Ensaio - Homossexualidades em perspetiva no sínodo I

Gays e lésbicas Deus os criou

| 10 Fev 2024

Dos temas em discussão neste caminho sinodal, as questões do género, em particular a homossexualidade, é porventura uma das temáticas que mais reflete o conflito de sensibilidades dos tempos atuais, sobretudo no Ocidente. Liliana Verde no ensaio “Homossexualidades em perspetiva no Sínodo” propõe-nos uma abordagem de acordo com as duas perspetivas ou sensibilidades presentes na discussão sinodal. Mais do que uma reflexão sobre cada uma delas, trata-se sobretudo de um ponto da situação e do que está em jogo para cada uma dessas sensibilidades. As ilustrações, tendo como título Mysterium Crucis, são da autoria de Alexandra Lisboa. O ensaio será publicado em duas partes, correspondendo cada uma delas a cada uma das perspetivas.

 

Concluída a primeira assembleia do Sínodo dos Bispos iniciado em 2021, o respetivo relatório está já disponível. O processo sinodal pressupõe a escuta do Povo de Deus e não é uma sondagem de opinião nem uma votação parlamentar de propostas de lei. O sínodo, a maneira de estar em Igreja, é, sim, um tempo e o lugar de escuta do Espírito Santo, d’Aquele que nos deve guiar e, por isso, é indispensável discernir, para que a Igreja siga o Bom Espírito.

Neste processo, as tentações são muitas e inevitáveis, desde centrar-se em problemas restritos até à tentativa de imposição de agendas mediáticas. Uns acharão que isso aconteceu, outros não, nomeadamente com uma das temáticas que, muito provavelmente, mais reflete a sensibilidade dos tempos atuais, sobretudo ocidental, as questões do género, em particular a homossexualidade. Alguns dos desafios, questões e preocupações atuais, dentro da Igreja Católica, dizem respeito, por exemplo, a:

  1. relacionamentos homossexuais por batizados, cristãos católicos – em namoro, coabitação, – união de facto ou casamento civil, que integram ou querem integrar a comunidade eclesial;
  2. educação da sexualidade em espaços cristãos católicos, tais como catequeses de crianças e adultos, escolas, centros universitários juvenis, formações de pais e outros educadores, seminários, noviciados/juniorados e congregações religiosas, ensino superior, movimentos…;
  3. bênção de casais/pares homossexuais e/ou a sua admissão ao matrimónio;
  4. possíveis contradições consequentes do pedido de batismo de crianças ao cuidado de casais/pares homossexuais, nomeadamente de acordo com o atual ritual romano da celebração do batismo de crianças;
  5. adoção de crianças por casais/pares homossexuais, sobretudo em instituições católicas;
  6. acesso a todos os sacramentos por pessoas em relacionamentos homossexuais;
  7. acesso à vida religiosa, ao sacerdócio e a ministérios instituídos por pessoas com tendências homossexuais;
  8. acolhimento e acompanhamento pastoral de pessoas com tendência homossexual e suas famílias.

Atendendo à especificidade do contexto, refira-se que todas estas questões são comuns a outras denominações religiosas, e não somente às cristãs.

Desde a década de 70,  foram sendo publicados alguns documentos eclesiais sobre a questão homossexual, entre eles: o Catecismo da Igreja Católica (n.os 2357-2359), a Declaração ‘Persona Humana’ sobre alguns pontos de ética sexual (1975), a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais (1986), Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais (1992), Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais (2003), Sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras (2005), Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio (2008), o Responsum da Congregação para a Doutrina da Fé a um dubium sobre a bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo (2021) e a Declaração Fiducia supplicans (2023) com comunicado à imprensa sobre a sua receção (2024). Ainda incluímos, sobre a questão homossexual e a questão do género, documentos da Conferência Episcopal Peruana (1998) e da Conferência Episcopal Portuguesa (2013). Também sobre estas questões e sobre a antropologia cristã da família, mais recente é o documento Homem e mulher os criou – para uma via sobre a questão do gender na educação.

Ora, a questão está longe de ser linear para muitos fiéis, apesar da ortodoxia católica em relação à questão da atração homossexual e sobretudo em relação aos relacionamentos homossexuais. Precisaremos, neste momento, de orientações ainda mais concretas? De reafirmar e esclarecer a posição do magistério? De introduzir nuances alternativas à doutrina? De esperar por outros momentos eclesiais, procurando um maior aprofundamento e amadurecimento deste assunto?

