Gastronomia, transmissão de costumes e novos migrantes

| 19 Jun 21

Arepas venezuelanas

“Quando emigramos, levamos connosco, além de uma língua e de uma nacionalidade, os nossos hábitos culturais que se materializam nos hábitos alimentares, na música, na educação e na visão de mundo.” Foto: Direitos reservados.

 

Antes da actual pandemia, os movimentos migratórios surgiam no mundo originados por conflitos militares e políticos ocorridos ao longo da história; as dificuldades extremas da sobrevivência em algumas áreas geográficas levaram grupos humanos a procurar um novo destino noutros locais, para satisfazer as suas necessidades socioeconómicas e até mesmo a lutar pela própria vida.

É evidente que nascer e crescer num determinado local geográfico constitui uma característica individual de pertença a uma terra, a uma nação e uma denominação de origem. Por vezes, o contexto força-nos a tomar a difícil decisão de emigrar e deixar para trás tudo o que conseguimos em termos de conquistas económicas, intelectuais e emocionais, na procura de uma nova oportunidade de vida.

Quando emigramos, levamos connosco, além de uma língua e de uma nacionalidade, os nossos hábitos culturais que se materializam nos hábitos alimentares, na música, na educação e na visão de mundo. Ao chegarmos ao destino, verificamos o choque cultural com um novo mundo, ao qual temos de nos adaptar, para lidar com essa realidade e tornar possível a necessária aculturação física e mental.

Por exemplo, no que respeita à alimentação, a mudança pode ser difícil ou até dolorosa, quando não encontrarmos os produtos tradicionais de nossa dieta alimentar. Podemos ser forçados a consumir alimentos com novos paladares, que o nosso organismo não assimila, causando por vezes alguns problemas digestivos.

Em alguns casos, mudam os horários das refeições; noutros, existe um menu que nunca vimos e que temos de experimentar e integrar. O organismo tenta adaptar-se e deixa de consumir temporariamente alimentos de consumo habitual na nossa vida anterior. São substituídos pelos que vamos descobrindo, na nossa nova “casa geográfica”.

No entanto, continua a existir nas prateleiras dos supermercados um conjunto de produtos básicos correntes a que se juntam outros provenientes da globalização.

Os novos produtos relembram-nos que não estamos na nossa terra, mas num outro contexto em que temos de adaptar o nosso gosto aos novos sabores locais. Por vezes, só após um longo período poderemos voltar a degustar os antigos produtos habituais.

Quando o organismo se adapta aos novos sabores e preparações já estamos medianamente instalados; é então que começamos a procurar os ingredientes próprios da nossa terra.

Esse momento acontece quando encontramos fornecedores da nossa dieta nacional, em certas lojas físicas ou eletrónicas; é então que surge a oportunidade de dar a conhecer os nossos hábitos alimentares, a novos amigos e conhecidos.

Hoje podemos observar que, graças ao movimento migratório dos italianos, as pizzas e as massas deixaram de lhes pertencer em exclusivo, mas podemos encontrá-las em todos os pontos cardeais; da mesma forma, encontramos os tacos, a feijoada, a paella, os guisados, os drinks e aperitivos oriundos das diferentes cozinhas do mundo.

Formas diferentes de comer

No caso de grupos numerosos de migrantes da mesma nacionalidade concentrados num dado local ou região surge a possibilidade de se constituírem negócios com as necessárias normas sanitárias e legais do novo país, para satisfazer a saudade dos hábitos alimentares das nossas origens.

Arepas. Venezuela. Cozinha

Arepa: É literalmente a alimentação a que se recorre ao pequeno almoço, almoço, jantar, num lanche social, depois de uma festa ou de um acontecimento desportivo. Foto: Direitos reservados.

Em primeiro lugar, esta iniciativa gastronómica irá satisfazer a comunidade migrante, o que justifica a criação deste serviço; por vezes, ela é mais ampla e permite transmitir sabores e costumes de grupos de migrantes de determinadas geografias específicas. Neste caso, os sabores exógenos englobam-se nos da terra e os pratos típicos dos migrantes, tal como eles próprios, adaptam-se e incorporam novos ingredientes da culinária local, àquele prato tradicional.

A forma de o comer pode ser diferente e o seu lugar no menu também. Pode já não ser uma entrada, mas tornar-se um prato principal; deixar de ser comido à mão e passar a associar talheres; podem alterar-se alguns ingredientes que se costumava incluir. É uma nova versão do original, noutra latitude, a partir da qual novos sabores vão sendo incorporados naquele prato, que enriquecem a gastronomia.

E a nós, migrantes, dá-nos a oportunidade de, sem termos consciência, nos tornarmos embaixadores do nosso país, através da transmissão de aromas e sabores.

A comida venezuelana constitui um exemplo, ultimamente muito apropriado, desta nova dimensão migratória. Para um venezuelano, a chamada arepa é o pão de cada dia.

É literalmente a alimentação a que se recorre ao pequeno almoço, almoço, jantar, num lanche social, depois de uma festa ou de um acontecimento desportivo.

É uma mistura de farinha de milho pré-cozida que se vende pronta a cozinhar e que pode ser frita ou assada no forno; assim sendo, pode até ser adequada para doentes celíacos. Possui um formato característico circular e achatado. Quando pronta, pode ser recheada com inúmeros produtos como queijo, presunto, frango, carne vermelha, ovo, linguiça, frutos do mar, entre outros; pode combinar dois ou mais ingredientes no recheio.

Hoje, devido à numerosa migração venezuelana, espalhou-se por todos os pontos do mundo, da Austrália à China, México, Chile, Espanha ou Estados Unidos.

Este prato tipicamente venezuelano está na vanguarda da gastronomia internacional e adapta-se ao gosto dos mercados locais. Graças a ele e ao seu sabor, no momento de o degustar, os venezuelanos revisitam as suas origens, os seus lares familiares, o seu ambiente de infância e juventude, e um passado próximo ou remoto, que teve de ser deixado para trás; em paralelo, os nativos dos países que os recebem, tornam-se apreciadores daquele sabor tão nacional que é a arepa venezuelana; talvez adicionalmente aromatizada com outros sabores locais, o que a torna mais versátil e mais internacional.

É assim que novos costumes se aculturam, da forma mais direta e subtil, através da gastronomia e da divulgação das culturas estrangeiras. Que, tal como os seus migrantes, se instalam nos novos destinos.

 

Lila Pacheco Piñango é venezuelana e viveu em Portugal em 1993-94, tendo trabalhado no Museu Nacional do Traje, em Lisboa; licenciada em Museologia e História da Arte, reside actualmente no Uruguai (depois de ter trabalhado na Venezuela, de onde saiu por causa da situação política). Faz conteúdo educacional e tem uma empresa social chamada OLEqueMuseus, para a autogestão de coleções de arte no Instagram: @olequemuseos

 

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