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Gente que não me apetece

| 14/01/2025

Quando se escreve um texto em início de ano, espera-se que o seu conteúdo seja feito de esperança e/ ou de boas memórias. Neste Jubileu ainda mais se quer assim. A verdade é que, hoje mesmo, me apeteceu escrever sobre pessoas e daquelas que não dão mesmo vontade.

Em tempo de paragem pelo interior Norte, estávamos a tomar o pequeno-almoço numa simpática pastelaria com um bom fabrico e colaboradores acolhedores que fidelizam clientes. Não que tenha o hábito de ler o jornal no café, mas, por acaso, nesse dia, estávamos a passar os olhos pelas notícias enquanto saboreávamos um salgado típico da região.

Levantei o rosto em busca da origem de uma voz que, da porta, disse com agressividade – Ò João ele que tire a carrinha para eu meter o meu carro.

Era a dona ou, mais propriamente, a filha do dono daquele espaço.

Quando saímos constatámos que o carro da dita senhora estava “atirado” no meio do espaço do pequeno parque de estacionamento e a carrinha, conduzida por um trabalhador do Café para efeitos do trabalho, tinha ficado na estrada, pois, já não era possível ter lugar dentro, com o espaço ocupado daquela forma.

A falta de delicadeza, de respeito e de consideração que algumas pessoas usam é, de facto, arrepiante. Claro que é gente que nunca se resolve; que atenta contra a dignidade dos outros sem a menor sensibilidade; que reclama direitos para si e impõe deveres a quem a serve; que não constrói o que quer que seja e nem gratidão sente por quem contribuiu de forma honesta para aquilo que tem hoje… Gente que não tem gosto e derruba tradições; que manda fazer obras e, em vez de restaurar, deixa esbater as marcas preciosas do tempo e da História, substituindo caricaturas e pedaços de poemas, desenhados nas paredes, a propósito de quem por ali passou, por espelhos que dão profundidade ao espaço, mas roubam o ADN do lugar.

Jornal. Café

“Não que tenha o hábito de ler o jornal no café, mas, por acaso, nesse dia, estávamos a passar os olhos pelas notícias enquanto saboreávamos um salgado típico da região.” Foto © Engin Akyurt / Pixabay

 

Sem saber quem escreveu, encontrei este pequeno texto, do qual fiz uma tradução livre, que dizia assim – «Se alguém te tratar mal, basta lembrares-te que há algo de errado com essa pessoa, não contigo. As pessoas mal resolvidas estão empenhadas em destruir os outros seres humanos.» e é isto mesmo – não há uma perturbação classificada como “pessoas mal resolvidas”, mas elas existem e devemos saber quem são, para podermos ter a liberdade de decidirmos estar longe e de nos protegermos do seu impacto em nós.

Estas pessoas intoxicam-nos e, por isso, a melhor forma de não nos deixarmos contaminar é a distância. Penso como Aninha Ferreira [1] – «Para alguns é difícil aplaudir, reconhecer, elogiar, concordar, “torcer de coração” e dar os parabéns de forma sincera. É difícil apreciar e comentar uma fotografia bonita ou um post interessante. Para alguns é difícil ver o outro feliz; é muito difícil ficar feliz por ele. O ego não permite. (…) A inveja existe. A verdade é que o progresso de alguém só incomoda o acomodado e a felicidade de alguém só incomoda o infeliz.»

Tudo isto veio a propósito da pessoa do café, mas é irrelevante. O que conta é que também existem pessoas boas e que essas não são gente faz de conta. São seres humanos de verdade que procuram deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram, em cada passo que dão; em cada mimo sincero que fazem de forma gratuita e não estratégica. Estas sim. São gente que nos faz bem.

Lembrei-me do senhor da lavandaria, ainda na aldeia, à qual fui deixar duas camisolas para limpar. Passou a nota de encomenda e disse – São os primeiros clientes deste ano. Como são pessoas honestas e boas, isto é um sinal de sorte para o tempo que aí vem.

Não o conheço mais do que daquele balcão. Talvez seja um homem simples, mas sábio e autêntico. Daqueles que faz o que tem que fazer da melhor forma e, ainda por cima, com simpatia e honestidade; daqueles que, sem grandes teorias, procura, mesmo que não lhe empreste conscientemente esta narrativa, a melhor versão de si mesmo, tendo um caminho para percorrer que o faz trabalhar com agrado e empenhamento; daqueles que, disciplinadamente e com sentido de compromisso, tem um projeto de vida sustentado por uma motivação consistente e duradoura, pois conserva aquela porta aberta há muitos anos.

Ainda na aldeia, quando me sentei à secretária para escrever este texto, tirei de cima do computador uma revista que tinha na capa a nomeação das 25 mulheres mais elegantes do ano. Claro que fui eu que a comprei por curiosidade e vontade de cuscar algumas toiletes inspiradoras para festas em agenda. Sei que vou perder apenas 10 minutos a passar os olhos por estas fotografias, mas a verdade é que, neste mundo, há lugar para tudo. Para o que é superficial e fútil; para o que é profundo e reflexivo; para o que é trabalho e o que é lazer; para o que é esforço e para o que é descanso.

Cabe-nos, isso sim, a todos sem exceção, harmonizar os nossos interesses e os dos outros, fazendo da melhor forma o que nos é destinado; desempenhando da melhor maneira os papeis que nos são atribuídos ou que, simplesmente, escolhemos; respeitando o que é diferente e aprendendo sempre qualquer coisa com qualquer um, ainda que nos pareça supérfluo ou insignificante.

Termino com um pensamento de autor desconhecido que contribui para a aquisição da melhor qualidade de caráter que todo o homem deve ambicionar – a humildade: «Humilde é aquela pessoa que sabe que não sabe tudo. Que sabe que outra pessoa sabe o que ela não sabe. Que ela e outra pessoa saberão muitas coisas juntas. Que ela e outra pessoa nunca saberão tudo o que pode ser sabido.»

 

[1] Não conheço, mas este é um pequeno excerto de um texto, em tradução livre, que encontrei e cuja autoria lhe é atribuída.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

 

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