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© UnicefMohammed Nateel Duas crianças limpam os destroços do lado de fora de uma tenda na cidade de Gaza
Duas crianças limpam os destroços do lado de fora de uma tenda na cidade de Gaza. Foto © Unicef/Mohammed Nateel.

Denúncia da Cáritas Jerusalém

“Gaza tem o maior número de crianças amputadas da história moderna”

| 31/05/2026

 

O conflito em Gaza está a deixar uma marca profunda na população mais vulnerável, apontou a Cáritas Jerusalém. O número de pessoas com deficiência aumentou significativamente, afirmou Anton Asfar, secretário-geral da organização à agência de notícias católica italiana SIR (Servizio Informazione Religiosa): “Pelo menos 41.844 feridos necessitam de reabilitação a longo prazo e cerca de 25% são crianças, o que significa mais de 10 mil menores com deficiências graves diretamente relacionadas com a guerra.”

Depois do Papa Leão XIV ter apelado para que a ajuda humanitária chegue à população do território palestiniano ocupado, a Cáritas Jerusalém descreveu (na quarta-feira, dia 27 de maio) um quadro dramático da situação sanitária e ambiental. “Desde o anúncio do cessar-fogo, estamos paralisados, a tentar salvar vidas com os recursos disponíveis da Cáritas”, completou o responsável no artigo da SIR, também citado pelos sites de informação Religión Digital e  Unisinos.

As crianças estão entre as muitas vítimas e de forma particularmente violenta. “Infelizmente, Gaza tem o maior número de crianças amputadas da história moderna”, afirmou o secretário-geral da Cáritas. Neste contexto, o acesso a cuidados e assistência é cada vez mais difícil. “Estamos a lutar para fazer entrar na Faixa dispositivos de assistência e equipamento médico e vivemos uma escassez contínua de recursos, sobretudo de medicamentos”, denunciou a organização, reiterando a urgência de corredores humanitários eficazes e contínuos.

As palavras da Cáritas inscrevem-se na linha do apelo do Papa, que pediu à comunidade internacional um compromisso concreto e duradouro para apoiar a população de Gaza. Um pedido que, à luz dos dados, parece cada vez mais urgente: sem intervenções imediatas, a crise sanitária e ambiental corre o risco de se transformar numa catástrofe irreversível.

 

OIM. Gaza

No inverno, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) forneceu tendas em toda a Faixa de Gaza para abrigar as famílias que perderam as suas casas. A falta de condições de habitabilidade e a destruição de edifícios e infraestruturas deixa a população mais exposta a doenças. Foto © IOM.


Destruição de infraestruturas civis

Segundo o SIR, nos últimos dois anos, o conflito desencadeou uma crise sistémica que afeta todos os aspetos da vida quotidiana: casas destruídas, insegurança alimentar, acesso limitado à saúde, escolas fechadas e perda de meios de subsistência. Anton Asfar sublinha que a infraestrutura de água, saneamento e gestão de resíduos está amplamente destruída, enquanto a falta de recursos impede mesmo a manutenção do que resta. O resultado é um contexto em que toda a população está exposta ao risco de epidemias, num território marcado por danos ambientais sem precedentes no solo, nos recursos hídricos e no litoral.

A crise hídrica é especialmente grave. “As reservas de água potável já são extremamente limitadas, enquanto a destruição dos sistemas de saneamento e o uso de soluções improvisadas contaminaram o aquífero do qual depende grande parte da população. As áreas marítimas também estão comprometidas”, notou o secretário-geral da Cáritas. “As consequências já são evidentes: as doenças infecciosas estão em ascensão, incluindo diarreia aguda, que aumentou 36 vezes, e casos de icterícia aguda relacionados com a hepatite A.”

 

Falta de água e saneamento, lixo acumulado

Esta crise da água e saneamento é agravada pela acumulação do lixo. “A Faixa de Gaza está a afundar-se no lixo”, descreveu a Cáritas, explicando que, desde outubro de 2023, o colapso do sistema de gestão de resíduos transformou montes de lixo e entulho em focos de doenças. “Há insetos e roedores que proliferam e espalham doenças graves, como o hantavírus, a leptospirose, a salmonelose, a febre por mordedura de rato e a peste bubónica, agravando ainda mais um sistema de saúde já à beira do colapso”, destacou o responsável da organização em Jerusalém.

A escassez de energia também está a obrigar a população a queimar plástico para cozinhar, com graves consequências para o meio ambiente e a saúde. “O ar está cada vez mais poluído, as doenças respiratórias estão a aumentar e dioxinas, substâncias altamente tóxicas e cancerígenas, estão a ser libertadas para o ar”, denunciou Anton Asfar. No setor alimentar, a situação também é crítica. A destruição da vegetação atingiu níveis quase totais: “A Faixa perdeu 97% das suas árvores frutíferas, 95% dos seus arbustos e 82% das suas culturas anuais, tornando impossível qualquer produção de alimentos em larga escala. Nesse contexto, mais de 500 mil pessoas enfrentam a fome.”


UN News Crianças em Gaza aguardam que seus recipientes vazios sejam enchidos com alimentos

Crianças em Gaza aguardam que seus recipientes vazios sejam enchidos com alimentos (foto de junho de 2025). Hoje, mais de 500 mil pessoas enfrentam a fome. Foto © UN News.

A política deliberada, intencional e clara de destruição de civis e infraestruturas civis, como os sistemas de água e saneamento, energia ou das plantações, entre outros aspetos, por parte de Israel, levou organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch a declararem que o Estado israelita está a promover o genocídio na Faixa de Gaza.

 

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