Face aos sinais dos tempos, próprio do caminho sinodal, é necessário escutar, acolher e compreender as questões levantadas, refletir melhor sobre eventuais contradições e estas realidades menos conhecidas, dentro e fora do espaço eclesial… Isso é parte intrínseca do processo de discernimento que não pode, nem deve deixar de questionar, nem de conhecer a realidade, sob pena de se omitir informação determinante para resoluções que têm impacto na vida dos crentes.

Neste sentido, expomos sumariamente duas perspetivas sobre a homossexualidade e a sua vivência. Estamos cientes de que o exposto não é um texto científico, nem esgota a argumentação sobre esta matéria, para além de não incluir o necessário contraditório… Logo, uns poderão rever-se mais nalguns aspetos do que noutros, ou até considerar o exposto insuficiente para o entendimento do fenómeno. Não obstante, esperamos, apesar de tudo, que contribua para uma melhor elucidação da complexidade desta temática, ajudando a um discernimento eclesial elucidado neste processo contínuo que é a sinodalidade.

A ordem da apresentação das duas perspetivas é aleatória.

 

Primeira Perspetiva
Gays e lésbicas Deus os criou

 «[N]a medida em que o amor entre duas lésbicas ou dois gays for construtivo, não ofende Deus nem transgride de forma alguma o plano divino.»
John J. McNeill (1925-2015), psicoterapeuta, ex-sacerdote, gay

Alexandra Lisboa, Mysterium Crucis, guache sobre papel de aguarela, 2019

Diversidade de identidades de género: a especificidade da homossexualidade

A homossexualidade é uma variante natural da orientação sexual de uma percentagem considerável da população a nível mundial, em todas as culturas e religiões. Durante muito tempo, a homossexualidade foi vista como uma monstruosidade, uma doença, uma disfunção, uma alteração da personalidade, uma perturbação (é justo afirmar que, em culturas diferentes, não-ocidentais, ainda se entendem tais comportamentos como perturbações).

A ciência tem evoluído muito na compreensão das expressões de género, num percurso de despatologização. É assim que, a partir de 1973, a Associação Americana de Psiquiatria fez um caminho no sentido de considerar a homossexualidade uma orientação sexual normal. Assim, se o DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) a classificava, em 1994, como uma «perturbação da identidade sexual», já o DSM-V, em 2013, não o fazia. Foi um salto de dignidade destas pessoas, para viverem livremente a sua sexualidade, livrando-as de perseguição e maus-tratos. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) havia antecipado esta orientação, retirando a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças… Um salto de gigante e uma vitória para as relações homoafetivas!

O amor é humano e não é exclusivo dos cisgéneros (pessoas cuja identificação de género coincide com o sexo atribuído à nascença). Ele existe em diferentes tipos de relações e é possível numa relação entre dois homens ou entre duas mulheres…  Afinal, os que assim se relacionam são pessoas normais, com quem nos cruzamos todos os dias.

Porém, nas últimas décadas, gays e lésbicas têm-se assumido mais aberta e frontalmente, ainda que possam, numa sociedade de mentalidade fechada, ser confrontados com atitudes estigmatizantes, discriminatórias, insultuosas ou depreciativas, – com a dificuldade de alugar uma casa, serem aceites num emprego, e, enfim, ser considerados família ou um tipo de família.

Na verdade, a luta destas pessoas pelos seus direitos  é uma constante diária. Ainda assim, a permissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo veio dirimir estes impedimentos e permitir maior abertura e liberdade de opções de vida.

 

A sexualidade e a necessidade de assunção de um novo paradigma sobre o amor humano

Alexandra Lisboa, Mysterium Crucis, Aguarela, 2019.

 

A sexualidade é um ponto sensível que tem afastado crentes da Igreja. É particularmente relevante a comunidade LGBT+, que se sente excluída e maltratada, por não ser aceite na sua autodeterminação, autoperceção e expressão de género, negando-se-lhe a sua identidade e individualidade próprias.

Não há outra matéria da doutrina com que o magistério tenha tanta dificuldade em lidar, que seja tão discutida e posta em causa como a que diz respeito à sexualidade e ao sexo. Assim é, pois continua a reger-se por um velho paradigma pré-conciliar, retrógrada no que à moral sexual diz respeito. São ideias abstratas, puramente intelectualistas, com pouco fundamento na realidade dos fiéis.

