Génesis – Uma redacção possível

| 6 Fev 2024

Giovanni di Paolo di Grazia, Criação do Mundo

” A fé ensina-nos, convida-nos e prepara-nos para vislumbrar, celebrar e cantar a beleza, a profundidade e a incompreensibilidade desta economia divina, que abraça o universo inteiro.” Gravura: Giovanni di Paolo di Grazia, Criação do Mundo (1445)

No nosso presente, tão ameaçado pela crise ecológica, pelas alterações climáticas, pelas guerras em curso e por outras que já se insinuam, talvez se afigure algo inoportuno refletir sobre a Criação e o seu significado. Mas tal impressão é cega, e ecoa porventura a nossa já longa e insalubre relação com o mundo material. Importa, porém, cultivar a “polifonia da vida” (Dietrich Bonhoeffer), que abarque em contraponto o positivo e o negativo, as imensas passividades que nos rodeiam e afligem; é indispensável um olhar fundo e recentrado na Criação, na lição do Génesis, que nos leve a descobrir a sacralidade da vida, a relacionalidade, a interconexão e a interpenetração de todas as dimensões da existência (reveladas também pela mecânica quântica), o admirável entrançamento deste nosso mundo multinivelado – desde a base subatómica até ao domínio cultural e espiritual; e que nos leve ainda a eliminar dualismos deletérios, a atenuar o uso meramente fruitivo, egoísta e, por vezes, violento das coisas e a fomentar a sua celebração contemplativa, a atenção ao theatrum gloriae Dei (J. Calvino), ao cenário do universo misterioso onde, para os “olhos da fé” (P. Rousselot), transparece a sabedoria e a subtileza do Deus criador.

Na tradição judeo-cristã, nunca faltou decerto a ligação entre espiritualidade e Criação – assim nos Salmos, em Francisco de Assis e muitos outros; mas, aqui e além, ao longo dos séculos, devido ao peso e à ressonância da “queda original” na teologia e na consciência dos crentes vingou também uma atitude pessimista perante o mundo natural, não se incrustou assaz uma perspectiva cósmica na vivência individual e comunitária da fé e tardou a surgir um sentido intenso de responsabilidade e cuidado para com a natureza no seu todo.

Quer isto dizer que se passaram por alto implicâncias radicais do que significa a Encarnação, a entrada de Deus na nossa história conturbada e, tantas vezes, trágica, a sua imersão na nossa carne e na substância do mundo por Ele criado e sustido, rumo a um futuro que também só Ele conhece.

Como não há separação entre Criação e Redenção, e Jesus, “fruto do mundo” (Fray Luís de León), é o seu traço de união, a fonte da transformação e o mediador da nossa integração na vida divina e da transformação anastática do cosmos, não será, pois, inoportuno relembrar o enigma do começo de tudo, da Criação.

Esta, da qual Deus não precisava e na qual quis ingressar, é de certa forma um acto de infinita humildade e amor, uma espécie de primeira kenose ou esvaziamento de si, porque Ele avançou com o seu plano de salvação, aceitando todos os riscos e consequências e ajudando todas as coisas a ser co-criadoras e colaboradoras suas.

A fé ensina-nos, convida-nos e prepara-nos para vislumbrar, celebrar e cantar a beleza, a profundidade e a incompreensibilidade desta economia divina, que abraça o universo inteiro, a história humana e cada um de nós. Já sabemos da poesia e do simbolismo das narrativas bíblicas das origens, da sua inesgotabilidade semântica e do seu fulgor teológico, que se difunde e irradia em todas as direcções.

Surge, então, uma pergunta: como é que hoje – tempo de variada e riquíssima reflexão (de muitos crentes) sobre as relações entre o saber científico e a fé – se poderia redigir e fazer o relato da Criação, recorrendo aos conteúdos e elementos da cultura e da ciência contemporânea?

Como resposta, cito aqui, com a devida vénia e o perdão do autor, Ted Burge, professor emérito de Física na Universidade de Londres, um texto seu, sugestivo e iluminante. Ei-lo:

«[…] À luz do nosso presente conhecimento científico e dos subsequentes acontecimentos na história, os escritores do Génesis, inspirados pela contínua auto-revelação de Deus, teriam escrito mais ou menos assim:

“No princípio, disse Deus “Faça-se…”, e criou as forças unificadas da física, com perfeita simetria e precisão previdente. E a partir do nada, e dentro do nada, Deus, por uma livre decisão, instituiu a produção espontânea de partículas, no espaço-tempo recém-nascido, formando uma esfera silenciosa, ardente, infinitamente pequena e inimaginavelmente quente. Houve um começo e uma evolução, primeiro estádio da criação.

Durante uma pequeníssima fracção de um segundo, teve lugar uma expansão e, passo a passo, rompeu-se a perfeita simetria das forças, à medida que a temperatura descia, para engendrar as forças da natureza que hoje conhecemos.

As leis finamente sintonizadas de Deus produziram partículas inumeráveis, de toda a espécie requerida, numa esfera que, caótica, arrefecia em permanente expansão. E o universo resfriou, durante quase um milhão de anos, até que os electrões se puderam juntar aos núcleos para formar átomos familiares. Houve um começo e uma evolução, segundo estádio da criação.

