O tempo ameaçava desabar, mas conteve-se, tal como os que prestaram a última homenagem, na Ribeira Seca (Machico, Madeira) ao padre Martins Júnior, que morreu em 12 de junho, aos 86 anos. As nuvens carregadas (ainda chuviscou), o vento por vezes brusco e centenas de pessoas passaram pelo adro da igreja onde foi montado um palco, debaixo de um toldo branco. E foram muitos os que marcaram presença na missa de corpo presente celebrada na manhã deste domingo, 22 de junho. A memória do padre, político, compositor, músico, poeta e símbolo de resistência e luta mobilizou o povo da paróquia da Ribeira Seca e agregou gente das mais variadas proveniências, classes sociais, grupos culturais, especialmente de jovens e partidos. E ausências também: dos poderes regionais, político, religioso e económico.
“A par da tristeza do luto, a alegria da luta”

Missa do funeral do padre José Martins Júnior na Ribeira Seca (Machico, Madeira), 22 de Junho de 2025: a celebração decorreu ao ar livre, no adro da igreja paroquial. Foto © Nicolau Fernandez
Foram vários os testemunhos, de amigos e familiares. Num dos momentos marcantes, o irmão mais novo do homenageado, Bernardo Martins, com o neto ao colo, o elemento mais novo da família, depositou um cravo vermelho sobre o caixão coberto com as bandeiras portuguesa e da freguesia.
Antes, Bernardo sublinhou o “espírito permanentemente livre, inquieto e construtor, com reflexos em todos os campos da sua ação cultural, religiosa e política”. E acrescentou: “Somos irmãos de sangue, mas de luta. Sobretudo participantes da luta dos mais desfavorecidos como os caseiros, pescadores, operários, bordadeiras, produtores de cana (de açúcar) e demais trabalhadores. Irmãos de luta pela dignificação do poder local, pela valorização do povo da Ribeira Seca e do povo de Machico, pela autonomia democrática da Madeira, pela cultura local e regional. Também muitos de vós aqui presentes sois irmãos de luta sob as bandeiras da liberdade, da justiça social, da democracia e da autonomia individual e coletiva.”
O historiador e investigador que, tal como o irmão, foi presidente da Câmara Municipal de Machico e deputado na Assembleia Regional, disse ainda: “O padre é fruto de um povo, do povo da Ribeira Seca, do povo de Machico, do povo da Madeira. Sem este povo o padre jamais alcançaria a dimensão global que assumiu. O povo foi o alimento, o centro, o suporte desta caminhada conjunta.” Em jeito de conclusão, Bernardo Martins afirmou que “a par da tristeza do luto, fica a alegria da luta.” Contrariando o poeta, o irmão de Martins Júnior não tem dúvidas: “O padre não deixou de ser visto, continua e continuará não só a ser visto, mas ouvido e sentido por todos os que comungam os seus ideais, sobretudo os do 25 de Abril.” E deixou um apelo: “Continuemos sempre de pé.”
O legado que permanece

Fotografia do padre José Martins Júnior, no altar da celebração do seu funeral na Ribeira Seca (Machico, Madeira), 22 de Junho de 2025. Foto © Nicolau Fernandez
A historiadora Raquel Varela destacou o seu legado como o de “uma figura de relevo mundial” num mundo onde “sopram ventos tenebrosos de uma guerra mundial”. Uma Igreja a sério, disse, “não tolera a guerra nem a fome”. “O padre Martins, que lutou contra a Guerra Colonial, ensina que a utopia é possível, é possível viver com dignidade entre iguais, é possível exercer a política participativa.” A autora de O Canto do Melro, uma biografia romanceada do padre Martins, acrescentou com voz embargada que o amigo era um exemplo, para todo o país e fora de portas por onde viajava, de auto-organização democrática.
Pelo palco, além da poesia, passaram grupos musicais que interpretaram obras compostas pelo próprio padre Martins.
Margarida Assunção, uma das jovens, sintetizou num texto preparado por um grupo o legado do padre Martins. “Quem educa com o coração nunca parte por inteiro. Fica no que se aprendeu. Fica no que se tornou exemplo. Fica em cada gesto digno, em cada palavra bem colocada, em cada escolha feita com consciência.” Para estes jovens, o padre Martins “não era apenas o que dizia, era a forma como vivia o que dizia… Entre as muitas heranças que nos deixa, há uma que ecoará para sempre entre nós: a poesia que soube nomear o invisível”.
O caminho do povo

Os paroquianos tinham pedido e muitas pessoas apareceram ou levaram cravos vermelhos como homenagem ao homem que lutou pela liberdade do seu povo. Foto © Nicolau Fernandez
José Luís Rodrigues presidiu à celebração eucarística que contou com a presença de apenas outros seis padres – o facto de ser manhã de domingo, com muitas missas a decorrer, pode ajudar a explicar a ausência. Na homilia, o pároco de S. José, no Funchal, destacou três vertentes que o inspiram e mais admirava em Martins Júnior: “a liberdade, a cultura e o desalinhamento”. José Luís Rodrigues afirmou que “na vida de qualquer padre, mais tarde ou mais cedo, se verá confrontado entre dois caminhos, um que diz ‘caminho da instituição madre igreja’ e o outro ‘caminho do povo, onde estão os teus ossos e a tua carne’. Terá que fazer a escolha”. José Luís Rodrigues não tem dúvidas de que o colega presbítero “esteve sempre no caminho que diz: ‘caminho do povo, onde estão os teus ossos e a tua carne’. Como ele várias vezes me confidenciou: ‘a carne, os ossos e o sangue do padre é o povo'”.
Pelo recinto, antes da missa, há a registar a passagem breve, a caminho de uma celebração do crisma numa das paróquias da diocese, do bispo do Funchal, Nuno Brás.
No final da cerimónia, por entre a multidão de cravo vermelho que assim correspondeu ao apelo feito por paroquianos da Ribeira Seca, seguiu o cortejo fúnebre até ao Funchal, com paragem à frente da Câmara Municipal de Machico. Já no cemitério de S. Martinho, onde se realizou a cremação, cantou-se a música Grândola Vila Morena.









