Gestos de mãos e pés traduzem uma peregrinação diferente em Fátima

| 13 Mai 20

Uma procissão das velas diferente, quase só cenográfica. Por causa da pandemia, Fátima viveu uma noite de peregrinação diferente. O bispo recebeu cartas “agressivas e ofensivas” de pessoas que queriam estar no santuário. A peregrinação fez-se com gestos de despojamento. E as mãos e os pés podem dizer muito.

As fotos ilustram os preparativos e a realização da procissão das velas, na tarde e noite deste dia 12 de Maio, em Fátima. Fotos © Joaquim Franco, cedidas pelo autor.

 

Como se diz “Avé-Maria” em gestos? A intérprete de linguagem gestual portuguesa na televisão abre as mãos como quem embala um bebé de colo. Ergue-as depois, quase juntas, sem se tocarem, uma seguindo a outra; no último instante, acompanha esse gesto com o olhar, que se volta também para cima.

É possível traduzir música em gestos: as mãos dançam, o corpo balança levemente, os dedos imitam o deslizar sobre o teclado do órgão, a tradutora tem um sorriso suave…

Mil velas no recinto simbolizam, traduzem, em gesto cenográfico, a multidão que, desta vez, não está presente. Desenham linhas de circulação e circunscrevem a geografia do recinto, desta vez encerrado aos que, recordaria o padre José Nuno Silva, são a razão de ser daquele espaço. ÀS janelas de muitas casas, as velas multiplicaram-se, país fora, sinal da peregrinação espiritual pedida pelos responsáveis do santuário.

Sem multidão, a tradução do canto enche o espaço vazio de pessoas. Os gestos do ritual são despojados e os da linguagem gestual transportam os sentidos e sentimentos de muitos, que acompanham a liturgia pelas televisões ou redes digitais. Traduzem ainda, para o olhar e a emoção, o que para muitos significou esta noite diferente, única, em Fátima: mãos em forma de súplica para dizer a petição, mãos abertas para dizer entrega ou serviço, mãos junto do coração para expressar confiança, mãos postas para indicar a oração ou a unidade, mãos que se estendem para significar a entrega.

“À pandemia do vírus queremos responder com a universalidade da oração, da compaixão, da ternura. Permaneçamos unidos. Façamos sentir a nossa proximidade às pessoas mais provadas e necessitadas”, afirmou na homilia, citando o Papa Francisco, o cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima. A celebração da palavra seguiu-se à procissão de velas, também ela despojada e reduzida a perto de meia centena de pessoas, espaçadas, com máscaras de protecção.

Nem só as mãos. Depois da homilia, o cardeal Marto desce a longa escadaria do santuário e vem junto de três pessoas – João, 18 anos, Irene, organizadora de grupos de peregrinos, e Ricardo, funcionário do santuário – lavar-lhes simbolicamente os pés. Nas grandes peregrinações, servitas de Fátima, enfermeiros e religiosas prestam muitas vezes esse serviço a quem chega, pés feridos do caminho.

 

Os muitos que sofrem e os muitos que lutam

Esses e muitos outros foram lembrados pelo bispo de Leiria na sua homilia: “Nesta hora de provação não podíamos esquecer a representação de quem mais sofreu e continua a sofrer e dos que mais lutaram e lutam pela saúde de todos para lhes comunicar a proximidade do nosso afecto e o apoio da nossa oração: os defuntos e seus familiares, os doentes, todos os profissionais de saúde, cuidadores, idosos, pobres, famílias, sacerdotes, trabalhadores da protecção civil, dos transportes, limpeza, alimentação e outros que não se pouparam a sacrifícios, como bons samaritanos.”

Muitos dos cuidadores – médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, bombeiros, funcionários de lares de idosos – estarão representados na procissão de entrada da missa da manhã deste dia 13.

Quem se pôs de lado foram os católicos que, disse o cardeal, lhe escreveram cartas e mensagens “agressivas e ofensivas”. A decisão do bispo de Leiria-Fátima em manter apenas uma celebração simbólica a assinalar o 13 de Maio não agradou a vários grupos e sectores dentro da Igreja – que contestaram também a aceitação do reinício das celebrações comunitárias apenas a 30 de Maio.

Por isso, em Fátima, esta noite de 12 de Maio foi especial. Uma “noite escura que pesa sobre o mundo abatido por uma pandemia global”, disse ainda o cardeal Marto. Uma “invocação de quem vive uma noite escura da fé perante o aparente silêncio e ausência de Deus” ou ainda “a invocação de quem estremece e estranha esta noite tão diferente daquelas noites inigualáveis de 12 de Maio – autênticos mares de luz – e que hoje mais parece um deserto escuro!”

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