Com os átomos e as moléculas como blocos de construção, a força atractiva da gravidade impôs-se e, após cerca de mil milhões de anos, Deus viu as primeiras estrelas e galáxias a formar-se no universo cósmico em expansão. Houve um começo de uma evolução, terceiro estádio da criação.

As estrelas individuais contraíram-se sob a gravidade e tornaram-se assaz quentes para que a fusão nuclear suscitasse elementos químicos nunca vistos, até que, após cerca de dez mil milhões de anos, as estrelas ficaram esgotadas pela sua radiação, e Deus viu-as começar a morrer, umas de modo dramático, explodindo como supernovas, libertando todos os elementos químicos conhecidos. Houve um começo e uma evolução, o quarto estádio da criação.

E Deus viu que isto era muito bom, porque agora estavam já disponíveis todos os ingredientes, e a gravidade originou uma segunda geração de estrelas, algumas acompanhadas de planetas e satélites, incluindo o Sol, a Terra e, mais tarde, a Lua, na nossa galáxia da Via Láctea. Houve um começo e uma evolução, quinto estádio da criação.

Banhadas alternadamente pela luz do dia e pela escuridão, durante os seguintes mil milhões de anos aproximadamente, as condições na Terra tornaram-se favoráveis à eventual geração da vida. Houve um começo e uma evolução, o sexto estádio da criação.

Durante estes últimos três mil milhões de anos, a vida evoluiu como Deus pretendera e, ao longo de numerosos ciclos de nascimento, sobrevivência, procriação e morte, as espécies multiplicaram-se e progrediram, plantas e animais de todos os géneros, e algumas extinguiram-se, até que, há apenas trezentos mil anos, surgiu, à imagem e semelhança de Deus, o Homo sapiens, seres humanos inteligentes, com liberdade de escolha, vivendo em comunidade, conhecendo o bem e o mal, o prazer e a dor, conscientes da honra devida ao seu domínio e familiarizados com a morte. Houve um começo e uma evolução, o sétimo estádio da criação.

E o universo entrou na Era da Humanidade. Os seres humanos pouco mudaram na forma física durante os últimos quarenta mil anos, mas as suas crenças evoluíram, o seu conhecimento aumentou e a sua compreensão aprofundou-se.

E Deus viu que isto era bom, mas não era ainda suficientemente bom, porque a vontade livre levou ao pecado e ao sofrimento, e a culpa e a descrença podiam induzir ao desespero e à morte do espírito humano.

Por isso, Deus enviou o seu único Filho, a Palavra feita carne, que habitou entre nós como Jesus de Nazaré, sofreu, morreu e ressuscitou dos mortos, e revelou a sua glória, cheio de graça e de verdade.

E este foi o começo da nova criação.”1

Fray Luis de Leon

Fray Luis de León: “Cristo é chamado Fruto porque é o fruto do mundo, ou seja, porque é o fruto para cuja produção se ordenou e fabricou todo o mundo.” Foto @ Zendalibros.com

Como pressentimos, o olhar da ciência não abranda o Mistério, não o elimina, realça ainda mais a sua presença, torna-nos mais lúcidos em face da sua acção secreta e da admirável autonomia que Ele derrama pelos processos cósmicos.

É por isso que, frente à situação trágica do mundo de hoje, semeado de violência, atravessado pelos gritos de tantas vítimas, pelo fragor da guerra, a lição do Génesis, à luz da fé, que une intimamente a cristologia ao mundo da criação e nimba esta com uma esperança derradeira, suscita a confiança (apesar de tudo), denuncia toda a espiritualidade desencarnada, acusa o gnosticismo muito arreigado na nossa cultura, com o consequente desamor da matéria e do corpo, o desprezo dos viventes, a sedução da técnica, a exploração desenfreada dos recursos naturais, o terrível poder destrutivo dos meios bélicos.

A fé cristã, que não separa o princípio, com a sua promessa, do fim, com a sua realização plena, alimenta-se do mistério crístico (anunciado nas Cartas aos Romanos, Colossenses e Efésios e no Apocalipse) e banha-se nesta diafania cósmica, cantada por grandes poetas como o jesuíta inglês Gerard Manley Hopkins (soneto Spring), o catalão Joan Maragall (Canto espiritual) e vários outros.

Como exemplo, veja-se este luminoso parágrafo de Fray Luis de León:

“Cristo é chamado Fruto porque é o fruto do mundo, ou seja, porque é o fruto para cuja produção se ordenou e fabricou todo o mundo. […] porque tudo aquilo que é verdadeiro fruto nos homens, digo, fruto que mereça aparecer diante de Deus e colocar-se no céu, não só nasce neles em virtude deste Fruto, que é Jesus Cristo, mas de certo modo é também o próprio Jesus.”2

Em face de tal espectáculo, resta apenas alinhar com o final do poema Of Being, da grande poetisa americana Denise Levertov:

This need to dance,
This need to kneel:
This mystery

1 Ted Burge, “A Creation Story for Our Times”, in STANNARD, R., God for the 21st Century, SPCK 2000.
2 Fray Luís de León, Los Nombres de CristoObras Completas I, BAC 1991, p. 436.

 

Artur Morão, professor aposentado e tradutor.

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