Dar uma de Dr. House da neurose millennial obriga a dar razões para o diagnóstico. Não dá para sair desse buraco maior que a mina escura e funda que era o trem da vida da Elis Regina na Romaria sem, pelo menos, ter uma estória de como chegamos aqui. A minha começa nesse lugar que cremos longínquo, o mundo emocional dos nossos avós ou bisavós.

“Nesse mundo essencialmente rural, de vilas e aldeias perdidas entre montes, sem destrinça entre viver e sobreviver. Trabalhava-se para sobreviver, casava-se com quem estivesse à mão para sobreviver, e o corpo satisfazia-se como dava.” Foto: Aldeia do norte de Portugal (1982) © Jean Gaumy
Nesse mundo essencialmente rural, de vilas e aldeias perdidas entre montes, sem destrinça entre viver e sobreviver. Trabalhava-se para sobreviver, casava-se com quem estivesse à mão para sobreviver, e o corpo satisfazia-se como dava. Filhos, pela cartilha, eram os que Deus mandasse, fora os que se ficavam em vãos de escada clandestinos. Vivia-se um dia atrás do outro para chegar ao próximo mês, ao próximo verão, ao próximo ano, e íamo-nos ajeitando à vida. Aguentava-se a chorar às escondidas, ir buscar maridos às tabernas, carpir em enterros, e com doenças várias, mas aguentava-se. Não havia outra saída… e nesta trama, a vida ia passando, imperturbável na sua dureza, enredando, silenciosa e inconscientemente, pais, mães, maridos, mulheres, e filhos, num pacto firmado na forja e no sangue, imune a revoluções e a homilias de domingo de Páscoa.
Não se morria sozinho, e havia lugar para todos, por ruim que fosse. Um mundo com ordem, quatro estações e rituais que nomeavam o que jamais seria dito frente a frente e nos ajudavam a saber quem éramos. Ainda assim, um mundo de escassez, de sacrifício, e muitíssimo violento, que deixou cicatrizes profundas nos seus filhos e netos. Nas cidades, não seria muito diferente… apenas mais polido e com mais tiques de amanuense.
O modo de sobrevivência teve um custo. A supressão emocional e a mutilação da expressão afectiva acumuladas durante gerações. Num mundo fechado sobre si próprio, qualquer ameaça à ordem e ao equilíbrio tem de ser neutralizada, à bala, se tiver de ser, e não há inimigo maior que a individuação e o lado emocional da vida. Sentir, expressar o que se sente, é perigoso. Não há energia para questionar o papel atribuído à nascença, só para manter o pouco que há. O todo sobrevive à conta da atrofia de cada uma das partes. Rígido e frágil, mas sobrevive. Serviu para quem veio, servirá para quem vier.
Serviu, mas a parte de nós que foi amputada tornou-se fardo para as gerações seguintes, acumulado até que a velha ordem colapse de dor. No meio disso tudo, quero acreditar que sabíamos mais ou menos quem éramos… a estrutura exterior, a aldeia, fazia isso por nós.
Modernizámo-nos. Era inevitável. Seria por demais bizarro ver hoje rebanhos de ovelhas a passear junto ao Estádio de Alvalade, como acontecia em 1984. O mundo antigo ruiu em meia dúzia de anos, fizemos por isso. Podíamos, finalmente, ter tudo, fazer tudo, ser tudo o que antes estava vedado… carros, viagens, créditos, divórcios, e trocar a missa pelo shopping. Talvez tenhamos sido algo sôfregos, mas precisávamos mesmo de experimentar, tal era o atraso. E chegámos tarde à festa, quando essa coisa chamada liberalismo começava a acusar a ressaca.

Foto: Rebanho de ovelhas na Praça de Alvalade (1980), Luiz Carvalho in “Lisboa imagens da Capital“ 1984. Câmara de Lisboa.
Enquanto andávamos distraídos com o mundo lá fora, as nossas casas perpetuavam o modo de sobrevivência emocional dos nossos antepassados, e na intimidade do lar, o atavismo afectivo seguia vivinho da silva.
Mudaram as tarefas: estudar, tirar um curso, ter uma profissão qualificada, aceder ao crédito à habitação. Mudaram os horizontes, tínhamos de nos tornar criaturas funcionais e competentes, para não termos de voltar a sobreviver ao inverno. A segurança vinha agora do que se tinha, e do quão longe da aldeia se conseguia chegar. A identidade, essa… esvaiu-se nas cinzas dos fumeiros.
