O Papa Francisco foi destinatário de uma carta aberta publicada no jornal francês Témoignage Chrétien na semana passada. O que motivou a missiva, assinada pelo editorialista Daniel Lenoir, presidente do Institut pour le développement de l’information économique et sociale e antigo dirigente de organismos de protecção social e de saúde, não foi qualquer um desses abundantes assuntos previsíveis. O que a justificou foi um pedido simples: que o Pontífice encerre a conta que tem no X, antigo Twitter.
O subscritor do pedido, que é extensivo a outras personalidades, como o primeiro-ministro francês, reconhece que a decisão não é fácil. A presença na rede social de Elon Musk é globalmente tida como essencial para intervir na esfera pública. “É nesta rede que os chefes de Estado reagem em tempo real aos acontecimentos e declarações”. No caso de Francisco, sair do X significa, portanto, desde logo, deixar de ser escutado pelos cerca de vinte milhões de seguidores de @Pontifex (muitíssimo menos do que Donald Trump, que tem quase 100 milhões, além de possuir uma rede social própria).
Ainda que o ex-Twitter desfrute de “uma situação de quase monopólio planetário” na difusão da informação, Daniel Lenoir considera que, hoje, a permanência no X permite que Donald Trump e Elon Musk, “o casal infernal que vai dirigir os Estados Unidos da América e que aspira a dirigir o mundo”, mantenham o seu pernicioso “poder de fogo mediático”. O abandono da rede social é, pois, além de um imperativo ético, “um acto de defesa nacional e europeia”.
A lista dos que já o fizeram é significativa e inclui jornais como o britânico The Guardian, o espanhol La Vanguardia e o sueco Dagens Nyheter, o maior matutino do país. Mas outras organizações e instituições também debandaram da rede social. O rol inclui autarquias, sindicatos e confederações de trabalhadores e universidades de vários países. Em França, um movimento, o HelloQuitteX, apelou a um afastamento generalizado da rede social no dia 20 de Janeiro, assinalando assim a tomada de posse do “casal infernal”. A iniciativa não é meramente simbólica. O HelloQuitteX visa mais longe, pretendendo ajudar os cidadãos “a recuperar espaços digitais compatíveis com democracias funcionais”.

No caso de Francisco, sair do X significa, portanto, desde logo, deixar de ser escutado pelos cerca de vinte milhões de seguidores de @Pontifex.
No momento em que Trump e Musk tomavam conta do poder nos Estados Unidos da América, o diário francês Le Monde anunciava a saída do X. O director do jornal, Jérôme Fenoglio, afirmou que, desde que foi adquirida por Elon Musk, a rede social foi transformada num prolongamento da acção política do dono, cada vez mais próxima da extrema-direita. O X é agora um instrumento de pressão contra os seus concorrentes ou contra os governos sociais-democratas europeus. A mistura de ideologia e comércio, refere ainda Fenoglio, foi tornando o Monde cada vez mais invisível na rede social.
Ainda que se apresente como um defensor da liberdade de expressão, Musk, como é sabido, restringe o alcance de contas ou de meios de comunicação de que não gosta, para além de ter silenciado ou colaborado no silenciamento de vozes que desagradam a quem o pode beneficiar nos negócios. Em suma, cala uns e faz ribombar a voz de outros. No início do ano passado, Musk fez com que os conteúdos que produz ou partilha sejam vistos por todos, reformulando o algoritmo do X para que os seus tweets tenham um impacto superior aos de qualquer outra pessoa.
Isto concorre para que nas redes sociais não haja espaço para os debates públicos, assinalou a filósofa Monique Canto-Sperber. Num texto publicado no Monde datado de quarta-feira, observa que “as dinâmicas específicas do debate, capazes de suscitar continuamente uma multiplicidade de pontos de vista, são neutralizadas pelos algoritmos que estão no cerne do funcionamento das redes e garantem o seu modelo económico: maximizar a exposição dos anunciantes acentuando a visibilidade das mensagens que mais reacções suscitam, mensagens carregadas de emoções muitas vezes negativas, e isso em detrimento das outras mensagens” [1].
Ou seja, explica a filósofa, é como se, na praça pública, alguns falassem usando um megafone e os outros se expressassem em surdina. Há liberdade de expressão, mas muito do que é dito não é escutado. Como Monique Canto-Sperber constata, certos pontos de vista tornam-se hegemónicos, enquanto as refutações e rectificações são inaudíveis. “Já não há um ‘livre mercado de ideias’, para usar a expressão do filósofo John Stuart Mill, e a liberdade de expressão é dissolvida na viralidade do falatório”.
Razões para qualquer um sair do X não faltam. Não pouco relevante é o facto de a rede social ser uma propulsora de desinformação. O apelo para o Papa sair do ex-Twitter não é, pois, descabido. Este pedido é, evidentemente, extensivo aos que se preocupam com a sobrevivência de sociedades não dominadas pela desconfiança e pela intolerância.
[1] Monique Canto-Sperber – “Sur les réseaux sociaux, le débat est désamorcé par les algorithmes”. Le Monde, 22 de Janeiro de 2025
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