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Genocídio em Gaza: o sentimento de impotência e a tentação de desviar os olhos

| 12/08/2025

Tal como muitos outros, assisto impotente à carnificina desencadeada há mais de 20 meses por Israel na Faixa de Gaza. Protestos, manifestações, tomadas de posição pública, nada tem sido capaz de deter a brutalidade assassina das forças armadas israelitas. Tão prolongada impotência perante tão inaudito horror convida a ceder à tentação de desviar os olhos. De não querer ver, deixar de ouvir, evitar ler. A tentação e o cansaço são grandes. Mas trairíamos a nossa humanidade se fechássemos os olhos.

Não. Não podemos deixar de alimentar e aprofundar a nossa memória olhando e contemplando os poucos sinais que nos chegam do inferno que Israel quer manter inacessível aos olhos do mundo. O nosso primeiro dever consiste em tudo fazer para nunca esquecer.

Por mais anos que cada um de nós viva, seja qual vier a ser o futuro da Palestina, pensem o que pensem as mentes bem ou mal pensantes que ocupam o nosso espaço mediático, não podemos esquecer. Preparemo-nos todos os dias para não esquecer. Acolhamos as descrições, os testemunhos e as imagens que nos chegam de Gaza como pedras angulares do muro de memória que para sempre nos acompanhará.

Há ainda quem, cego pela propaganda israelita, continue a falar e escrever sobre uma ilusória guerra de Israel contra o Hamas, sem conseguir aceitar a verdade dos factos: hospitais, escolas e centros sociais prioritariamente destruídos; 200 jornalistas assassinados; crianças e bebés a morrerem de fome; atiradores a matarem a sangue-frio pessoas famintas, indefesas e totalmente vulneráveis; aviões e tanques a reclamarem, dia sim, dia sim, o seu sanguíneo troféu de dezenas de vítimas mortais. Para o Estado assassino de Israel não há palestinos, são todos, incluindo os bebés, militantes do Hamas.

Por mais poderosos que sejam os meios e os fundos mobilizados pelo mundo judeu para manter viva a memória do holocausto, nunca mais será possível falar deste sem nos lembrarmos da limpeza étnica em curso na Faixa de Gaza. Com aquela diferença fundamental para a qual Primo Levi nunca deixou de chamar a atenção: a Shoah é indissociável do regime que a organizou e executou, não pode ser explicada como sendo apenas mais um progrom. Só um regime nazi pode ter organizado o holocausto, assim como também tentou exterminar os Rom. O que torna, se é possível, ainda mais criminoso e desumano o genocídio em Gaza.

 

A realidade das palavras

UN News Um jovem de Gaza ferido no rosto ao tentar obter ajuda

Um jovem de Gaza ferido no rosto ao tentar obter ajuda. Foto © UN News

Para além da propaganda de Israel, cujo primeiro-ministro disputa com Donald Trump o recorde diário de contraditar a realidade, chegando ao ponto de negar que exista fome na Palestina(!), alguns vacilam em dar nome ao horror destes longos meses na Faixa de Gaza por sentirem maior proximidade com o mundo e a cultura judaica, enquanto ignoram tudo do mundo palestino-árabe. É verdade. Apesar dos sete séculos de civilização que o domínio árabe trouxe à Península Ibérica, a nossa cultura e a cultura europeia em geral são muito mais credoras do genial contributo de imensos judeus eminentes, sem os quais, provavelmente, não falaríamos de cultura europeia.

Esse é um dos dramas que enfrentamos: como pode um Estado que julgávamos fundado nos mesmos valores que os judeus nos ajudaram a respeitar praticar o genocídio de todo um povo, sob a desculpa de serem terroristas? O outro drama é a nossa dificuldade em diferenciar a herança cultural judaica, os nossos amigos judeus, da política racista bélica que se apoderou do Estado de Israel sem quaisquer limites.

Mas esses sentimentos, mesmo quando reforçados pela repulsa que a barbárie do Hamas justamente nos provoca, não podem impedir-nos de escolher as palavras certas para descrever a realidade. As palavras e os conceitos que usamos criam a visão da realidade a que acabamos por aderir como sendo a verdadeira realidade.