Sentir deixou de ser propriamente perigoso, para ser um empecilho à funcionalidade e ao progresso, e um entrave à vida boa e confortável que nos aguardava se fizéssemos tudo bem. Podíamos querer, mas não demais, sabíamos lá nós o que era passar dificuldades… e o que tantos tinham passado para termos tudo o que tínhamos. A palavra de ordem era corresponder, corresponder sempre ao que esperava de nós. Havia que merecer e agradecer o que se tinha, e está para nascer a criança que aguenta o rótulo de ingrata.
Longe do esplendor do António Variações, do cabelo pintado da Ana Salazar, e do Quero ver Portugal na CEE, no conta-gotas dos dias, as conversas giravam sobre o comportamento, as notas, as férias, as contas, e os omnipresentes-e-potentes “outros”, e o que iam pensar, ou dizer. Como se a vida se fizesse disso e não dos anseios, medos, esperanças, e desilusões que cada um traz consigo, e que aprendemos a camuflar entre uma tarefa e outra. Quem, de facto, éramos e queríamos ser, tinha pouco espaço à mesa do jantar, isso era um devaneio. E é à mesa do jantar que se aprende a viver, não na RTP.
No fundo, o padrão atualizou apenas para a versão 2.0: ajustar, adaptar, agradar, engolir e não sentir. Também nós nos fomos editando imperceptivelmente, encolhendo e abandonando para nos sentirmos parte, acolhidos, amados, seguros… para garantir o lugar à mesa. Não sentir era um preço para lá de razoável a pagar pela pertença e pela promessa de uma vida plena.
Teremos sido também a primeira geração criada em creches e em escolas, o que terá tido um impacto brutal – que só agora começa a ser compreendido – no nosso (sub) desenvolvimento emocional. O delírio do “Senhor Doutor e Senhor Engenheiro” destruiu à machadada a criatividade dos bons alunos, garantindo que chegavam ao final do quarto ano incapazes de fazer uma pergunta, ou de ter uma ideia que fosse. Para poucos terá esse mundo sido mais cruel do que para as lágrimas dos rapazinhos sensíveis, e para a alegria das aprendizes de bruxa.
Quantos não se tornaram profissionais competentes e quebrados, em cargos resignados e desinteressantes… a geração gestão, para quem tudo é um “projecto” e, por isso, é incapaz de ser co-criadora da sua vida.
Acreditámos que as estruturas nos dariam a estabilidade de antigamente por si só. Não deram, o mundo em que isso acontecia desapareceu, mas agarramo-nos a elas qual náufragos, por mais podres que estejam. Seguir o carreiro das gerações anteriores dar-nos-ia um lugar no mundo: casar com quem estava à mão porque era altura, dar netos aos pais, e um trabalho estável faria de nós adultos. Não fez, nunca poderia ter feito. Só chega à vida adulta quem faz o caminho das pedras do confronto consigo próprio. Sem isso, tudo o resto é performance. Ou escape.
Somos os lugares de onde vimos, geográficos e emocionais.
Custa, mas o legado desses lugares, que garantiram a nossa sobrevivência no país de 1950 e a nossa funcionalidade nos anos 90/2000, está hoje a deixar-nos emocionalmente subnutridos. Devagarinho, e sem culpa, mas está. Temos também de enfrentar o buraco negro afectivo que nos engole desde o berço, e que tentamos anestesiar com trabalho, família, hobbies, ocupações, disfunções e adições várias, e de que o nosso alcoolismo funcional é só o caso de escola.
Educados para ser úteis, necessários, prestáveis, pragmáticos. Eficientes, racionais, a dar conta do recado. Para a performance afectiva, deixar os adultos tranquilos, e fazê-los felizes. Para o papel e para a função. Para o prémio do bom comportamento. Não para crescer, e muito menos para sabermos quem somos. Sucede que ser necessário não é ser adulto. E quem se limita a ser função, nunca será pessoa de pleno direito.
(Pode ser só intuição minha, mas muitos de nós, principalmente os que se têm por certinhos, funcionais e racionais, precisam de fazer o luto da infância que acham que tiveram, mas que nunca existiu. Isto se quiserem sair do buraco. Estão, naturalmente, no direito de não querer.)

“Não admira que estejamos exaustos, de tanto carregar pesos e vidas que são de outros, ficando a nossa por levar adiante.”
