Georgino Rocha um professor aluno

| 15 Mai 2023

Padre Georgino Rocha, Aveiro

“Foram duas ou três disciplinas que me deram prazer estar e conversar, não com verdades absolutas, mas sim com a abertura a tudo o que vinha dos participantes nas aulas. Com uma profundidade e abertura exemplares, Georgino Rocha chegava com uma humildade de professor rara nos nossos dias.” Foto: Padre Georgino Rocha (1941-2023), Aveiro. Direitos reservados

 

O autor do livro Pedagogia do Oprimido, o pedagogo e andragogo Paulo Freire, escreveu: “Ninguém ensina ninguém, nós ensinamo-nos uns aos outros”. A frase é aplicável ao Professor Doutor Georgino Rocha. Nas aulas em que, na Universidade Católica Portuguesa (Porto), tive o prazer de ter como professor o padre Georgino, portador de uma visão moderna do que é uma “aula”, ele mostrava que sabia interagir com os seus alunos, não com a portagem da palavra “aluno”, mas com a simplicidade de aprendermos todos juntos.

Foram duas ou três disciplinas que me deram prazer estar e conversar, não com verdades absolutas, mas sim com a abertura a tudo o que vinha dos participantes nas aulas. Com uma profundidade e abertura exemplares, Georgino Rocha chegava com uma humildade de professor rara nos nossos dias. Lembro-me de, numa aula de Praxeologia Pastoral, ele focar a necessidade do seu planeamento e programação de acordo com técnicas incisivas e objetivas. Então colocou no quadro o que ele pensava sobre o assunto. De acordo com as técnicas usadas pelas empresas para atingir os seus objetivos, pedi licença e tracei sobre a sua perspetiva a minha aprendida em engenharia e praticada pela maioria empresarial. O seu contentamento foi o meu contentamento, ao verificar que estávamos todos à procura de um modo novo de atuação de planear, programar e identificar objetivos para depois os avaliar. Então a aula transformou-se num diálogo sem “professor” ou “alunos”, mas pretendendo investigar o melhor modo de fazer acontecer.

Alguns podem pensar que desconfiávamos do papel precursor do Espírito Santo, mas não. Georgino Rocha e cada um de nós tínhamos a certeza da sua amplitude, de que, quando chegássemos, o Espírito lá estaria para nos abrir os caminhos; mas também sabíamos que a nossa prática era indispensável. Por isso Georgino Rocha constituía um todo que se alimentava do seu percurso pessoal e espiritual e engajava os pareceres dos seus alunos como luzes que brilhavam na sua aprendizagem. Isto era fundamental para ele: dar as mãos, dialogar e chegar a conclusões sempre ilimitadas. Era aberto a toda a novidade e confiava plenamente no seu Criador, sem medos, nunca duvidando de que, por detrás dos diálogos que mantinha com os alunos, estava sempre a mensagem da Boa Nova.

Nunca mais voltei a conversar com o padre Georgino Rocha depois dessas aulas, mas sei do seu empenho na criação do Reino de Deus. Dele ficou-me na memória a sua simplicidade e humildade em ouvir ativamente todos, não como “professor”, mas um “animador” das matérias lecionadas. O seu recente falecimento, quando ainda muito tinha para dar, leva-me a refletir sobre um homem de Deus que passou pela minha vida e me marcou indelevelmente.

Obrigado, meu Deus, por existirem homens como o padre Georgino Rocha, que, agora, está no jardim, naquele jardim que tanto pugnou na Terra.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

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