As primeiras manifestações exteriores de posições diferentes da doutrina permitiram ver outras dimensões da sexualidade dos crentes. Ora, o testemunho real de cristãos homossexuais em relacionamentos amorosos põe em evidência relacionamentos que se querem verdadeiros e honestos, e fiéis na sua relação.

A escuta atenta, sem preconceitos, de gays e lésbicas, na forma como se compreendem sexual e afetivamente, no seguimento do Senhor, permite-nos dar conta de como os documentos do magistério sobre a sexualidade, onde tudo é preto e branco, denunciam fragilidade, pois não encontram total correspondência nestas relações.

A Igreja continua a negar a identidade homossexual da sexualidade, afastando gays e lésbicas, pessoas que, obviamente, não se sentem bem num ambiente que as censura e reprime. Nega-lhes um caminho de santidade, nas suas relações comprometidas, numa vida de intimidade com o mesmo sexo e, ao nível do magistério, não orienta estas relações, persistindo na condenação dos homossexuais à abstinência sexual perpétua.

Crentes gays e lésbicas podem não realizar plenamente o matrimónio cristão – o que, de resto, é questionável se acontece com todos os casais heterossexuais –, mas fazem-no de forma parcial, análoga ao casamento heterossexual. Ora, há sementes de verdade nestas relações, de que é preciso cuidar para que deem o seu próprio fruto na vida de casal e a nível social. O amor homossexual pode ser um amor santo, que testemunha a presença de Deus tão eficazmente quanto o amor heterossexual.

É como ver o copo meio cheio ou meio vazio. Nas relações homossexuais, numa avaliação positiva, há que salvaguardar o que há de bom e genuíno suscitado pelo Espírito Santo: a doação mútua, a entreajuda, o sacrifício, o cuidado, a fidelidade, tudo o que têm de complementar e de abertura à vida, ainda que distintamente das relações heterossexuais. Vários casais homossexuais testemunham-no, ainda que em silêncio.

A Igreja tem colocado intransigentemente a tónica na procriação, sem se questionar sobre outras formas de fecundidade.

Na verdade, a relação homossexual é um «amor possível». Nela, existe alteridade e fecundidade, ainda que diferente de uma relação heterossexual. A alteridade que existe é a homossexual, pela existência de um outro corpo diferente, a nível afetivo-psicológico, sociocultural, por ser outra pessoa diferente. Ao nível da fecundidade sexual, esta existe também na união homossexual. Ela não é procriativa, gerativa, mas é fecunda pela comunhão pessoal: fecundidade espiritual, relacional ou social. Em última instância, os casais homossexuais assemelham-se, no seu fim procriativo, aos casais inférteis, que a Igreja não exclui; e é redutor não os assumir procriativos, se são perfeitamente capazes de cuidar e educar filhos. Até aqui a Igreja é incoerente: como pode acolher as crianças, não acolhendo os que as amam, numa outra realidade, como gays e lésbicas?

Não é justo, para pessoas que querem seguir Jesus, colocar-lhes a cruz pesada de negarem a forma de amar que livremente escolheram e onde são fiéis.

Este novo paradigma é um paradigma próprio de uma sociedade aberta onde a vida concreta dos crentes conta. Por isso, urge repensar a moral sexual e a forma como a Igreja se posiciona em relação a vários assuntos (como as relações pré-matrimoniais, o divórcio, os métodos contracetivos, a masturbação como expressão do amor homossexual, a diversidade sexual). É preciso dizê-lo: os ensinamentos da Igreja sobre moral sexual são desprezados por um grande número de cristãos e teólogos, merecendo este fenómeno uma releitura dos velhos paradigmas, esforço que tem sido corajosamente percorrido por cristãos, apesar do desprezo e da discriminação de que são alvo.

Em quantas paróquias não há relações adúlteras, casamentos múltiplos, uso da pílula, do preservativo ou de outros métodos contracetivos, mas se condena o amor entre gays e lésbicas que se amam e são fiéis na sua relação homoafetiva? Fecham-se os olhos a uns, mas não a outros; premeiam-se uns com os sacramentos, mas negam-se os sacramentos a outros. Abençoam-se carros, elevadores e até armas, mas proíbe-se a bênção de casais do mesmo sexo. Não é esta forma de estar da Igreja incoerente?

