Uma pesquisa realizada pela Associação de Funcionários Leigos do Vaticano (ADLV), que contou com respostas de 250 trabalhadores da Santa Sé, revelou uma ampla insatisfação com a progressão na carreira, desconfiança generalizada em relação às lideranças e relatos de falta de diálogo, injustiças e assédio no ambiente de trabalho entre os entrevistados.
O estudo teve por base um inquérito realizado entre 15 de dezembro de 2025 e 7 de janeiro de 2026 e os resultados foram publicados esta semana no sítio oficial da ADLV, que funciona como uma associação interna de trabalhadores, embora não tenha reconhecimento sindical formal no sistema jurídico do Vaticano.
A Santa Sé emprega aproximadamente 4.200 trabalhadores, e a maioria não é afiliada da ADLV. Das 250 pessoas que responderam ao questionário, 80% são membros desta associação, que descreve a amostra do estudo como “limitada, mas significativa”.
Entre as principais conclusões do estudo, incluem-se o facto de 73,9% dos entrevistados afirmarem sentir uma clara distância entre a liderança do Vaticano — geralmente chefes de departamento e superiores, muitos deles cardeais ou bispos — e os funcionários. Apenas 12,8% disseram estar satisfeitos nesse aspeto.
Mais de 71% dos participantes afirmaram também que esses superiores não são selecionados com base em critérios transparentes ou numa trajetória profissional claramente definida, e 26% disseram que não é possível manter um diálogo livre e sincero com os gestores diretos.
Os inquiridos manifestaram ainda um forte sentimento de desvalorização profissional. Cerca de 75,9% afirmaram que os recursos humanos não são adequadamente alocados, valorizados ou motivados, e 75,8% disseram que o ambiente de trabalho não recompensa a iniciativa, o mérito ou a experiência adquirida.
Pelo contrário, 73,4% dos entrevistados disseram perceber favoritismo, tratamento desigual e insegurança quanto à proteção dos seus direitos. E 73% referiram também um “bloqueio” percebido na ascensão profissional e apontaram para a suspensão do reajuste salarial bienal que antes era adicionado ao salário-base e considerado para pensões e benefícios de fim de serviço. Este benefício foi cortado pelo Papa Francisco em 2021 como medida de contenção de custos face aos aos défices orçamentais da Santa Sé.
A ADLV aponta ainda que mais de 56% dos entrevistados relataram ter já sofrido injustiças ou comportamentos humilhantes por parte de superiores — preocupações que, segundo a associação, merecem “atenção urgente”.
A pesquisa aponta para a necessidade de órgãos representativos oficialmente reconhecidos com maior capacidade de intervir em conflitos. Mais de 71% dos entrevistados disseram que recorreriam à ADLV em caso de conflito no local de trabalho, em comparação com cerca de 10% que disseram que recorreriam ao Tribunal do Trabalho do Vaticano (ULSA).
Quase 75% afirmaram que o diálogo direto entre a ADLV e a liderança do dicastério é a maneira mais eficaz de resolver problemas.
Uma secção do questionário era dedicada a possíveis sugestões a serem submetidas ao Papa, caso a oportunidade surja. A maioria dos que responderam expressou a necessidade de restaurar a dignidade, a voz e a proteção real dos trabalhadores através de representação, transparência, diálogo e respeito pelos indivíduos e seus direitos. Não sermos apenas números”, “proteger com dignidade” e “amar os funcionários como ao próximo” foram algumas das expressões utilizadas. “Aqui, parece emergir uma necessidade ética, ainda mais do que contratual, essencial para combater a desilusão e a desconfiança que parecem surgir de todas as respostas”, assinala a associação. Muitos destacaram também a necessidade de rever os salários, ampliar as proteções familiares e oferecer bónus de desempenho justos.
“Não me parece que o descontentamento seja generalizado”, diz responsável do Vaticano
Em declarações ao portal de notícias do Vaticano, o padre Marco Sprizzi, presidente do Escritório do Trabalho da Sé Apostólica (ULSA), refutou a representatividade do estudo. “Não me parece que o descontentamento seja generalizado”, afirmou, observando que a amostra da pesquisa é “muito pequena”, representando “menos de 5% dos funcionários”.
Sprizzi assinalou ainda que o seu departamento está “sempre de portas abertas” e “à escuta de todos”. “Trabalhamos para que não haja situações em que os direitos dos funcionários sejam de alguma forma desrespeitados ou violados e, ao mesmo tempo, nos empenhamos muito na formação para promover a consciência da participação na única missão e na melhoria das competências. Portanto, encaramos a pesquisa com seriedade e respeito”, acrescentou, garantindo que quer “verificar os resultados em casos concretos e na melhoria das normas”.
“A ADLV desempenha um papel importante e construtivo e nós incentivamos, promovemos e agradecemos à associação pelo que faz”, disse ainda Sprizzi ao Vatican News. “Não creio que haja descontentamento em geral, mas reconhecemos que há coisas que devem ser absolutamente atendidas e melhoradas, por exemplo, na adequação dos níveis salariais às funções desempenhadas. Em alguns casos, mesmo em situações anteriores ou devido ao bloqueio de recursos ou para que ninguém perdesse o emprego, não foram feitas as adaptações necessárias. Estamos trabalhando nisso para fazer justiça a quem tem direito”, adiantou.
Questionado sobre os casos mencionados de assédio moral, o responsável pelo ULSA disse não ter conhecimento de “nenhum caso”. “Se houver casos de assédio moral ou abuso, eles certamente devem ser denunciados, porque as exigências da justiça moral no mundo do trabalho são prioritárias desde a Rerum Novarum de Leão XIII. No entanto, uma coisa são os rumores e outra é a verificação da verdade. Certamente, se houvesse casos de abusos, mesmo que inferiores ao assédio moral propriamente dito, o primeiro a intervir seria o Santo Padre, porque isso não pode e não deve acontecer”, respondeu.
E terminou comprometendo-se a “na medida do possível, aumentar cada vez mais o diálogo com os funcionários, individuais e associados”, até porque existe um “estímulo” dos Papas a “promover o espírito de comunidade, de unidade, o espírito que hoje chamaríamos de ‘sinodalidade’ dentro de toda a Igreja e, em particular, da Sé Apostólica”, concluiu.










