Enquanto cuspimos o pó e sacudimos o entulho da cabeça, vamos fazendo uma certa cartografia do caos para tentar, ao menos, perceber o que terá acontecido para tamanha implosão e evitar pirar de vez… Por fora, a vida segue, impassível. Por dentro, virou o mundo dos cogumelos mágicos.
Cada um tem o seu próprio mapa da desordem, e é bom que seja crescidinho e tenha a espinha dorsal para lhe seguir o trilho, mas hoje apetece vou ao atlas do caos colectivo e ver por onde leva… há demasiada entropia por aí para tudo se resumir a um punhado de misérias coincidentes que nem para a literatura se aproveita. Vai bem mais fundo que isso.

“O dinheiro fácil alheio ia fazer mais milagres que a Senhora de Fátima e o dinheiro alheio anterior, e tornar-nos no que nunca tínhamos conseguido ser por nós.” Foto © Marta Saraiva.
Boa parte de nós cresceu num cenário de fantasia, para não dizer de novela mexicana. Acordámos livres, democráticos e modernos a 26 de abril de 1974, e constitucionais e europeus uns anos depois. O dinheiro fácil alheio ia fazer mais milagres que a Senhora de Fátima e o dinheiro alheio anterior, e tornar-nos no que nunca tínhamos conseguido ser por nós. Crescimento eterno, progresso ilimitado. A educação pública ia desmantelar o conservadorismo do antigamente, e criar uma sociedade meritocrática sem classes, com o Doutoramento a virar o título nobiliárquico de turno e os cravos a substituir as cruzes nas paredes da casa portuguesa. E, sim, a educação formal teve esse papel de equalizador e elevador social, e ainda bem que o teve. Íamos ser limpos do pecado original da pequenez pelo cosmopolitismo da UE e afins, mas o resultado é uma gente de fatinho azul e última colecção da Zara a elucubrar sobre um Pinot Noir de “ataque fresco, meio de boca redondo, final mineral”, seja lá isso o que for. Junte-se o arrogante optimismo global dos anos 90, e o deslumbre por tudo o que era novo e diferente – a epidemia de nomes abstrusos dos anos 80 merece um estudo e umas quantas acções de responsabilidade civil por danos não patrimoniais intentadas contra os respectivos progenitores, para além da maravilhosa canção do Variações -, o acesso a informação a rodos, a bens de consumo, a escolhas, a abertura de fronteiras… devia ter resultado, certo? Deveríamos ser mais robustos, mais capazes de aguentar os choques, certo?
E se, mera hipótese de trabalho, tivéssemos saído de um regime anacrónico e falido para aterrar de pára-quedas e ajustar demasiado depressa a modelo económico, social e antropológico decadente, e hoje absolutamente falido? O da modernidade neoliberal, entenda-se. Mais do que decadente, errado.
E se, retirado todo o verniz progressista e moderninho, nós ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais de há 70 anos, regidos nos bastidores pelas regras não escritas do mundo pequeno e orgulhosamente só do Senhor Presidente do Conselho do qual, no fundo e bem lá por dentro, nunca teremos saído? Mundo esse que, finalmente, começa a dar de si…
E se o que somos hoje for, não o resultado de um boom de florescimento do espírito, mas tão somente a herança de duas falências emocionais e institucionais, a do Estado Novo por um lado, e do capitalismo tardio por outro? E só na matemática é que menos por menos dá mais… sistemas falidos só podem produzir gente falida e sem recursos. E se estas duas estações terminais fossem a melhor coisa que poderia ter acontecido a quem por cá anda hoje?
Adorava ter dados bonitinhos que explicassem tudo direitinho. Mentira, não adorava nada. “Dados” e “estatísticas” facilmente viram desculpas fáceis para racionalizar a vida, para nos demitirmos de aprender pela experiência, e para não nos atravessarmos com nada. Os que há deviam alarmar-nos: 22% dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica, 4% sofre de doença mental grave ou seja, 4% das famílias portuguesas sofre de doença mental grave, a doença mental tem uma dimensão familiar, comunitária, e colectiva que teimamos em ignorar, e um terço da população reporta sintomas de ansiedade generalizada. Somos os maiores consumidores de ansiolíticos na UE. E o álcool, o nosso antidepressivo favorito. Roçamos o alcoolismo funcional, e achamos normal. No primeiro mês de funcionamento a linha de prevenção do suicídio recebeu mais de 2000 chamadas. Parece pouco, mas é o equivalente a 1 chamada a cada 20 minutos.
Não é preciso um diploma para intuir que somos um colectivo de gente doente. Estamos profundamente doentes. Basta querer ver. Basta aguentar o reflexo que o espelho devolve.
Marta Saraiva é diplomata.