Por outro lado, na história que os sobreviventes do atual genocídio hão de escrever, o silêncio dos judeus de todo o mundo, incapazes de levantar a voz contra o extermínio perpetrado pelo Estado Israelita, constituirá um capítulo negro, em tudo semelhante ao devido àqueles conhecedores do holocausto que o calaram até, e mesmo depois, do fim da guerra.

 

Plano de extermínio: nova etapa

Benjamin Netanyahu e Donald Trump na Casa Branca, em 7 de abril de 2025. Foto The White House ©

Benjamin Netanyahu e Donald Trump na Casa Branca, a 7 de abril de 2025. Foto © The White House

O plano israelita de extermínio conheceu no último domingo a publicitação de uma nova fase: todo o território entre a fronteira de Israel e os limites sul da cidade de Gaza será ocupado pelo exército e os seus habitantes empurrados para mais perto do Egito.

Reagindo ao anúncio desta decisão, o arcebispo católico de Westminster, cardeal Vincent Nichols, condenou os planos de Israel para tomar a Cidade de Gaza nos seguintes termos: “Aumentar a destruição da Cidade de Gaza e, em seguida, do restante do seu território, para derrotar uma organização e um movimento terrorista, é um acontecimento que está a ser condenado, com toda a razão, em todo o mundo”. “Deve haver uma maneira melhor de o fazer”, prossegue Nichols, uma maneira “que não acumule ainda mais sofrimento e miséria sobre tantas pessoas que não são combatentes, mas sim pessoas indefesas diante dos perpetradores da violência no meio deles”.

O cardeal termina a sua mensagem, citada pela Catholic News Agency de 12 de agosto, afirmando: “Muito sangue inocente já foi derramado; muitas vidas destruídas; muita fome e muita inanição. É preciso acabar com esta guerra, não intensificá-la.”

Apesar destas tristes constatações, é muito provável que, daqui por uns meses, continuando a gozar da impunidade que a passividade internacional que os EUA lhe têm assegurado, Benjamim Netanyahu, depois de ganhar umas eleições internas dominadas pela guerra permanente, venha a apontar outro objetivo para “acabar com o Hamas”: empurrar os famélicos palestinos ainda vivos para uma faixa de território mínima junto ao Egito. A Riviera de Donald Trump, enfim, realizada!

Perante o massacre diário e sistemático dos palestinos, a diplomacia portuguesa tem-se escondido, cobarde e mesquinhamente, por detrás dos Estados-membros da União Europeia mais pró-israelita, ignorando, entres outras e por exemplo, a posição de Madrid sobre o reconhecimento do Estado da Palestina. Também o Presidente da República, a quem a Constituição Portuguesa confere um papel de relevo no que toca à representação externa do Estado português, se remeteu a um silêncio complacente.

Como não sucumbir ao desânimo, como não deixar cair os braços perante a experiência da nossa impotência tão longamente comprovada? Sim: calados somos cúmplices. Mas que podemos ainda fazer para que a voz dos palestinos se oiça? Sobretudo a voz daqueles palestinos arrependidos de há 20 anos terem elegido o Hamas pensando que se livravam da gestão ruinosa e corrupta da Al Fatah e que acabaram sujeitos a um regime de terror quotidiano muito pior que o anterior.

A história moderna de Timor mostra que as causas perdidas podem ser, afinal, vitoriosas. O Papa Francisco dizia que “o que não é possível segundo os interesses e a lógica do mundo pode ser possível segundo a vontade de Deus”. Algum conforto esperançoso se poderia buscar aludindo ainda a outras situações e a outros testemunhos. Contudo, perante o reconhecimento da nossa impotência passada, talvez o melhor não seja recorrer a futuros cenários luminosos. Talvez o melhor seja sublinhar a convicção da importância do que se fez e disse, mesmo que não tenham obtido o resultado esperado. E continuar a agir e denunciar, sem olhar a resultados imediatos.

Haverá sempre sobreviventes que nos agradecerão.

 

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