De facto, a Igreja Católica é muito idealista e pede coisas muito exigentes às pessoas, levando-as a sentirem-se desanimadas, desmotivadas e excluídas. A injustiça é ainda maior, quando se é praticante.

 

Não há família, há famílias – para uma cultura da aceitação e inclusão da família homossexual na Igreja

Alexandra Lisboa, Mysterium Crucis, Aguarela, 2018.

 

Não existe família, existem famílias: as famílias tradicionais, as famílias monoparentais, homossexuais e, noutras culturas, até famílias doutros géneros. As pessoas têm direito a ter a sua família e a serem felizes nela, da forma que quiserem. Este é um requisito da liberdade humana.

As famílias homossexuais são uma realidade. Testemunham uma outra configuração de ser uma experiência de família, também cristã, na riqueza da diversidade do seu amor. Fundam-se no reconhecimento igualitário ao amor, à sua vida sexual, à partilha e à comunhão de vida. De tal modo são reais que são conhecidas do público em geral, como pessoas famosas e de grande projeção mundial no mundo da política, das artes… As famílias arco-íris são como as outras, com todos os direitos e deveres, inclusive à homoparentalidade, testemunhada dentro da Igreja. Gays e lésbicas desejam-se, amam-se e constroem, juntos, um projeto de vida. Alguns são tão ou mais generosos que famílias heterossexuais que criam e educam crianças e têm os seus próprios filhos, fruto de adoção, inseminação artificial ou de relações heterossexuais anteriores. Há estudos que demonstram mesmo que são até mais envolvidos que outros tipos de famílias. São famílias que precisam de acolhimento, de validação e aprovação, sem qualquer condenação. Não vamos aceitar estas pessoas só porque são diferentes? Quantas pedras temos, ainda, contra elas?

Há um caminho longo a percorrer, para que a Igreja Católica aceite as uniões e os casamentos homossexuais, na sua especificidade e riqueza de diversidade. Pode, ainda, não ser nos próximos tempos que os aceitem. Contudo, a abertura à realidade da vida concreta das pessoas e os sinais dos tempos deixam antever questões e mudanças que, antes ignoradas, são sinal de abertura. Se a Igreja Católica permite a readmissão de recasados,  de que é evidência de acolhimento como aconteceu no Sínodo da Família, por que não o faz com os casais homossexuais? O mesmo processo de encontro, acolhimento, discernimento e integração pode ser aplicado a estes casais. Aliás, muitos padres já davam, antes da declaração Fiducia supplicans, a bênção a casais homossexuais, casados ou não pelo civil. Pena é que esta compaixão fosse uma realidade escondida ou negada, votada à clandestinidade, apesar de se ter revelado real, sobretudo na reação de padres católicos alemães, em questionamento e desafio ao Vaticano. Além disso, já era uma realidade noutras igrejas como a anglicana. Novas esperanças desta aprovação pontifícia das uniões de pessoas do mesmo sexo são, agora, abertas para aqueles que querem viver a sua união homossexual no seio da Igreja Católica. Esta bênção é uma oportunidade para que o amor cresça no casamento de gays católicos. Contudo e, apesar da lufada de ar fresco na abertura aos casais não normativos, ditos “irregulares”, associações católicas LGBT+ recebem a última declaração do Vaticano com desapontamento, por esta conceder uma “bênção menor” ao amor homossexual, continuando a assumir os casais homossexuais como irregulares e pecadores. Porquê esta reação quando o caminho sinodal tem pedido maior abertura aos grupos LGBT+? Ou será esta uma esperança de algo mais no caminho do enriquecimento da doutrina católica sobre a sexualidade? Podemos esperar a igualdade sacramental, pelo matrimónio homossexual?

 

Integração de casais homoafetivos na Igreja

Alexandra Lisboa, Mysterium Crucis, Tinta da China, 2020.

 

A falta de aceitação da identidade gay, lésbica e bissexual tem gerado conflitos de identidade homossexual e crenças religiosas em casais de pessoas do mesmo sexo, familiares e pessoas aliadas, com risco acrescido de suicídio, com probabilidade de abandono da religião.

Apesar das dificuldades com que casais de gays e lésbicas são recebidos na Igreja, há bons sinais de que a comunidade gay começa a ser escutada e respeitada pela hierarquia da Igreja. Inúmeros bispos já não se reduzem ao silêncio como antes, manifestando atenção para com estes fiéis. Vai, pois, sendo criada uma ponte entre a comunidade LGB (assim como LBGTQIA+) e a Igreja, com «respeito, compaixão e delicadeza», como pede o Catecismo da Igreja Católica.

