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Frei Bernardo Domingues: dois testemunhos

Frei Bernardo Domingues: dois testemunhos

by | 27 Fev 19 | Destaque 2, Igreja Católica, Newsletter diária - título, Últimas

Frei Bernardo Domingues, membro da Ordem dos Pregadores (dominicanos), morreu no final da semana passada. Figura de referência para muitas gerações, incluindo para políticos e empresários, frei Bernardo foi acompanhado, no momento do funeral, por muitas centenas de pessoas. Entre elas, dois amigos de longa data: Artur Santos Silva (ex-presidente do BPI e da Fundação Gulbenkian) e Walter Osswald, médico, ex-membro do Conelho Nacional de Ética e actual conselheiro do Instituto de Bioética da Universidade Católica. Ambos falaram sobre frei Bernardo no final da cerimónia. São essas evocações que aqui ficam. [Quarta, dia 28, às 19h15, celebra-se missa de 7º dia no Convento Dominicano de Lisboa, na Rua Joao Freitas Branco; e quinta, dia 1 de Março, às 19h, será celebrada missa no Convento de Cristo-Rei, no Porto.] 

Frei Bernardo Domingues, no Porto, em Dezembro de 2016 (Foto © José Carlos Lopes Almeida, OP)

Sólidos fundamentos, inspiração personalista, amigo ímpar
(Evocação de frei Bernardo, por Artur Santos Silva, na missa do funeral)

Frei Bernardo foi para todos nós um amigo ímpar, pelo que nos ensinou com a sua palavra, o seu conselho, a sabedoria e serenidade que nos transmitia, o seu exemplo, pelo que muito fez por todos nós – “quem não vive para os outros nem sequer vive para si”.

Sempre me impressionou a sua cultura, os sólidos fundamentos do seu pensamento, a sua grande inspiração personalista, como bem demonstrou na tese do seu doutoramento sobre Mounier, “A vida não pode ser vivida fora da esperança … e da inquietação de estarmos sempre a desafiarmo-nos”, “Fazer o que é difícil, ser antes de fazer”.

Muito me marcou a solidez da sua formação teológica profundamente influenciada por S. Tomás de Aquino e Santo Agostinho.

Frei Bernardo foi um grande seguidor de João XXIII, o Papa que soube abrir o caminho da liberdade e da paz para todo o homem de boa vontade. Por isso, por colocar a religião no centro da vida humana, foi obrigado, em 1963, a sair do país com o seu irmão Frei Bento, sendo forçados, até, a viverem separados um do outro. Tinha-os conhecido neste convento [de Cristo-Rei], um ano antes, por ocasião do lançamento da revista “O Tempo e o Modo”.

Na segunda metade dos anos sessenta a necessária abertura da Igreja ao mundo de hoje foi assumida por si, lado a lado com Frei Bento e Frei Mateus Cardoso Peres, com a criação do Instituto Superior de Estudos Teológicos.

Tal como hoje recomenda o Papa Francisco, a sua palavra sempre adotou um estilo breve, simples e prático – “o quê, para quem, como” – “despertando para o essencial” – “o celebrante deve ser mensageiro e pregoeiro da alegria, do Evangelho, da fraternidade efetiva”, “todos filhos de Deus, todos diferentes, todos irmãos em Cristo”.

A sua palavra sempre nos chamou a atenção para ter tempo para o essencial, que não há desculpa para a falta de tempo – aí todos somos iguais, todos temos 24 horas por dia!.

Minha Mãe guardava como um tesouro muitas das suas máximas sobre o imperativo de não perder tempo:

“Se queres fazer bem a/ Alguém a quem queiras muito…/ Diz-lhe, hoje, o teu querer/ Fá-lo em Vida, Irmão, em Vida …”

Também nos apregoava insistentemente que viver com Deus é viver com os outros, para os outros e pelos outros.

Às crianças e aos jovens igualmente recomendava que, ao chegarem a casa, deviam oferecer aos pais a sua vontade de ajudar e servir nas tarefas de casa.

Muito nos estimulou a viver sempre para as causas de todos, a prosseguir o bem comum. Invocava repetidas vezes S. Tomás de Aquino “quem não busca o bem comum, não busca bem nenhum”, recomendando-nos a agir a favor de todos, em especial dos mais ofendidos e a apoiar a unidade dos povos, assim cumprindo os sábios apelos do Papa Francisco, “há que fazer o bem maior ou escolher o mal menor”, “com amor e bom humor cada um expressa aquilo com que concorda e com que discorda, mas sempre com argumentos inteligíveis e racionais”.

