
Ivanka Hosta (ao centro) durante a assembleia sinodal da arquidiocese de Braga, a 15 de junho de 2024. Foto reproduzida a partir das redes sociais da arquidiocese
A pouco mais de três meses de se completar um ano, prazo dado pelo Vaticano para extinguir a Comunidade Loyola, um instituto de religiosas fundado por Ivanka Hosta e pelo padre Marko Rupnik, aparentemente tudo continua como no início, com as casas a funcionar normalmente. No caso da comunidade de Braga, para onde Ivanka foi ‘desterrada’ em meados de 2023, por abusos de poder e espirituais, a “irmã” tem mesmo estado a desenvolver trabalho numa paróquia urbana, incluindo como ministra extraordinária da comunhão, com a aparente cobertura da diocese.
A notícia surgiu em Itália, em finais de junho último, na Adista, revista semanal dedicada à atualidade católica e religiosa. A veterana publicação traça um quadro de paralisação do processo de extinção nas casas ainda ocupadas pelas 17 mulheres que se mantêm fieis à sua fundadora e “primeira responsável”. Relativamente a Portugal, além da atividade pastoral de Ivanka, o artigo refere que o arcebispo José Cordeiro “não teria providenciado o fecho da capela” da comunidade local, que continua instalada, ao que o 7MARGENS apurou, num apartamento na zona central da cidade que figura no rol de bens sob gestão da Fraternidade Sacerdotal, e onde vive a fundadora.
O 7MARGENS pôde confirmar ainda, através de mapas de distribuição de serviços da paróquia da Sé, de diferentes alturas, nos últimos meses, que o nome da “irmã Ivanka” surge regularmente, ora como leitora ora como ministra extraordinária da comunhão. Ela foi vista também como participante na 3ª assembleia sinodal da Arquidiocese realizada em 15 de junho último.
Uma vez que todos os contactos que este jornal estabeleceu, nos últimos anos, quer com a superiora da comunidade local, que é também juíza do Tribunal Eclesiástico, quer com Ivanka Hosta, depararam com um sistemático silêncio, contactámos o arcebispo de Braga, José Cordeiro, através do Departamento de Comunicação da Arquidiocese. Quisemos saber, entre outros pontos, do estado do processo de extinção naquilo que possa depender do bispo local e pela confirmação ou não das atividades pastorais de Ivanka Hosta.
A mensagem recebida não responde a nenhuma das questões concretas levantadas, ficando-se por princípios e contextualizações. Lembra, em primeiro lugar que a Comunidade Loyola está presente na arquidiocese há cerca de três décadas. “Desde então, relata, vários membros da comunidade prestaram diversos serviços à Igreja arquidiocesana, que muito agradecemos, desde a Cúria Arquidiocesana à formação dos seminaristas e a diversos serviços em comunidades paroquiais. Entretanto, surgiram as notícias que todos conhecemos e os respetivos processos canónicos”.

Nos mapas de distribuição de serviços da paróquia da Sé, o nome da “irmã Ivanka” surge regularmente, ora como leitora ora como ministra extraordinária da comunhão. Imagens reproduzidas a partir de um grupo privado no Facebook.
“Todos são chamados à conversão”, diz a arquidiocese
Sobre a extinção da Comunidade Loyola, decretada a 21 de outubro de 2023, com efetivação da sentença no prazo de um ano, a arquidiocese de Braga afirma que “confia e está a cumprir as decisões em articulação com o Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e as outras instâncias romanas nos prazos e moldes estabelecidos”. No entanto, fontes próximas do padre Amedeo Cencini, delegado pontifício, que é quem tem oficialmente o encargo, em nome do referido dicastério, de conduzir o processo de extinção, disseram ao 7MARGENS que a arquidiocese não tem estado a responder a comunicações relacionadas com este dossiê.
Finalmente, num discurso que parece pretender responder ao que se perguntava sobre Ivanka Hosta, a arquidiocese de Braga diz que “tenta ser sinal de solicitude paterna e fraterna para com as pessoas que pertenceram à extinta Comunidade Loyola e que se encontram nesta situação tão delicada” e acrescenta, sobre a matéria: “As decisões eclesiais não são condenações capitais, mas, antes pelo contrário, sinais concretos de que todos são chamados à conversão e que um caminho de Páscoa é sempre possível para todos seja qual for o seu passado; assim o queiramos nós e assim os irmãos nos ajudem”.
Para se perceber melhor o que aqui está em questão – e que o Vaticano também achará que “todos são chamados à conversão” e a ter “solicitude paterna e fraterna” e, ainda assim, não deixou de atuar – recordemos os factos que antecederam a atual situação.
Ivanka Hosta governou a Comunidade Loyola durante mais de 30 anos. Fê-lo com mão de ferro, submetendo as religiosas a uma disciplina e a um controlo que ia até à intimidade da consciência, ferindo a dignidade delas. Quem o diz é o bispo Daniele Libanori, o comissário extraordinário que, entre o outono de 2020 e o outono de 2023, escutou, recolheu informação, explorou as possibilidades de refundar o instituto, fez o seu relatório para o arcebispo de Liubliana e para o cardeal vigário da diocese de Roma, onde se encontram, respetivamente, a casa-mãe e a casa geral da Comunidade Loyola. Já depois de ter entregue esse relatório, o comissário concluiu que havia problemas de cuja gravidade não se tinha apercebido anteriormente e que esses problemas, muito graves, de abuso de poder e abuso espiritual, giravam em torno da “prima sorella responsabile”, como era designada a superiora-geral.