Estão a excluir-se da Igreja pessoas batizadas, com uma orientação sexual diferente, criando-se um ambiente de suspeita e de incompreensão. É uma homofobia internalizada, por vezes explícita, que dificulta as pontes, o diálogo e a inclusão desta minoria.

Mas os caminhos para a inclusão vão-se percorrendo, ainda que de forma muito ténue. A questão da linguagem é importante, por isso, uma primeira ponte a estabelecer com as pessoas homossexuais é denominá-las de gays e lésbicas – são irmãos gays e irmãs lésbicas batizados.

Obviamente que é preciso deixar que lésbicas e gays trabalhem e tragam os seus talentos para as paróquias e façam tanto bem que é preciso fazer. Só assim poderão estar integrados na comunidade cristã, desenvolvendo a sua missão evangélica.

É necessário reconhecer que a comunidade homossexual existe, com missas que incluam casais gays e lésbicas, acolhendo-os e fazendo com que sejam bem-vindos. As homilias deverão ser também um momento para falar do amor homoafetivo, de como pode ele crescer nas virtudes que lhe são próprias.

Um motivo grave que vota gays e lésbicas à invisibilidade é, ainda, o ensinamento da Igreja no Catecismo. Muitos gays e lésbicas sentem-se excluídos, quando as suas relações são consideradas desordenadas. Os n.os 2357-2359 merecem uma revisão que reconheça as sementes de verdade das relações homoafetivas. Esta visão fechada da sexualidade tem bloqueado a discussão e o pensamento teológico, condenando às margens irmãos na fé que querem fazer o seu percurso sem negarem a sua sexualidade.

A proposta da Amoris Laetitia de acompanhar, discernir e integrar situações de divorciados em novo regime de casamento, e que ainda não correspondem plenamente ao ensinamento da Igreja sobre o casamento, é um caminho possível para os casais homossexuais. É necessário acompanhar estes casais nas virtudes em que as suas uniões podem constituir um bem social. Compete aos batizados gays e lésbicas discernir, em consciência, a melhor decisão a tomarem sobre a forma como integram a comunidade cristã. O seu compromisso perante a comunidade cristã, de relações duradouras e estáveis, à semelhança do que outras igrejas cristãs já realizam, pode ser selado com uma bênção, ajudando-os a fazerem caminho e a crescerem espiritualmente.

 

Homossexualidade e interpretação bíblica para o mundo de hoje

 

A Bíblia é um livro historicamente contextualizado, necessitando da mediação para ser entendido e adequado a cada época. Precisa, efetivamente, de ser interpretada e as suas passagens contextualizadas. Isso é particularmente relevante no que à homossexualidade diz respeito.

O pecado da «sodomia» (termo que tem a sua origem em Sodoma) nasce de um mito criado por Filos de Alexandria, um filósofo do século I, em que a cidade de Sodoma teria sido destruída por Deus, pela perversão sexual do seu povo. Na verdade, o pecado que aí é narrado é antes a falta de hospitalidade e a violência contra o estrangeiro. Contudo, não foi esta a versão que ficou na tradição cristã, mas uma perspetiva que haveria de se aliar à ética estoica, permitindo-se somente as relações sexuais dentro das relações matrimoniais e para procriação.

O contexto bíblico não perspetiva relações homossexuais paritárias, consentidas, comprometidas, por isso, relações homossexuais como hoje as entendemos. Além disso, distinguiam-se diferentes tipos de relações homossexuais abusivas, a que muito provavelmente se reportaria Paulo nas suas cartas.

Agostinho de Hipona, condenando o prazer sexual, haveria de assumir a mesma defesa. Tomás de Aquino haveria de condenar diferentes categorias da luxúria, em que incluía o vício não natural (contra naturam), considerando a homossexualidade um vício mais grave que o incesto ou a violação, por entrar em contradição com a ordem natural. O resultado desta visão interpretativa do texto bíblico foi a condenação da homossexualidade, chegando-se a queimar pessoas na fogueira da Inquisição, a matá-las em campos de concentração , sendo ainda muitos os países que votam gays e lésbicas à pena de morte.

