Entrevista

Gisela Cañamero: “A criação encontra-se no patamar do divino”

| 7 Out 2023

Conversamos sobre criação e criatividade com Gisela Cañamero, uma criadora multifacetada e completa. Escreve (teatro, poesia, ensaios), compõe, representa (com o corpo e com a voz, a falar e a cantar), dá vida (a quem com ela trabalha e às dezenas de animais, cães e gatos, que foram acolhidos pela Casa da Gi). Esta entrevista persegue o discernimento daquilo que é criar, numa relação de cuidado com os outros, sejam eles atores, público, estudantes.

Gisela Cañamero nasceu em 1960. Fez a sua formação em teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, tendo anos mais tarde prolongado os seus estudos no  

Master em Criatividade da Universidade de Santiago de Compostela e frequentando o doutoramento em Artes Performativas e da Imagem em Movimento da Universidade de Lisboa. Desde 1991 é diretora artística do arte pública – artes performativas de Beja, tendo criado, encenado e/ou representado inúmeros espetáculos, assim como composto música para inúmeras canções. Durante mais de uma década foi docente do ensino superior, no Instituto Politécnico de Beja. É atriz, dramaturga, encenadora, performer, compositora, poeta, pedagoga, ensaísta. Uma vida cheia, com a qual o 7MARGENS continua o ciclo de conversas sobre criação, vulnerabilidade e periferias.

 

Homens que falam como mulheres. Foto @ Arte Pública

Homens que falam como mulheres. Foto @ Arte Pública

 

7M – É dramaturga, encenadora, atriz, performer e tem a capacidade de pôr os outros a sê-lo também, mesmo quando eles não têm formação técnica para isso. Gostava que começássemos esta conversa precisamente sobre aquilo que a move para que, faça o que fizer, a criação aconteça, às vezes a partir do nada, às vezes em circunstâncias muito adversas. O que é que a move?

É uma pulsão interna que me acompanha desde criança. É mesmo uma pulsão interna e fortíssima. Acho que de conexão, de alegria perante o caminho que nós podemos fazer na transformação de algo, para chegar a um sítio que não sabemos muito bem, muitas vezes, qual é. O que já me aconteceu: desenvolver o processo criativo de uma maneira e ele encontrar outro caminho.  A criação é essa pulsão interna. Em relação ao trabalho com terceiros, é o acreditar firmemente que todos nós somos criadores e criativos, incluindo aquelas pessoas que não se acham capazes de tal. Quando se consegue criar empatia com os outros, de modo que estes também percorram um determinado caminho, os resultados são sempre surpreendentes.

7M – E são surpreendentes de muitas maneiras. Estou a pensar naquela peça de teatro feita com adultos (E se isto fosse a sério), na esmagadora maioria não atores, em que o próprio texto foi construído por eles.

Sim, foi feito a partir de autobiografias de pessoas que nunca pensaram que aquelas vivências poderiam ser colocadas em cena, ou seja, transformadas através de movimento, da partilha com os outros, do verbo. Começou como uma oficina de teatro e, quando chegámos ao fim, era realmente puro teatro. Era puro teatro. Neste caso, inserindo-se na categoria de teatro documental, porque é ancorado nas biografias das pessoas. Mas quando chegámos ao final e vimos todo aquele potencial… Os participantes possivelmente não previam que iriam fazer teatro a sério. As pessoas geralmente têm muito receio de se expor, de expor as suas memórias e as suas intimidades, mas foi possível — e foi feito um trabalho sério.

E se isto fosse a sério. Foto @ Arte Pública

Cartaz de E se isto fosse a sério. Foto @ Arte Pública

 

7M – Quer dizer que, nesse teatro documental, há uma importante função em que a criação passa por mediar e estabelecer laços entre essas memórias de cada um, sendo que cada indivíduo deve estar sujeito a um profundo processo de amadurecimento?

Sim, e de catarse até. Muitas vezes houve, não porque de alguma forma se promovesse em termos de exercícios essa catarse, mas porque as próprias pessoas ao reviverem as suas memórias — e muitas vezes relacionando-as com outros sentimentos —, chegavam a esse estado de terem de extravasar as suas emoções. E frequentemente houve tristezas profundas, choros, mas tudo isso foi ultrapassado, porque quando chegamos a um produto que se tem de mostrar a um público, embora aquilo que nós estamos a fazer é representar (ou seja, apresentar duas vezes, embora sempre com verdade,) não podemos estar emotivamente fragilizados.

7M – O que é essa verdade? Como se define essa criação em que alguém se revela até ao mais íntimo de si, sem estar emocionalmente fragilizado? Donde vem essa força para se revelar?