Situação da superiora geral não está encerrada

O bispo Daniele Libanori é taxativo quanto ao facto de Ivanka Hosta ter instaurado um regime de descontentamento, medo, conflitualidade e estilo despótico de governo na Comunidade. Foto: Direitos reservados
O decreto disciplinar emitido, que o 7MARGENS divulgou, na altura, em exclusivo, não incorpora, naturalmente, os relatos recolhidos de cada membro daquele instituto, mas, no sumário feito desses relatos, Libanori é taxativo quanto ao facto de Ivanka Hosta, depois da rutura com o padre Rupnik e as religiosas que com ele seguiram para Roma, em 1993, ter imposto à Comunidade silêncio sobre as denúncias de abusos sexuais e de poder do clérigo e ter instaurado um regime de descontentamento, medo, conflitualidade e estilo despótico de governo (as afirmações são do comissário).
Através desse decreto disciplinar de 21 de junho de 2023, o Vaticano impôs o apeamento definitivo do cargo de superiora geral a Ivanka, vedando-lhe o exercício de qualquer outra função, incluindo a orientação espiritual das irmãs; repreendeu-a formalmente pelo seu comportamento como superiora, considerado “ofensivo da dignidade e direitos de cada uma das religiosas” e aplicou-lhe a pena de “fixação de residência” na comunidade que o instituto tem em Braga e de proibição de contactar, direta ou indiretamente, com as religiosas ou ex-religiosas da Comunidade Loyola por um período de três anos (medida sujeita a relatório semestral de aplicação por parte da superiora em Portugal); e, finalmente, impôs-lhe uma penitência “externa”: “peregrinar uma vez por mês, durante um ano, a um santuário mariano de fácil acesso a partir da residência, onde deverá rezar ‘pelas vítimas do comportamento do P. Marko Ivan Rupnik e por todas as religiosas da Comunidade Loyola’”, das quais é acusada de ter abusado.
Entretanto, em 21 de outubro de 2023, e na sequência do relatório de comissariado do bispo Libanori, o Dicastério para os Institutos de Vida Religiosa decide suprimir e decretar a suspensão do instituto de direito diocesano Comunidade Loyola. O que faz ao abrigo do cân.584 do Código de Direito Canónico e perante a “comprovada inconsistência institucional e carismática” e “ausência de uma esperança fundada de que o instituto se possa desenvolver e progredir”.
Vítimas de abusos ficaram de fora das “contas”
Essa medida extrema, aprovada pelo Papa, estabelece que os votos temporários e perpétuos feitos pelas religiosas caducam a partir do momento em que o decreto de extinção seja aplicado e dedica dois pontos específicos a Ivanka Hosta: ela fica proibida de criar novas associações de fiéis que possam eventualmente evoluir para instituto de vida religiosa ou sociedade de vida apostólica; por outro lado, o delegado pontifício colaborará com o arcebispo de Liubliana na “avaliação das acusações apresentadas e no desencadeamento de um eventual procedimento penal” em relação a Ivanka.
Esta situação, que continua completamente em aberto, dado que nada de formal foi aparentemente concretizado, relativamente à extinção do instituto, permite compreender as inquietações de algumas pessoas com quem o 7MARGENS falou, quanto à “normalidade” com que, nomeadamente, Ivanka aparece na diocese de Braga a trabalhar pastoralmente e a dar a comunhão, como se nada tivesse acontecido. “O bom senso aconselharia prudência”, escutamos em mais de uma fonte.
A aparente inoperância do processo de extinção da Comunidade Loyola, ao nível internacional, é atribuída à resistência do grupo das 17 religiosas fiéis de Ivanka, que, tanto quanto se sabe, já se opuseram às propostas de revisão das constituições da Comunidade, tentadas, em tempo, pelo comissário Libanori. Continuariam, agora, renitentes a colaborar na execução do decreto de extinção, nomeadamente boicotando as reuniões de (ex-)membros da Comunidade, complicando a tarefa do delegado pontifício cujo prazo para resolver os problemas está a esgotar-se.
Por outro lado, há em todo este processo um aspeto que não parece estar devidamente salvaguardado no decreto de extinção e que se relaciona com as muitas irmãs do instituto, que foram vítimas de Ivanka Hosta e que saíram antes de o decreto de extinção ter sido publicado. Tanto quanto se sabe, quer o delegado quer os bispos das dioceses onde a Comunidade Loyola esteve implantada, não cuidaram dessas pessoas que sofreram e muitas continuam a sofrer com o que se passou. A venda dos bens imobiliários (não é o caso de Braga, mas é de outros países), prevista no decreto, deveria servir para apoiar a inserção dos membros e a reparação e apoio das vítimas. Ora, como refere o trabalho atrás citado da Adista, a cerca de três meses de expirar o prazo, as 17 “resistentes” continuam tranquilamente a ocupar os espaços que já ocupavam.









