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Bento Domingues, frade dominicano e teólogo em entrevista ao programa Vidas Com História, da TSF, que tem a colaboração do 7MARGENS. Fotos © António Marujo/7MARGENS
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Vidas com História

Frei Bento: “Explicaram-me o eco dos penedos, mas não o puro mistério que é Deus”

| 06/04/2025

 

Quando era criança na pequena aldeia de Vilar, em Terras de Bouro, Bento Domingues – então chamava-se Basílio, o seu nome de baptismo – perguntava porque ouvia o eco que os penedos lhe traziam da sua voz e dos balidos das ovelhas que ele ajudava a pastorear. “Eu, na ignorância, [perguntava] porque é que os penedos também falam; e porque é que as ovelhas também ficam assim espantadas…”, conta o frade dominicano e teólogo na entrevista ao programa Vidas Com História, da TSF, que tem a colaboração do 7MARGENS.

“Explicaram-me o que [o eco] era, mas não explicaram porque é que nós nascemos, vivemos e morremos em pleno mistério – dizemos que é de amor, mas um amor que a gente nem sequer imaginar pode”, diz frei Bento, na conversa com o jornalista Manuel Vilas Boas.

“Deus é o impensável, é o puro, puro, puro mistério. Vivemos imersos no mistério, no incompreensível, no abismo total. Arranjamos formas para poder falar desse mistério insondável que é Deus”, mas elas são sempre limitadas, porque assim são os conhecimentos, ao contrário do “eterno ilimitado”. E a Deus frei Bento não o conhece, mas acolhe, acrescenta o autor de A Religião dos Portugueses.

Sobre Fátima, que “continua a ser o que sustenta o catolicismo português”, frei Bento diz que ali predominou muito tempo o “mau gosto”, situação que tem sido revertida nas últimas décadas. Mas há “duas coisas que são a sua redenção: a procissão das velas, uma escuridão iluminada; e [a procissão d]o adeus: estão a despedir-se de quê?”, pergunta. “Não, é a convicção de que levam Fátima com eles e voltarão a Fátima”. O santuário, acrescenta, é o verdadeiro “cais de Portugal, lá [se concentram] todas as lágrimas que os portugueses largaram pelo mundo”.

Bento Domingues, que teve sempre um olhar crítico perante o fenómeno de Fátima, sempre também tentou entender as motivações profundas de quem ali acorre, considera que “a religião popular” tem de ser “muito estudada”. Nesse sentido, destaca o manancial da “ternura” que se revela no Correio de Nossa Senhora, a parte do arquivo do santuário onde se guardam as mensagens dos crentes dirigidas à figura da Virgem.

A caixa de correio de Nossa Senhora

“Deportado” pela PIDE para Lisboa

Na entrevista, Bento Domingues começa por recordar o episódio em que a PIDE, a polícia política da ditadura do Estado Novo, quis proibir em 1963 uma exposição organizada pela Juventude de Cristo-Rei, os jovens ligados à paróquia dos dominicanos no Porto. Foi o pretexto para o jovem frade ser “deportado” para Lisboa e, daí, para Roma.

A criação do Instituto Superior de Estudos Teológicos, impulsionada pelo então núncio apostólico do Vaticano em Lisboa contra a inércia dos bispos, foi promovida por vários institutos religiosos. Mas a reacção dos bispos – e, em particular, do cardeal-patriarca Gonçalves Cerejeira – foi a de criar a Universidade Católica. “Foi uma forma de calar liberdade dentro da Igreja”, considera Bento Domingues, que no entanto chegou a ser convidado para leccionar na nova escola. “Perguntei ao reitor [Isidro Alves] se me garantia a liberdade de ensinar”, conta. A resposta foi negativa e frei Bento respondeu que, sem isso, não seria professor da Católica.

Bento Domingues lamenta também profundamente que se mantenha a disciplina do celibato obrigatório na Igreja Católica. “Muitos dos problemas pastorais do país estão vinculados a essa miopia”, agravada pelo facto de muitos terem abandonado o ministério de presbítero, perdendo-se com isso muita gente com capacidades de animação e trabalho nas comunidades católicas.

Na entrevista, frei Bento diz que não consegue perceber o encobrimento dos abusos sexuais, acrescenta que é preciso não fazer um drama do acolhimento de homossexuais e diz que a convocação da assembleia eclesial de 2028 pelo Papa Francisco se assemelha à atitude de um corredor cansado que depois recupera. “Bendito Papa Francisco!”, exclama.

Entristece-o a situação do mundo: “O que me preocupa é a guerra.” Mas também o que se passa com a actual administração dos Estados Unidos traduz “a vitória do negócio, do dinheiro, de um sistema planetário de exploração”. A ideia de uma instância turística em Gaza é “absolutamente absurda” e a “globalização controlada por uns poucos faz com que se” crie um sistema em que tudo fica “nas mãos de alguns ricos”.

Sobre a morte, frei Bento diz que “somos feitos para a vida” e que não temos de viver com a “obsessão da morte, se não é uma paralisia”. Confessa ter saudades de “poder trabalhar uma ética da ajuda” e recorda a amizade “de muitos anos” e a poesia de “grande beleza” de Sophia de Mello Breyner, que o ajudou a fazer uma biblioteca poética. E considera que a música deve servir “para nos mudar por dentro: essa força, essa energia da música é incomparável; não há nada superior à música, a nível das artes”.

Dos presos políticos às crónicas de jornal

Bento Domingues mantém há mais de três décadas uma crónica no jornal Público, que já deu origem a oito volumes antológicos. Foto © António Marujo/7MARGENS

Bento Domingues mantém há mais de três décadas uma crónica no jornal Público, que já deu origem a oito volumes antológicos. Foto © António Marujo/7MARGENS

Nascido em 1934 numa família de pequenos agricultores do Minho, Bento Domingues tinha mais seis irmãos. Contra a vontade da avó, mas com as bênçãos dos pais, foi para a Casa Apostólica dos dominicanos, em Aldeia Nova, no concelho de Ourém, instituição retratada no filme O Casarão, de Filipe Araújo.

Tendo estudado Teologia em Fátima, Salamanca, Roma e Toulouse, Bento Domingues dedicou-se depois, durante décadas, a ser ele próprio professor nessa área, em África e na América Latina.

Ainda no tempo da ditadura, Bento Domingues ajudou ainda a criar a Comissão de Socorro aos Presos Políticos, esteve na fundação do ISET e, já em democracia, da licenciatura em Ciências das Religiões da Universidade Lusófona. Mantém há mais de três décadas uma crónica no jornal Público, que já deu origem a oito volumes antológicos.

A entrevista pode ser ouvida na íntegra na página da TSF na internet.

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