Através de nós, cumprir-se-iam também todos os desígnios que a pobreza e a miséria roubaram de quem nos precedeu, e faríamos todos os sacrifícios valer a pena. Não admira que estejamos exaustos, de tanto carregar pesos e vidas que são de outros, ficando a nossa por levar adiante. Nascemos endividados sem saber.
As nossas escolhas foram tudo menos livres e conscientes, basta de ilusão. Foram moldadas pelos modelos de comportamento e de relação que absorvemos ao crescer, muitos deles nada saudáveis. Ditadas pelo medo de desiludir, não pela vontade de viver. Conduzidas invisivelmente pela lealdade canina que cada um de nós tem ao sistema familiar: se os meus antepassados aguentaram o peso, a desgraça e o desamor, eu também aguento, por mais mal que me faça. Quem sou eu para trair o sacrifício e a dor dos que vieram antes de mim, construindo uma vida ajustada a quem realmente sou? Como dizia Bert Hellinger, somos muito mais leais do que livres.
E lealdade a mais, mata.
Não crescemos.
Dentro de nós, impera ainda a criança que um dia se encolheu, editou e se foi deixando ficar pelo caminho, eternamente aos gritos por ser vista e acolhida como é… tentamos disfarçar, mas a verdade é essa. A voz do pai e da mãe, que não nos atrevemos a desiludir, continua a governar-nos a vida, ecoando todos os dias através de chefes, maridos, mulheres, sogros, e de um sem número de gente que não interessa, mas que continuamos a acomodar mecanicamente. Continuamos mudos, à espera que nos dêem licença, já não para nos levantar da mesa, mas para assumir a autoria da nossa vida.
Não admira que a nossa intimidade com a vida seja nula.
Com a vida, com os outros, connosco. Vamo-nos arrastando pelos dias, sem nunca marcar posição, escondidos na vida, mas nunca comprometidos com ela. Chamamos compromisso e responsabilidade ao medo resignado e co-dependente, que nos paralisa por dentro, e nos mantém frenéticos sem sair do sítio. Frenéticos e neuróticos. Não admira também que uma geração obcecada com as qualificações seja uma mole de gente indiferenciada, em que ninguém sabe quem é sem os rótulos e etiquetas que foi angariando vida fora.
Não há mal algum nisto, atenção. Só não chamemos vida à sobrevivência 3.0.
O esquema funcionou enquanto o dinheiro durou, e a ilusão da prosperidade nos foi empurrando na fuga para a frente, e esquecemo-nos que não há vento favorável para quem não sabe onde vai. A paragem forçada pelas crises e pela pandemia revelou o quão frágeis são as nossas fundações, e deixou a nu o quanto a nossa vida se apouca e se desperdiça, dia-após-dia-após-dia, na areia das expectativas dos outros… e teimamos em dobrar a velocidade para evitar o confronto inevitável com as 30 moedas pelas quais nos entregámos.
A causa última do esgotamento colectivo é, afinal, tão simples: a gigantesca carência emocional, e o desenvolvimento emocional interrompido de uma geração inteira que não maturou. Resolvemos a pobreza material. A emocional e a relacional, andam ainda pelos níveis da miséria.
Não há culpados, não há responsáveis, apenas um mundo que andou para a frente sem pedir licença.
Longe vão os dias em que eram um perigo ou uma bizarria inconveniente a ser domesticada: sabemos hoje que a regulação emocional, a expressão afectiva, e a qualidade das nossas relações são indispensáveis à saúde física, mental, emocional e espiritual. Sim, é doloroso admitir que muitos dos nossos laços, principalmente os mais íntimos, são um deserto cheio de ruído, mas não adianta negar a realidade. E é duro admitir que nos ressentimos dessa aridez, mas é um sinal de que a velha ordem começa a desmoronar, louvado seja Deus.
Serviu, não serve mais, simples assim.
Jung dizia que até que se torne consciente, o inconsciente comandará a nossa vida e chamar-lhe-emos destino. Cabe a cada um decidir se continua obstinadamente a destruir-se na lealdade ao que já não é, ou se aceita dar descanso aos mortos, para que uma nova forma de estar possa nascer e florescer.
A factura – a da fuga ou a da ressurreição – virá sempre.
Pagá-la-emos nós, ou os nossos filhos.
Marta Saraiva é diplomata.
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