
“Segundo rezam as crónicas o Bernardo de Vasconcelos foi uma das presenças mais solares e surpreendentes desse grande acontecimento eclesial e social que levou mais de 400 mil pessoas de todo o Portugal, fustigado e humilhado pela perseguição religiosa, ao monte do Sameiro.” Foto: Frei Bernardo. DR
No rescaldo dos dias de graça, intensos e maravilhosos, do V Congresso Eucarístico Nacional (31 de Maio a 2 de Junho 2024), organizado pela Arquidiocese de Braga, cidade que organizou e recebeu também o I Congresso Eucarístico Nacional em 1924, contando com a presença de tantos ilustres Servos de Deus, gostaríamos de dar a conhecer algumas notas da participação do Venerável monge poeta Bernardo Vaz Lobo Teixeira de Vasconcelos (São Romão do Corgo, Celorico de Basto, 7 de Julho de 1902 – Foz do Douro, Porto, 4 de Julho de 1932) nessa grande manifestação de fé e de afirmação social do catolicismo português dos anos vinte do século passado.
Bernardo é um jovem de inteligência viva e coração ardente, sedento de ideal e perfeição, figura poliédrica e sinfónica, capaz de ler, citar e dialogar com os poetas seus contemporâneos, que andam longe de Deus ou buscando-O em aflição. Estuda direito em Coimbra, recentemente inscrito no C.A.D.C. (Centro Académico Democrático Cristão), depois de uma vida inquieta em demanda de Infinito, duvidando se o matrimónio seria a sua verdadeira vocação, tentado até pela novidade do socialismo e dos sindicatos. Mas tal como os poetas «torturados de infinito», também o Bernardo sabe que «a sua angústia de alma só se aquietará quando souber cantar com o Salmista: – «como o veado sequioso procura com ânsia a água das fontes, assim a minha alma suspira por vós Senhor!».
Como vice presidente do C.A.D.C., e já rendido à vocação religiosa que finalmente rebentara no seu coração, ainda em segredo, começa a preparar uma conferência sobre o ideal cristão, que encantará não apenas as assembleias dos estudantes católicos em Coimbra, Viseu e Aveiro, mas até os milhares de participantes do Congresso Eucarístico Nacional realizado em Braga, em 1924, onde apresentou o seu texto, citando les poètes maudites franceses, sedentos daquela paz que acalma a sede e a febre e fazendo uma reflexão a partir do prólogo do Evangelho de São João.
Segundo rezam as crónicas o Bernardo de Vasconcelos foi uma das presenças mais solares e surpreendentes desse grande acontecimento eclesial e social que levou mais de 400 mil pessoas de todo o Portugal, fustigado e humilhado pela perseguição religiosa, ao monte do Sameiro.
Deixemos que seja o próprio a contar-nos a história e as suas emoções. O sucesso de tal conferência foi tão grande e inesperado que pensam em publicar o texto. O Jornal Novidades escreveu a propósito da sua reflexão: «Faz um comentário admirável e profundo ao Evangelho de S. João. -E não sei porquê, temos a visão do amado discípulo de Jesus, terno, meigo, confidente das maravilhas amorosas do coração boníssimo do Homem Deus … Alguém ao ouvir, há tempos, em Coimbra, ao simpático orador, sublinhou no fim quanto dissera com este lacónico e incisivo comentário, que foi um clamor brotado no íntimo da alma: ‘depois disto, só rezar’. Ao meu lado um congressista, parafraseando talvez estas palavras, bradou assim, numa voz em que havia comoção viva: ‘depois disto não é só rezar. É ajoelhar, rezar e comungar’» (in Vida de Amor, 128-129).
Numa carta de setembro de 1924 Bernardo dá a conhecer o projeto da publicação da sua conferência: «De Coimbra tive a notícia de que sempre vão tirar uma separata de 300 exemplares da minha conferência. Fiquei contente com saber isso. Não é por vaidade; – Deus sabe que não! É que tenho a esperança de que algum bem, por meio dela, se fará…. Senti-a e vivi-a, longa e profundamente; meditei-a muito. Tem a bênção do Senhor! Tem um pouco do alvoroço santo do despertar risonho da minha vocação. Tem um bocadinho de luz e de calor – dessa luz e desse calor que o Espírito Santo infundiu na minha alma» (in Vida de Amor, 128).
Numa outra carta escrita em Pedras Salgadas, em Junho de 1924, revela os autores do convite a participar no Congresso Eucarístico. Nada mais nada menos que o Dr. Cerejeira (futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa) e o Senhor Arcebispo de Braga (Dom Manuel Vieira de Matos): «Daqui irei para o Congresso Eucarístico de Braga, onde – por indicação do Sr Dr [Cerejeira] e muita benevolência do Senhor Arcebispo – repetirei a minha conferência de Coimbra – em sessão solene» (in Vida de Amor, 127).
Mas o testemunho mais interessante sobre o que se passou no Congresso é oferecido numa carta, provavelmente escrita a Dom António Coelho, OSB:
«Vim anteontem de Braga onde estive ainda oito dias depois de terminado o Congresso Eucarístico onde eu e o P. L. nos lembramos muito de si, por muito o desejarmos lá. Pelos jornais deve ter visto o que foi aquela manifestação de Fé e de Amor a Jesus Hóstia.
Todas as horas ali foram preciosas, mas muito o desejaria ver a si naquela hora suprema da alocução do Bispo Auxiliar da Guarda, que de tal modo foi ao encontro da alma dos fiéis que estes lhe interceptaram o seu dizer – mais que eloquente – sobrenatural – dando a impressão dum estranho salmear.
E depois, no final da alocução, aquela portuguesíssima cerimónia do juramento de fidelidade a Jesus-Hóstia! … Que maravilha!
Naqueles dias, eu vi muitos inspirados duma sublime inspiração que encantava e enternecia: – um deles o Dr. Lino Neto (de quem fiquei a gostar imenso!), outro o Dr. Joaquim Dinis da Fonseca e outro esse Bispo Auxiliar da Guarda [Venerável Dom João de Oliveira Matos], que é considerado um dos mais santos dos nossos Bispos.
Gostaria também que conhecesse essa figura estranha de asceta que é o Bispo do Algarve [Dom Marcelino António Maria Franco]! Quantas vezes ao vê-lo e falar-lhe me lembrei da sua concepção de nobreza. Aquele é que é o puro-sangue azul … azul porque é do céu …
Dias inolvidáveis! Por lá trouxe a sua capa que em breve lhe mando. Os nossos lentes fizeram linda figura. A tese do Dr. Salazar foi considerada a melhor de todas. O nosso Dr. Cerejeira, esplêndido – sempre aquela linda figura de místico … do mesmo sangue-azul do céu. Não lhe sei dizer a direcção dele. Mas ponha Famalicão que lá vai ter. Senão, dirija as cartas para o céu» (Carta de 18 de Agosto de 1924, in Vida de Amor, 127-128).
Rodeado de sucesso, mas sempre humilde, em 11 de Setembro voa para os claustros da Abadia de Samos, na Galiza, e naquele mesmo mês (dia 24) entra no Noviciado e toma o hábito de monge beneditino, com o onomástico de Frei Bernardo da Anunciada.
Mons. Mário Rui de Oliveira trabalha em Roma; é postulador da causa de beatificação de frei Bernardo de Vasconcelos.