Enfim, a condenação do comportamento homossexual e do prazer sexual, conservadora, está associada a uma longa tradição de desconfiança e incompreensão que marca, ainda hoje, muitos católicos e que toma os relacionamentos homossexuais, nomeadamente a prática sexual homossexual, ainda que consentida e comprometida, como pecaminosa.

A Igreja, que se pretende misericordiosa e empática, deve libertar-se de preconceitos que marcaram o seu pensamento e a sua atuação durante tantos séculos. É importante aprender a escutar gays e lésbicas marginalizados, acompanhando-os no seu crescimento humano e espiritual, ousando reinterpretar a experiência sexual.

Os textos bíblicos ajudam gays e lésbicas a rezar a sua relação com Deus, assim como familiares, amigos e aliados LGBT a rezar a relação com estas pessoas: (Gn 17,5) Como foi para ti «sair do armário»? Como foi essa «nomeação»?; Que dons e de que modo é que as pessoas LGBT trouxeram os seus dons para a tua vida e para o ministério? (1Cor 12, 12-27); De que forma é que uma pessoa LGBT já foi para ti um bom samaritano? (Lc 10, 25-37)…

 

Grupos de integração pastoral de gays e lésbicas

 

Homoafetividade e fé são incompatíveis? Os testemunhos vivos de Krzysztof Charamsa, Eve Tushnet, Wendy Young, Patrick Flores e tantos outros dizem que sim.

A Igreja é para «todos, todos, todos», tod@s, todes, todxs! Mas esta não é a realidade. O segregacionismo de género impede a gays e lésbicas (e LGBTQI+) fazerem parte da Igreja. Negam-se-lhes os sacramentos, impede-se a sua vocação, quer-se impor uma disciplina moral sexual que não é a vivência de gays e lésbicas. Ainda haverá de ser reconhecido o primeiro gay ou a primeira lésbica pela Igreja!

De facto, gays e lésbicas não estão autorizados a fazer parte da Igreja naquela que é a sua realidade sexual e de género. Infelizmente, como nas catacumbas de outrora, são forçados a reunir-se em espaços e celebrações restritas. Noutras denominações cristãs, vão surgindo igrejas inclusivas, abertas a uma nova perspetiva da homossexualidade, trabalho realizado pela Teologia Inclusiva.

A Igreja Católica, sem discernimento a partir da realidade, já condenou as teorias de Galileu, já compactuou com a escravatura, já teve de mudar o seu ensinamento sobre os empréstimos bancários e a liberdade religiosa, a sepultura fora das igrejas ou dos suicidas, assim como já defendeu a superioridade do homem em relação à mulher. Se foi capaz de mudar as suas ideias, não o poderá/deverá fazer em relação à moral sexual, aos casais homossexuais? Já reconheceu tantos erros seus, não deveria posicionar-se numa atitude de humildade e de escuta, pelo menos a realidade de gays e lésbicas? A História já provou que, na Igreja, nem tudo o que é tradição é legítimo e até a tradição deve estar aberta à crítica. Além do mais, o que hoje concebemos sobre a homossexualidade e comportamento homossexual, como uma orientação natural da sexualidade, não é necessariamente o que se concebeu anteriormente. A tradição não é imutável e tem a capacidade de se renovar, sobretudo quando é urgente olhar a sexualidade de forma misericordiosa.

Procurando a integração dessas uniões homossexuais, nos Estados Unidos, o grupo DignityUSA, remontando aos anos 70, iniciou um trabalho pastoral com gays e lésbicas. Atualmente, procura celebrar a integridade e a santidade dos católicos LGBTQI, integrando também bissexuais, transexuais e pessoas de diferentes atrações sexuais.

Laivos de esperança e inclusão têm-se, então, aberto em movimentos LGBT+ católicos e igrejas inclusivas, como o Acceptance ou o LGBT Task Force.

Do sínodo alemão nasceram novas esperanças. Leigos e bispos têm-se vindo a levantar para defender o amor entre gays e lésbicas. Na Bélgica, bispos flamengos criaram uma bênção para casais homossexuais.

Em Portugal, Rumos Novos, Riacho e Movimento Sopro marcam um caminho de abertura e inclusão de pessoas LGBT+. Várias iniciativas têm-se proposto discutir, elucidar, dar voz, acolher, incluir e  aceitar diferentes sexualidades como o programa Entre Linhas, do Corpo Nacional de Escutas, ou a iniciativa 3 Milhões de Nós. O nosso país conta ainda com a sua primeira igreja inclusiva.

