[Segunda leitura]

Gente fina é outra coisa

| 5 Out 21

As voltas (à justiça também) que o dinheiro permite dar. Foto Christine Roy | Unsplash

 

João Rendeiro, economista de profissão (ele o disse) e banqueiro de paixão (viu-se…) é um homem ponderado. Ao que se vai sabendo, andou meses a ponderar sobre o que fazer da sua vida, depois de ter sido condenado a penas de prisão efetiva em dois ou três processos. Não é, convenhamos, uma decisão fácil de tomar. Afinal, estão em causa os próximos anos da vida e as diferentes alternativas para os fruir. Em Portugal?… E onde, se na Quinta Patiño parece que já não será fácil?… Na Carregueira?… Ou em Santa Cruz do Bispo?… Talvez no estrangeiro. Mas onde?… Na Europa?… Mais longe, em terras mais quentinhas?… Na Ásia?… Nas Américas?…

Também há que fazer contas ao custo de vida, que o dinheiro já não abunda, agora que se foi o belíssimo emprego num banco de elite (e as economiazinhas que decerto estarão resguardadas em algum off-shore não duram para sempre…). É mesmo uma decisão difícil. Enquanto se pensa na coisa, talvez seja melhor ir metendo mais uns recursos, para a Relação, para o Supremo, para o Constitucional, para seja onde for, que um homem precisa de ganhar tempo antes de saber bem o que fazer da sua vida. Um homem ponderado é assim.

João Rendeiro é também um homem cuidadoso. Procura informar-se bem sobre as diferentes possibilidades que tem pela frente. Pelos vistos, até falou com gente que esteve presa para conhecer melhor as condições que o sistema prisional português oferece aos seus hóspedes. Sei lá, talvez o espaço dos quartos, o conforto, a casa de banho privativa, se tem wi-fi a funcionar em condições, se quem arruma é competente, se há room service… E a alimentação, que tal é, come-se saudável, o peixe é mesmo do mar, o marisco não congelado, a carne bem maturada, diversas qualidades de pão, garrafeira com um mínimo aceitável de escolhas… E o recreio? Bem desenhado, espaços verdes, um pequeno lago, passarinhos a cantar, suave música de fundo?… Se é para lá passar uns anos, convém saber o que se vai encontrar, não é?…

(Consta que esta consulta não terá sido muito frutuosa e que João Rendeiro terá mesmo ficado desiludido com as condições oferecidas pelas nossas prisões. Parece que aquilo não é muito confortável nem espaçoso nem bem servido nem nada. Sendo assim, como é que as autoridades querem que uma pessoa vá para lá passar umas temporadas?… Acho que o Governo devia tratar deste assunto com mais empenho. Então farta-se de prometer vistos gold aos ricaços de lá de fora para virem morar para Portugal e não oferece boas condições prisionais aos ricaços de cá de dentro para eles ficarem mesmo (cá) dentro?… Depois queixa-se que as pessoas mais qualificadas – e João Rendeiro, há que dizê-lo com frontalidade, é um homem qualificado a variadíssimos títulos – acabem por emigrar, deixando o nosso país mais pobre. Ninguém quer lançar uma petição pela melhoria das nossas prisões?)

João Rendeiro é um homem viajado. Ele gosta, gosta mesmo muito, de viajar. Mesmo com três condenações a pena de prisão, lá conseguiu espaço e tempo para viajar até Londres, para viajar até à Costa Rica, e sabe-se lá mais onde… É um homem que gosta de ter os horizontes largos, que se prepara para o que der e vier, que vai aos sítios ver como são as coisas in loco. Nestes últimos meses, parece que não parou. E tanto gostou de ir ao estrangeiro que, agora, até resolveu ficar por lá. Pronto.

João Rendeiro é um homem pobre. Tinha umas multas para pagar, coisa pouca, aí uns 2,5 milhões de euros (não deviam ser só multas de estacionamento ou de excesso de velocidade!…) e querem lá ver que ele não as pagou? E fugiu (perdão: ausentou-se) para o estrangeiro sem as pagar? E porquê? Porque, disse, não tinha dinheiro. Deve ter pedido dinheiro emprestado para viajar de avião até Inglaterra. Não tinha dinheiro para pagar o hotel e até deu como morada a Embaixada de Portugal em Londres. Depois, consta que terá partido de Londres para “algures” (Belize?… Singapura?… Tailândia?… Vila Real de Santo António?…) a bordo de um avião privado, certamente emprestado por algum amigo rico (sim, que ele nem para pagar multas tem dinheiro, quanto mais para andar de avião!). Vamos lá a ver como é que ele consegue sobreviver lá fora (em “algures”), se arranja um empregozito em algum lado ou se terá de acabar a lavar pratos num hotel ou a servir copos num bar da moda. A vida de um emigrante custa muito. E então no princípio…

João Rendeiro é um homem fino. Muito fino mesmo. Vê-se no trato, vê-se no semblante, vê-se no vestir, vê-se no andar, vê-se no falar, vê-se no estar, vê-se no gastar, vê-se.

E João Rendeiro é um homem fino. Muito fino mesmo. Um finório de todo o tamanho. “Fino como um rato”, como se diz na minha terra. Vê-se no fugir (perdão: no ausentar-se…), vê-se no enganar, vê-se no mentir, vê-se no enriquecer, vê-se no gozar com a nossa cara e com a cara da justiça. Ai vê-se, vê-se. Mas agora ao longe, muito ao longe…

Gente fina é outra coisa.

 

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