A guerra, as desigualdades, as alterações climáticas e a inteligência artificial (IA) são os quatro grandes desafios que a humanidade enfrenta e, ainda que o nosso futuro dependa da forma como os enfrentarmos, é preciso reconhecer que “em todos os quatro desafios a questão decisiva é o poder”, afirmou António Guterres no seu último discurso como secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), cargo que vai deixar no final deste ano.
Guterres falava no início da 81ª assembleia-geral da organização e precisou: “As divisões geopolíticas aprofundaram-se. As desigualdades intensificaram-se. A confiança desgastou-se. A crise climática deixou de ser um alerta distante para se tornar uma realidade quotidiana. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que apanhou de surpresa até mesmo aqueles que a criaram”.
Enquanto isto: “eclodiram guerras com consequências devastadoras que se prolongaram com uma crueldade abominável. Civis foram alvos. Direitos humanos, atropelados. A fome, foi usada como arma. Trabalhadores humanitários foram mortos. E o direito internacional, deixado de lado.”
O balanço que fez sobre os 10 anos à frente da ONU incluiu a referência a “uma transferência extraordinária de poder dos Governos para um punhado de empresas privadas e indivíduos. O poder destes estende-se agora à política, às economias, aos fluxos de informação, ao desenvolvimento tecnológico e ao espaço cívico do qual as sociedades dependem”. Neste movimento percebe-se que “os seres humanos estão a transferir cada vez mais poder para as máquinas — com agentes de inteligência artificial agindo de forma incontrolável e armas autónomas letais passando da ficção científica para a realidade militar.”
Neste quadro, Guterres sublinha que, apesar de enfraquecida por cortes nas contribuições nacionais (sobretudo dos EUA), a ONU é cada vez mais importante porque existe para obrigar “o poder a respeitar regras” e porque “a humanidade precisa de um lugar onde o poder responda a princípios”. Porém, apesar de um sistema multilateral de uma ONU verdadeiramente representativa ser a única resposta possível à “convergência sem precedentes de ameaças que a humanidade enfrenta”, os seus “mecanismos de ação coletiva estão sob crescente pressão”.
Sem referir a guerra contra o Irão liderada pelos EUA, nem a desastrosa intervenção ocidental de duas décadas no Afeganistão, o secretário-geral referiu que construir um futuro de paz e prosperidade terá de começar “pelo reconhecimento — especialmente por parte das superpotências — de que o seu poder não é tão ‘super’ assim”, “os acontecimentos dos últimos anos deixaram isto inequivocamente claro. O poder militar, por si só, não pode garantir a paz. O poder económico, por si só, não pode assegurar a estabilidade. E o poder tecnológico, por si só, não pode garantir a segurança”.
O planeta: um esgoto a céu aberto

“Durante décadas as grandes empresas petrolíferas trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto — e lucraram com as consequências.” Foto © Future of Life Institute
Embora sem referir o nome de Trump ou o Estado de Israel, Guterres afirmou que o que se seguiu ao ataque do Hamas em outubro de 2023 “foi uma ofensiva contra os palestinianos em Gaza, com uma escala de mortes e destruição sem precedentes em todos os meus anos como secretário-geral”. Nestes anos “a violência, o deslocamento populacional e a expansão de colonatos na Cisjordânia ocupada vieram arrasar o caminho para a paz e levantar o espectro da limpeza étnica”. E concluiu: Não podemos permitir que a solução de dois Estados desapareça diante de nossos olhos”.
Sobre a Ucrânia, Guterres afirmou: “A invasão em larga escala pela Rússia submeteu um país soberano a uma guerra brutal, em flagrante violação da Carta da ONU”. Mas agora, alertou também, “em partes da Rússia, residências, sistemas de energia e água e transportes têm sido alvo de ataques repetidos, ameaçando as cadeias globais de abastecimento de alimentos e energia”.
Ao abordar os desastres provocados pelas alterações climáticas, o secretário-geral foi particularmente cáustico: “Durante décadas as grandes empresas petrolíferas trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto — e lucraram com as consequências. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, cinco grandes petrolíferas ocidentais embolsaram quase meio milhão de milhões de dólares em lucros. Compare-se isto com os 34 mil milhões desembolsados no último ano em financiamento público internacional para apoiar a adaptação climática dos países em desenvolvimento.”
Regressando aos grandes desafios – as guerras, as desigualdades, os choques climáticos e a disrupção tecnológica – Guterres argumentou que não se trata de crises isoladas, mas de desafios interconectados e definiu-os como “a história do poder” no nosso tempo. Poder que sofreu três grandes alterações na sua dinâmica: a emergência de novos centros de influência económica, política e tecnológica entre os Estados; a transferência de poder de Governos para corporações e indivíduos influentes; e a transferência de poder de seres humanos para máquinas, como a inteligência artificial”.
Ao encerrar o seu discurso, o Secretário-Geral disse que “nosso futuro compartilhado será moldado pela capacidade da humanidade de governar o poder com sabedoria” e que “o maior poder não é o poder de dominar. É o poder de construir um futuro que inclua todos”. Aproveitou também para reafirmar os pilares da ONU — paz, desenvolvimento e direitos humanos — e alertou para que “fingir que a paz pode ser separada da dignidade, das oportunidades e dos direitos é uma ilusão inaceitável”. Terminou afirmando que o mundo precisa de uma ONU mais forte e deixou esta mensagem pessoal: “Esteja eu onde estiver, manterei a convicção de que a paz é possível”.
Em contraste, Donald Trump, que falou quase logo a seguir ao discurso do secretário-geral para se vangloriar de vários feitos, nomeadamente o de ter acabado com oito guerras, declarou que embora a Organização das Nações Unidas tenha “um grande potencial” deve “parar de impor a agenda de extrema-esquerda de burocratas globalistas que ninguém jamais elegeu”, garantindo que: “Não existirá um governo global e, enquanto eu for presidente, não haverá impostos globais.” Trump convidou todos os Estados que aderiram ao Tribunal Penal Internacional a retirarem-se formalmente dessa “instituição desonesta”.










