Onde quer que estiver com ele esteja,/ Esteja com seu Deus, sua cativa/ Sem ele só um momento se não veja,/ Com ele morra, só com ele viva.”

Painel de azueljos no convento da Arrábida, evocando frei Agostinho da Cruz. Foto © Ruy Ventura

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