Frei Bernardo também nos convocava a pedir a Deus: 

“Dá-me coragem para empreender …”

“Dá-me coragem de ficar só sem cair na solidão …”

“Dá-me coragem para recomeçar sempre …”

“Dá-me coragem para encontrar tempo para estudar e rezar …”

“Dá-me luz para compreender o que deve ser mudado”

“Dá-me coragem para mudar o que deve ser mudado”

“Dá-me coragem para aceitar o que não pode ser mudado”

“Dá-me clarividência para bem distinguir as várias situações”.

Finalmente, para o nosso Frei Bernardo a graça de ter nascido devia ser vivida intensamente.

Recordo o que nos disse na celebração dos 50 anos da sua vida sacerdotal. Que era com a maior alegria que tinha superado sérios problemas de saúde, todos eles ao mesmo tempo. Acreditava que nos esperava uma vida melhor, mas enquanto lhe fosse possível queria viver e aproveitar do convívio com todos os seus, familiares, companheiros e muitos, muitos amigos.

E foi, ainda e sempre com o maior entusiasmo, que continuou a saborear os derradeiros sopros da sua vida.

Neste momento tão doloroso, quero saudar com toda a ternura e afeto a sua Família, a Ordem dos Padres Dominicanos, recordando de uma forma muito especial Frei Pedro, a quem tanto devemos e que está a viver momentos dramáticos.

Na sábia palavra do Padre António Vieira “As nossas ações são os nossos dias; por elas se contam os anos; por eles se mede a vida”.

Assim foi a vida de Frei Bernardo que tanto encheu e preencheu a vida de todos nós e, por isso, lhe estamos eternamente gratos! Até sempre!

Artur Santos Silva, 22 de fevereiro de 2019

 

(Foto: Direitos reservados)

Profundo respeito pela dignidade e pela liberdade de todos
(Testemunho de Walter Osswald)

A multidão que encheu a Igreja dos Dominicanos, no Porto, nas exéquias do Frei Bernardo, falecido aos 88 anos após longa batalha contra o cancro das vias biliares que lhe fora detectado oito anos antes, não exprimia apenas a sua tristeza pela perda experimentada, que a todos, independentemente da idade, suscitou uma sensação de orfandade, como manifestou o sincero agradecimento pela vida e acção deste dominicano. De facto, durante os 62 anos de padre, o Frei Bernardo serviu, sem reservas nem amuos, as pessoas com quem conviveu no seu múnus pastoral. Sobretudo no Porto, é certo, mas em todo o lugar onde viveu: em Madrid, onde se licenciou em Filosofia, em Toulouse, onde cursou Psicopedagogia; na Irlanda obteve o título de Mestre em Sagrada Teologia e em Roma doutorou-se em Filosofia.

Nestas mais de seis décadas de dedicação total ao serviço de Deus através do serviço às pessoas, sem olhar a quem, não excluindo os marginais, os esquecidos, os cansados e os tristes, interveio sempre com profundo respeito pela dignidade e pela liberdade de todos. Assim fez, incansavelmente, num prodigioso labor de pregações, homilias, confissões, conversas, bem como nos seus 88 livros (!), só possíveis por escrever todas as noites, mesmo que só uma página.

Assim o conheceram tantos, como se vê na fotografia: olhando de frente o mundo e as pessoas, sob a protecção da Cruz.

(Foto: Direitos reservados)

Menos conhecida é talvez a sua enorme contribuição intelectual e doutrinal para a ética dos cuidados de saúde e, mais alargadamente, para a Bioética. É apropriado que o seu último livro, publicado quando já estava internado em cuidados paliativos, se intitule “Bioética e saúde a promover”, pois o seu contributo se baseou sempre num humanismo personalista, promotor do bem da pessoa.

Frei Bernardo foi professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, orientou mestrados e doutoramentos, fez conferências e participou activamente em simpósios e congressos, mas não construiu um currículo nem jamais usou os títulos académicos que conquistara. Discreto, “crente, competente e coerente”, este homem bom designava-se simplesmente por Frei ou, usando da terceira pessoa, “o frade”. A sua simplicidade e humildade genuínas, provenientes do mais recôndito da sua generosíssima disponibilidade para a entrega aos outros, levou a que muitos dos seus amigos o tratassem apenas por Frei. E bem, pois Frei é a abreviatura de Frade e Frade tem a sua raiz em Frater, que quer dizer irmão – e é essa a figura que faz parte das nossas vidas e que gratamente evocamos, a do nosso irmão Bernardo.

Walter Osswald (26/02/2019)

 

 

 

 

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