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“Os Discípulos Pedro e João correndo para o Sepulcro na manhã da Ressurreição”, por Eugène Burnand, 1898.

[Dicionário particular II]

‘g’ de grito – num Mundo que espera a Luz

| 01/04/2026

 

Estamos em plena Semana Santa, para a Igreja católica a “Semana Maior”. Não por ter mais dias, mas porque concentra em si a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus. É uma semana em que se condessam amor, traição, medo e esperança, num grito que atravessa os séculos.

Quinta‑Feira Santa é um grito abafado, quase inaudível. É o grito de quem deseja comunhão e encontra desconfiança; o grito de quem só lava à máquina e, por isso, não põe um pano à cintura para lavar pés. É o grito de quem adormece enquanto vigia porque todos – todos, todos, todos, querido Papa Francisco – somos discípulos sonolentos, traídos por ruídos que nos emudecem. E o mundo, esse, continua em súplica e a receber como resposta um encolher de ombros.

Sexta‑Feira é um grito cru. Basta acompanhar os noticiários para o ouvir: guerras que não cessam, ódios reciclados, vidas descartadas. A violência tornou-se música de fundo e a injustiça um hábito. Também há quem lave as mãos, convencido de que neutralidade é inocência.

No meio do deserto de vozes, Jesus respondeu sempre com palavras que são grito: grito que não fere, que levanta e resgata; grito que faz falta no tempo atual, por ser de cura e não de destruição. Recordemos:

“Perdoa‑lhes porque não sabem o que fazem” — o grito de misericórdia num tempo em que o julgamento é imediato e feroz.

“Hoje estarás comigo no Paraíso” — o grito de dignidade oferecido aos que deixaram de ser vistos.

No alto da cruz, Jesus não morre em silêncio, morre a gritar.

“Tenho sede” – sede da nossa humanidade.

“Meu Deus, porque me abandonaste” — o grito de todos os que vivem no abismo.

“Tudo está consumado” – o grito que rasga as trevas abrindo caminho: não é uma derrota, é passagem e revelação.

O Evangelho descreve o abandono como um grito mudo, como o momento decisivo em que todos fugiram e ninguém levantou a voz. Algumas mulheres observaram de longe, testemunhas teimosas que se recusaram a virar as costas. Junto à cruz, ficaram apenas a mãe destroçada, Maria, e o amigo fiel, João. Silenciosos, mas na certeza de que era ali que deveriam estar. Este abandono repete-se hoje: perante a dor alheia são muitos os que se afastam para não se comprometerem ou não perderem tempo. Ficam apenas os poucos que não sabem, ou não conseguem, abandonar quem sofre. E são estes que seguram, por um fio, a frágil humanidade.

O Sábado Santo é um grito preso na garganta. Vivemo-lo suspensos entre o que morreu e o que ainda não nasceu; entre o medo e a esperança. É o dia do túmulo fechado, em que Deus trabalha no escuro.

A Ressurreição é um grito de vida, que rasga as trevas, levantando os caídos e devolvendo futuro aos que já só tinham passado. É um grito que não nega a dor, mas que a transcende, que não apaga a cruz, mas que a transforma em Passagem.

Aguardemos a Passagem…que ela seja Santa e Feliz!

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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