De relance, ninguém diria.
Ninguém desconfia. Andamos certos numa vida tida por estável, apresentável, inquestionável. Previsíveis como uma folha de Excel, resultado de uma criteriosa análise de gestão de risco, em que todas as variáveis foram ponderadas e equacionadas, e devidamente apetrechada com todos os prompts adequados para minimizar o erro, a incerteza e a desordem.
Tanta polidez e tanto aprumo não iludem um olhar atento e um coração cultivado. Esbarram num corpo enraizado no presente, que capta o passo rígido e o olhar lasso, que ouve a respiração alta e apressada, e reconhece na hora a ansiedade que escalda sob tanta razoabilidade. A máscara quebra perante um corpo desperto, é inevitável.
Não afecta todos, mas chega a número suficiente para causar mossa no todo, e fazer filas à porta de cardiologistas, psicólogos e psiquiatras. Muitos de nós estão óptimos, e há uns quantos que estão a sair do torpor, …
… mas alastra pela minha leva de gente millenial o que só consigo descrever como insolvência emocional colectiva.
Fizemos tudo certo, seguimos o guião. Tal e qual como nos livros de actividades da primária, unimos muito cuidadosamente os pontos, primeiro a lápis e com régua, até formar uma figura bonita que depois pintámos com muita atenção e afinco para não deixar a caneta sair do limite nem sujar a folha. Pintámos, não colorimos. Colorir é uma das palavras mais feias do dicionário, e devia ser proibida.
Decorámos a fórmula resolvente e uns teoremas sem lhes perceber os meandros. Analisámos Pessoa e companhia, sem escrever uma história realmente nossa. E ainda demos uns toques no sistema digestivo da amêijoa, foi útil.
Absorvemos pelas retortas os mandamentos da compostura: não dar trabalho, não precisar de nada, não ter querer, não sentir, não questionar, não ter muitas ideias. O segredo da bolinha verde do bom comportamento é, afinal, simples. E que bem sabe o quentinho de aprovação de pais e professores, por cada tarefa cumprida e marcada com uma cruzinha. Pena o preço.
Vamos aprendendo tarefas cada vez mais difíceis, adiamos todas as perguntas vitais, cedendo sempre a passagem até a quem se apresenta pela esquerda. Mas é isso que toda a gente faz, não é? Corresponder, corresponder sempre. Contorcemo-nos em mil micro-acrobacias para calar a vozinha incómoda e a insistente impressão na barriga que sussurram que é melhor parar, que não é bem por ali, que aquela história não será a nossa… o corpo sabe sempre, minhas riquezas, e vai avisando. Ignoramo-lo, o nosso contorno esbate-se, e perdemos a definição.
Vamo-nos aplainando, numa superficialidade ansiosa e razoável, até nos juntarmos à vala comum dos figurantes de uma historieta anónima. Mas a maturidade é isso, não é? O apagamento de si, a morte em vida… é isso que é ser adulto, não é?

Foto © Marta Saraiva
Alguém a ver-se ao espelho? “O pensador”, do Rodin?
Um dia, olhamos em volta e não reconhecemos as paredes e os tectos onde aparentemente vivemos. Nem o aparador da sala, feio como tudo. Nem as criaturas com quem dividimos os dias e a mesa da cozinha, diz que por vontade nossa. Nem a roupa que trazemos, ou o timbre mirrado da própria voz… que vida é esta, afinal? E de quem?
Que história conta, se é que conta…? Estou a viver a minha vida e a minha história, ou as de outros? Quero mesmo isto para mim? Saberei mesmo quem sou?
A náusea, a repulsa, e a vergonha que as respostas trazem só se acalmam na fuga. Atiramo-nos a mais uma responsabilidade, mais uma decisão, mais um casamento ou um divórcio (é igual), mais um filho, mais um copo. Entre febres várias e intestinos irritáveis, o corpinho guincha em alerta laranja e deixa um rasto de cortisol, e venha mais uma consulta e mais umas análises, mais uma massagem, mais uma viagem, mais álcool, mais uma maratona, mais um investimento, mais uma discussão, mais uma casa, mais um retiro.
O pânico entra em cena – é-uma-fase-e-há-de-passar – e é aguentar e não sentir, que isso é egoísta, e siga mais um drama, mais um jantar e uma garrafa, mais um plano, mais uma formação, mais umas férias, mais uma alma para salvar, mais um cão, mais uma desgraça para acudir, mais uma dieta, mais um ano, mais horas de sono, mais uma indignação ou uma injustiça.
É-só-uma-fase-e-há-de-passar, é seguir e não (se) questionar, esse é o pecado mortal dos ingratos-mal-comportados, e vale tudo, mas tudo menos olhar para dentro de si e perder a bolinha verde, e seguimos… até soçobrar.
Até a realidade se impor: não dá mais. Não damos para mais. O filão acabou. as reservas esgotaram. Sobra só cansaço, de nós e da vida, estamos no osso. Não dá para fugir mais.
Ficámos pelo caminho, de tanto corresponder nem sabemos mais a quem ou quê… Fomos tanta coisa para tanta gente, em tantos lugares que a máscara de meninos bonitos se colou à pele. Acabámos funcionais, mas sem estrutura. Competentes, mas sem alicerce. Previsíveis, mas rígidos e sem centelha. Famintos. Semi-adiados, à espera de um braço que ampare e sustente, e do colo que não veio nem nunca virá. Vazios. Profundamente tristes.
Somos, agora, escombro e falência. Mas é aí que a vozinha reaparece, já temos ouvidos para a ouvir: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”, e rebentar de vez com a vida folha de Excel.
Marta Saraiva é diplomata.










