O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante a 27ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo, em 2019. Foto © Isac Nóbrega/PR do Brasil.
“Todo o político que cita Deus é um ditador em potencial”[1], disse o sociólogo e grande escritor – e, por que não?, profeta – brasileiro Rubem Alves. Estamos a viver no Brasil uma situação político-social lamentável, e não em razão da religião em si, mas do uso político da religião. No sábado, 9 de julho, ocorreu o maior evento evangélico do país, a Marcha para Jesus, do qual participaram diversos políticos e, entre eles o Presidente da República, Jair Bolsonaro. Em 2019, Bolsonaro “entrou para a história do evento como o primeiro presidente a participar dele”, reafirmando seu compromisso com o eleitorado evangélico e com pautas ligadas à família e moral cristã. Naquela ocasião, o Presidente que caminhava para o seu segundo ano de mandato, foi aclamado em todo seu esplendor e glória pelos participantes do evento; três anos depois, com crimes imputados a ele ao decorrer da pandemia de covid-19, com uma crise institucional e econômica, escândalos de corrupção e um histórico de violência política em ascensão, Bolsonaro tornou a ser ovacionado pelos participantes da Marcha para Jesus este ano. Durante o evento, o Presidente apresentou uma narrativa de guerra cultural:
Temos uma posição aqui: somos contra o aborto, contra a ideologia de gênero, contra a liberação das drogas e somos defensores da família brasileira […]. Somos a maioria do país, a maioria do bem, e nessa guerra do bem contra o mal o bem vencerá outra vez[2]
Assim, Bolsonaro encarna o fundamentalismo religioso semelhante daquele que surgiu nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, que de um movimento essencialmente teológico transformou-se em um movimento político-religioso, “com o intuito de moralizar a esfera pública a partir de valores religiosos cristãos fundados na Bíblia”[3]. Esse elemento ideológico é, portanto, o que pode explicar o apoio de uma parcela dos evangélicos a Bolsonaro mesmo com todos os problemas em seu governo. O pastor Milton Ribeiro e ex-ministro da Educação, por exemplo, em sua primeira declaração após a prisão demonstrou que seu apoio ao Presidente permanece mesmo diante a isenção de Bolsonaro no crime que ambos estiveram envolvidos.
Em culto da Igreja Jardim de Oração, na noite de domingo (10), o pastor entoou a seguinte oração por Bolsonaro: “Pedimos a tua bênção sobre o nosso país, sobre a vida do nosso Presidente. Guarda, protege e dirige a vida dele, para que ele cumpra o teu propósito e faça aquilo que for bom para toda a sociedade brasileira.”[4]
Deste modo, de todas as contradições que observamos do uso político da religião, resta-nos retornar a Rubem Alves e aceitar que “política não se faz com a verdade. Política se faz com imagens”[5], isto é, com aparências. E por falar em aparências, uma parábola de Jesus nos alerta para termos “Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” (Mateus 7:15). Nesse sentido, a arte da desconfiança é também um elemento constitutivo da religião, mostrando-nos que sua atuação na esfera pública não deve ser reduzida a um artefato político e de guerra, mas deve cumprir sua vocação denunciativa a favor da justiça e do bem-comum.
Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.
[1] ALVES, Rubem. Conversas sobre política para todos os tempos. São Paulo: Editora Companhia Editora Nacional, 2020, p. 64.
[2] BALLOUSSIER, Anna Virginia; OLIVEIRA, Roberto; PESCARINI, Fábio. Bolsonaro evoca ‘guerra do bem contra o mal’ em discurso na Marcha para Jesus. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2022, disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/07/bolsonaro-evoca-guerra-do-bem-contra-o-mal-em-discurso-na-marcha-para-jesus.shtml. Acesso em 09 jul. 2022.
[3] SOUZA, Andréa Silveira. Fundamentalismo Religioso: o discurso religioso moralista e a disputa por corações e mentes no espaço público contemporâneo. 01. ed. São Paulo: Terceira Via Edições, 2019, p. 163.
[4] ZANINI, Fábio. Milton Ribeiro pede que Deus abençoe Bolsonaro e diz estar de coração partido após prisão. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2022, disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2022/07/milton-ribeiro-pede-que-deus-abencoe-bolsonaro-e-diz-estar-de-coracao-partido-apos-prisao.shtml. Acesso em 12 jul.2022.
[5] ALVES, Rubem. Conversas sobre política para todos os tempos. São Paulo: Editora Companhia Editora Nacional, 2020, p. 63.









