George Floyd: o “gentil gigante” que inspirou dezenas de jovens a seguir Jesus

| 10 Jun 20

george floyd na comunidade de resurrection houston Foto Nijalon Dunn (2) George Floyd com um grupo da comunidade cristã Resurrection, em Houston, com uma Bíblia na mão. Foto © Nijalon Dunn/ Comunidade Resurection

 

O mundo inteiro conhece George Floyd a partir de um vídeo de nove minutos, os seus últimos de vida. No bairro de Third Ward, um dos mais pobres de Houston (Texas, Estados Unidos), onde vivia antes de se mudar para Minneapolis (estado do Minnesota), multiplicam-se os testemunhos daqueles que o conheceram durante décadas. E são unânimes: “Big Floyd” ou o “gentil gigante”, como ficou conhecido, era “uma pessoa de paz”, e foi o mentor de toda uma geração daquele bairro, empenhado em “ver os jovens largarem as armas e seguirem Jesus”.

É assim que o descreve o pastor da igreja protestante local, Patrick Ngwolo. que recorda como se fosse hoje o dia em que conheceu Floyd, em 2010: foi durante um concerto de beneficência, a favor de um projeto habitacional para a população carenciada. “Ele disse: ‘Adoro o que vocês estão a fazer. A vizinhança precisa, a comunidade precisa e, se vocês se interessam pelas questões de Deus, então quero participar’”, conta.

A partir daí, Floyd passou a ser um dos seus braços direitos na comunidade, assegura Patrick Ngwolo, em declarações ao site Christianity Today. Foi graças a George Floyd, entre outros voluntários, que a igreja chegou a “centenas de pessoas” naquela zona, garante. “A base para alcançarmos esta região foi construída pelo esforço de pessoas como Floyd”, que estava sempre disposto a ajudar, da organização de cultos aos churrascos, dos torneios de basquete (um dos seus desportos de eleição) aos batismos comunitários.

Com dois metros de altura e uma forma física invejável, chegou mesmo a “transportar a pia batismal [para a rua] por acreditar que as pessoas tomariam uma decisão de fé e seriam batizadas mesmo ali, no meio da comunidade”, recorda o rapper Reconcile, seu amigo de longa data.

É verdade que, dez anos antes, Floyd tinha estado envolvido numa série de crimes por posse de armas e drogas, que culminaram numa sentença de cinco anos de prisão por assalto à mão armada, conta Reconcile. Mas depois de ter sido libertado, decidiu integrar a comunidade protestante Ressurrection Houston e “procurou mudar [a sua vida], ao mesmo tempo que tentava mudar o bairro”, sublinha o artista.

Em 2018, incentivado pelo seu grupo de amigos, entrou num programa cristão de integração na vida ativa e encontrou uma oportunidade de trabalho como segurança numa instituição da igreja e ONG evangélica Exército de Salvação, o que o fez partir para Minneapolis. Na nova cidade, pela qual se apaixonou, foi depois também motorista de camiões e segurança numa discoteca. Devido à crise provocada pela pandemia de covid-19, tinha ficado sem trabalho.

No dia da sua detenção e morte, foi perseguido por suspeitas de tentar comprar cigarros com uma nota falsa de 20 dólares.

 

Com a sua morte, iniciou-se uma revolução

“Nós, humanos, através de um nosso representante, assegurámo-nos que os teus olhos fossem fechados e nunca mais se abrissem”, escreveu entretanto o bispo católico da diocese de Gaborone (Botswana), Frank Nubuasah, que conheceu Floyd nos anos 90, quando se encontrava nos Estados Unidos, e se tornou seu amigo pessoal.

“Porém, isto não é verdade”, continua, numa carta emocionada, dirigida ao próprio Floyd. “Os teus olhos verão sempre o fogo que começaste na morte. A revolução que a tua morte sacrificial inspirou e os novos movimentos e alianças contra o racismo, classismo e discriminação estão a crescer. Ateaste um fogo que está a arder pela paz e pela mudança”, escreve o bispo.

À semelhança do pastor protestante de Houston, também o responsável católico de Gaborone recorda a facilidade com que George Floyd chegava às pessoas. “Uma das coisas a que dou mais valor em ti era o teu sorriso contagiante. Era como se o coronavírus tivesse aprendido contigo como contagiar as pessoas. O teu coração era enorme e acolhia as pessoas. Para ti nunca houve problema em chegar a mais uma pessoa. Sim, tu serias capaz de correr uma milha por alguém.”

Nubuasah tinha convidado recentemente George Floyd para participar no festival cultural panafricano Panafest, no Gana, e depois ir ao Botswana visitá-lo, algo que Floyd queria muito fazer, pois nunca tinha atravessado o Atlântico para conhecer as suas raízes ancestrais.

Apesar de não ter chegado a realizar a viagem, o bispo considera que Floyd conquistou um feito importante: “Estabeleceste outro recorde ao morreres aos olhos do público não como se se tratasse de um acidente. O que aconteceu ficou registado para a posteridade. Dás-te conta de que és um grande homem? (…) A sondagem mais recente diz que dois terços da população do nosso país apoiam a revolução que começaste na morte.”

A professora primária de George Floyd ainda guarda a composição que ele escreveu aos oito anos, onde dizia que queria ser juiz. George Floyd foi sepultado esta terça-feira, 9 de junho, numa cerimónia reservada à família, que pediu para que não houvesse protestos. Numa evocação feita na escola que George frequentou, um dos irmãos disse que há polícias bons e polícias maus, apelando aos jovens a que votem e participem na vida local das suas comunidades, para que a realidade social possa mudar.

Mesmo que o sonho de George de ser juiz tenha ficado também por cumprir, é provável que, por sua causa, algo mude na justiça norte-americana. E é certo que uma revolução está já a acontecer no sentido de justiça de milhares de pessoas em todo o mundo.

 

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