Como referi, representar é apresentar duas vezes, ou seja, apresentamos para nós e para os nossos colegas e para um olhar terceiro. Porque trabalhamos o texto e os relacionamentos, e trabalhamos o nosso corpo no espaço e a nossa voz. Mas, quando vamos para uma sessão de apresentação pública, devemos estar sempre a fazê-lo como se fosse a primeira vez e, portanto, é essa a verdade. Vamos fazer isto com verdade, com entrega: é uma entrega consciente. Porque é consciente, não nos fragiliza emotivamente, ou seja, nós sabemos que estamos ali numa situação de partilha e essa partilha só pode ser feita se houver uma relação com o público. E essa relação é feita através dessa verdade.

Muitas vezes vemos espetáculos que até podem ser surpreendentes do ponto de vista técnico ou do ponto de vista do talento dos atores — cantam muito bem ou fazem isto ou aquilo muito bem — mas, se não existe essa verdade que se instaura, pode ser um aborrecimento, apesar de ser um espetáculo que, em termos de qualidade é intocável… Mas representar muito bem, o que é exatamente? Não será, decerto, representar com uma série de códigos já estereotipados. Às vezes nota-se muito isso em espetáculos que têm muitas, muitas sessões, ou seja, quando o ator não vai fresco para a cena como se fosse a primeira vez, porque já conhece aquilo há muito tempo e, portanto, socorre-se de uma série de ancoragens para o fazer. Portanto, a verdade ao entrar em cena, como se da primeira vez se tratasse, é sempre importante.

 

Vamos fazer um musical. Foto @ Arte Pública

Vamos fazer um musical. Foto @ Arte Pública

 

7M – E é curioso que, do ponto de vista do espectador, uma das coisas que mais encanta no teatro é a fragilidade, o extraordinário poder que tem a fragilidade do corpo e da voz do ator.

Exato. É isso mesmo. E a força e o poder que daí advêm.

7M – É de facto algo que pode marcar muito também quem aparentemente está num papel passivo, o de assistir ao que está a acontecer…

Nunca é passivo. Quando estamos a atuar, há sempre uma relação biunívoca. Portanto, há sempre uma energia que passa do performer para o público e do público para o performer. Sempre, sempre, sempre. 

7M – Estávamos a falar a propósito do E se isto fosse a sério, mas esse envolvimento no processo que dá origem ao espetáculo teatral também passa por aspetos muito similares quando o público é constituído por jovens ou crianças, quando os atores são jovens ou crianças? Estou a pensar, por exemplo, naquilo que nós recentemente tivemos a oportunidade de ver com o teatro musical Vamos fazer um musical, que foi apresentado em maio deste ano no Teatro Municipal Pax Julia.

Quando fazemos trabalho com crianças ou com jovens, os cuidados são redobrados. É preciso ter muita atenção porque a pessoa que coordena todos estes trabalhos tem de ter uma ética profissional, que é coisa que não se aprende nas escolas, mas que parte de cada um. Porque realmente o teatro é uma ferramenta extremamente poderosa. E quem dirige sessões de teatro ou de expressão dramática, ou de jogo dramático, com crianças e com jovens, tem essa responsabilidade acrescida, porque aqui a manipulação emocional pode ser feita de uma maneira em que as fragilidades de crianças e dos jovens sejam direcionadas para um determinado propósito – nomeadamente de ascendência emocional — e não é isso o que se deseja.

Portanto, o trabalho com crianças e jovens na área do jogo dramático, expressão dramática e teatro tem que ser sempre levado com muito cuidado, porque, mesmo muitas vezes quando não queremos, quando não conhecemos bem as crianças, podemos espoletar situações de descargas emocionais grandes. Não quer dizer que seja pernicioso que isso aconteça, temos é que ter presente que não é por aí o caminho; pode acontecer por um acaso, mas não é por aí o caminho. O teatro — sobretudo nas crianças e nos jovens… — deverá torná-los melhores pessoas e acordar o sentido de cidadania, porque exige o trabalho com o outro. Nunca estamos sozinhos no teatro. O trabalho com o outro: nós temos de escutar o outro, temos de estar atentos ao outro, temos que o olhar nos olhos, ouvi-lo e estar atentos aos seus sinais corporais. Isso é consciencializado no teatro.

 

Vamos fazer um musical. Foto @ Arte Pública

Vamos fazer um musical. Foto @ Arte Pública

 

7M – Trata-se de criar numa relação de cuidado?

Sim, de cuidado. E foi isso que aconteceu com estas crianças, neste espetáculo que nós fizemos, “Vamos fazer um musical”. Houve um percurso em que a turma toda — e eles já se conheciam há 4 anos — se reorganizou emocional e socialmente. Os meninos ficaram mais unidos, ficaram muito mais atentos uns aos outros. Embora o percurso tivesse tido os seus percalços, inclusive no de relações humanas entre eles, mas conseguiram ir resolvendo os seus conflitos.