 

Leituras para aprofundamento:

1. Problemas de Género, de Judith Butler
2. Identidade de Género e Orientação Sexual na Prática Clínica, de Ana Macedo
3. Ética Prática no Mundo Real – 82 breves ensaios sobre coisas realmente importantes, de Peter Singer
4. Elogio da homossexualidade, de Luís Alegre
5. Os excluídos da Igreja, de John J. McNeill
6. Building Bridges: Gay & Lesbian Reality and the Catholic Church, de Robert NugentJeannine Gramick
7.
Construindo uma Ponte, de James Martin
8. Cattolicesimo e (omo)sessualità. Sapienza teologica e benedizione rituale, de Andrea Grillo

9. L’amore possibile – Persone omosessuali e morale cristiana, de Aristide Fumagalli
10. Seeds of truth in same-sex relationships: Paths of accompaniment, discernment, and integration for Gay and Lesbian persons within Catholic communities, de João Manuel Silva

 

Liliana F. Verde é Professora, licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Especializada em Educação Especial e Pós-graduada em Dificuldades Específicas de Aprendizagem/Dislexia. Foi Assistente de Línguas Comenius, na Finlândia.

 

O próximo texto “Segunda Perspetiva: Atração pelo mesmo sexo – das feridas interiores a uma antropologia reinventada”, será publicado domingo, dia 11 fevereiro.

 

Uma exposição que é “um grito de alerta e de revolta” contra a perseguição religiosa

No Museu Diocesano de Santarém

Uma exposição que é “um grito de alerta e de revolta” contra a perseguição religiosa novidade

Poderá haver quem fique chocado com algumas das peças e instalações que integram a exposição “LIBERDADE GARANTIDA” (escrito assim mesmo, em letras garrafais), que é inaugurada este sábado, 20 de abril, no Museu Diocesano de Santarém. Mas talvez isso até seja positivo, diz o autor, Miguel Cardoso. Porque esta exposição “é uma chamada de atenção, um grito de alerta e de revolta que gostaria que se tornasse num agitar de consciências para a duríssima realidade da perseguição religiosa”, explica. Aqueles que se sentirem preparados, ou simplesmente curiosos, podem visitá-la até ao final do ano.

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito”

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito” novidade

O 7MARGENS irá publicar durante as próximas semanas os depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Este primeiro texto inclui uma pequena introdução de contextualização do autor aos textos que se seguirão, bem como o primeiro de 25 depoimentos. De notar que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Dois meses e meio depois, está na hora de reconstruir

Mosteiro Trapista de Palaçoulo

Dois meses e meio depois, está na hora de reconstruir novidade

As obras de requalificação do Mosteiro Trapista de Palaçoulo já se iniciaram. Numa primeira fase, procedeu-se à retirada de escombros, pela mesma empresa que realizou a construção do mosteiro. Desde o fim do período pascal estão em andamento os processos de reconstrução, tendo estes começado por “destelhar a casa”. Em breve, esperam as irmãs, será possível “voltar a oferecer a hospedaria aos hóspedes”. 

A família nos dias de hoje e não no passado

A família nos dias de hoje e não no passado novidade

Quando dúvidas e confusões surgem no horizonte, importa deixar claro que a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada pelo Concílio Vaticano II nos apresenta uma noção de família, que recusa uma ideia passadista e fechada, rígida e uniforme. Eis por que razão devemos reler os ensinamentos conciliares, de acordo com a atual perspetiva sinodal proposta pelo Papa Francisco, baseada na liberdade e na responsabilidade.

Convento das Capuchas: “Cem anos depois, aqui estamos… a ver as maravilhas multiplicar-se”

Comprado pela Madre Luiza Andaluz, em 1924

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Um século volvido sobre a compra do edifício do Convento das Capuchas, em Santarém, por Luiza Andaluz (fundadora da congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima) para ali acolher cerca de cem raparigas que haviam sofrido a pneumónica de 1918 ou que por causa dela tinham ficado órfãs… o que mudou? O 7MARGENS foi descobrir.

A Poesia na Rua

A Poesia na Rua novidade

“É preciso ajudar. Ajudar quem gostaria que a poesia estivesse na rua, que a alegria fosse um privilégio de todos. Ajudá-los contra os que lubrificam a máquina do cinismo e do ódio.” – A reflexão de Eduardo Jorge Madureira, na rubrica À Margem desta semana.

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