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Projeto Partis (Práticas Artísticas para a Inclusão Social), Fundação Calouste Gulbenkian

[Dicionário particular II]

‘g’ de gente — gente que não bate assim

| 08/10/2025

 

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim,
será chuva?
será gente?
gente não é certamente
e a chuva não bate assim.

(Balada da Neve, de Augusto Gil)

 

Há gente que não bate assim. Não bate à porta, não bate o pé, não bate no peito. É gente que não exige, mas que está. Está nos bairros, nos transportes, nas filas, nos corredores dos supermercados, à porta de lojas. É “aquela gente” que vive ao nosso lado, no nosso prédio, mas que raramente vemos, nem queremos ver!

Há gente que não cabe na lei. Não por ser ilegal, mas por não ser vista, e pela forma como é vista. Gente que desafia a norma, que escapa à gramática jurídica, que não se encaixa nos formulários. Gente que existe e, só por isso, incomoda. São as gentes trans, as gentes racializadas, as gentes migrantes, as gentes com deficiência, as gentes dissidentes. São as que não se ajustam ao modelo hegemónico de cidadania: branco, masculino, altamente qualificado e produtivo, heterossexual, nacional. São as que vivem à margem da legalidade simbólica, aquela que decide quem merece direitos e quem merece ser rigorosamente controlado, vigiado e revistado.

A lei, muitas vezes, não é neutra. É espelho de quem a escreve, de quem a aplica, de quem a interpreta. E quando o espelho não reflete todas as gentes, transforma-se em fronteira, uma fronteira invisível, mas eficaz. Uma fronteira que não se vê, mas que se sente na pele.

No bairro, no hospital, na escola, no tribunal, há gentes que têm de esperar mais tempo, que não podem ousar falar, que têm de ser interrompidas com frequência. Ora, essa, que seria! Há gentes que não são reconhecidas como pais, como parceiras, como cidadãs. Há gentes que não têm voz, nem espaço nos debates.

E no meio disso tudo, há direitos em disputa. Direito à identidade, à mobilidade, à saúde, à habitação, à dignidade. Direitos que não são negados frontalmente, mas que são adiados, dificultados, burocratizados, disfarçados. Direitos que se tornam privilégio, quando deviam ser garantia.

Então e “os nossos”? O “nós” e o “eles”?

Quem decide quem pertence? Quem é que define o perímetro da inclusão? Quem é que traça a linha entre o aceitável e o excessivo, entre o legítimo e o tolerado?

A polarização não é apenas política, é vivida nas gentes. Está inscrita na forma como olhamos, como julgamos, como legislamos. E enquanto não reconhecermos que há gentes que vivem em constante luta por reconhecimento, continuaremos a reproduzir exclusão.

Existir, quando se é sistematicamente apagado, é um ato político. E cada gente que não bate assim é um manifesto vivo. É um lembrete de que os direitos não são estáticos, às vezes é preciso levá-los para o campo de batalha.

E porque também há resistência, há gentes que ocupam espaço, que escrevem, que marcham, que exigem. Gentes que afirmam presença. Gentes que não cabem na lei e, por isso, obrigam a lei a mudar.

E este “ruído branco”, este murmúrio, que não é chuva nem gente, que bate suavemente, não se cala. Permanece, noite e dia, ao sair a porta e ao virar da esquina, em todos os lugares, a bater leve, levemente, como quem chama por mim…

"EU MAIOR" Geração SOMA. VO'Arte

“EU MAIOR” -Geração Soma. VO’Arte. (Práticas Artísticas para a Inclusão Social). PARTIS. Fundação Calouste Gulbenkian.

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

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