E claro que há as questões técnicas que não podem ser deixadas de parte, mas quando nós trabalhamos questões técnicas com as crianças, elas têm sempre de vir sob a forma de divertimentos. Na formação artística, pelo menos na maneira como eu a encaro, com um caráter pedagógico muito forte, há uma primeira fase de formação que é sempre divergente, ou seja, é sempre de grande abertura, onde tudo cabe, e vamos trabalhando, conhecendo-nos, imaginando-nos, inventando-nos.

E depois chega uma outra parte. Quando começamos a caminhar para o espetáculo, todas essas fases vão sendo substituídas por ensaios. É uma fase de afunilamento, é uma fase de aprimorar aquilo que se fez. É de apuro técnico também. E, como dizem os franceses, são as répétitions. E é preciso repetir muitas vezes. E eles, os meninos, viram o grande trabalho que aquilo deu. Deu um imenso trabalho. Mas estavam felizes pelo trabalho que tiveram. E nós até temos gravações áudio, onde eles dizem isso: “Isto deu muito trabalho, mas valeu muito a pena”. É o que eles dizem.

 

Camões é um poeta rap. Foto @ Arte Pública

Camões é um poeta rap. Foto @ Arte Pública

 

7M – O teatro musical que foi apresentado este ano também acontece depois de outras experiências muito significativas, como com o Tantatrocatinta, como o trabalho de oficinas de performance poética, por exemplo o Camões é um poeta rap, envolvendo públicos escolares diversos, do 1º ciclo ao ensino secundário, conforme o caso. Há trabalho que resulta de um processo longo. Mas também há coisas que acontecem numa oficina breve. Pude assistir a uma oficina dessas com uma turma de secundário….

Ah, e qual era o poeta que abordámos nesse ano?

7M – Creio que Adília Lopes. Ali, rapidamente, aconteceu.

Aconteceu, sim.

7M – Com coisas aparentemente muito singelas, como eles terem que ler um poema e terem que dizer em voz alta apenas dois versos à sua escolha, o leitor é levado a transcender-se.

A transcender-se, exatamente. Lá está, é a questão da criação. Como é que hei de dizer? A questão da criação tem a ver com essa transcendência. Encontra-se no patamar do divino. Tem a ver com essa transcendência, ou seja, a criação, o amor… — o amor desinteressado, o amor que nos faz cuidar, ter empatia pelos outros, sejam eles pessoas, sejam animais — estão muito nessa área da transcendência, de facto. Da transcendência. Existe uma transformação. Existe um caminho que é transformativo, não só de um texto, de uma maneira de olhar, de uma maneira de nos movimentarmos, mas existe esse caminho que é também uma transformação de nós próprios e de nós próprios na relação com tudo aquilo que nos cerca. Não é só com o outro, é também com o espaço, com os objetos, com a maneira como nós vemos as coisas. E sim, é uma transcendência.

 

Edição de texto para teatro, ainda não levado à cena. Foto @ Maria do Sameiro Pedro.

Edição de texto para teatro, ainda não levado à cena. Foto @ Maria do Sameiro Pedro.

7M – No trabalho em teatro, há alguma dimensão que prefira? Porque é dramaturga, encenadora, por vezes em simultâneo, embora nem sempre. Algumas dessas dimensões é mais exigente ou vai mais fundo na exigência de ultrapassar limites e vencer obstáculos?

O mais difícil é, de facto, o ato de escrever. E sobretudo de escrever teatro. É difícil. E sempre me exigiu investigação. Precisamos de um trabalho embrionário de alimentação, de investigação, mesmo que tenhamos uma ideia panorâmica, para depois escrever algo. Eu, como tenho a sorte de ser encenadora, escrevo já a ver e, portanto, sinto quando é que este monólogo não pode ser, ou esta fala das personagens não pode ser mais longa, ou quando é que pode ser uma cena de monólogo apenas. Sinto isso no ritmo do texto, na estrutura textual. É o mais difícil, é mesmo partir pedra. E é aquele trabalho que… talvez eu precisasse mais de fazer neste momento. Ou seja, estar mais sozinha comigo própria, no meio dos livros, escrevendo.

7M – Até porque na sua escrita mais recente, e creio que daí também a necessidade de investigação, os temas trabalhados são temas de História contemporânea…

Sim, tem sido, sim.

7M – Sobre momentos exigentes, preocupantes, de um passado recente, penoso, mas com ramificações até ao presente, de certa forma. Estou a pensar em tudo o que tem a ver com o trabalho sobre o período nazi ou…

O período estalinista também. O Para Além do Muro foi escrito nuns 5 meses, foi muito rápido. Para Skarin felizmente tive uma bolsa da DGLAB que me permitiu essa investigação durante uns 3 ou 4 meses, depois a escrita durante o resto do tempo; estive um ano e um mês a escrever. Tenho também outras coisas escritas que não estão publicadas: por exemplo, Os músicos de Bremen que, embora na sua ideia básica sejam inspirados no conto dos irmãos Grimm, transcendem, no texto e nas músicas, a própria fábula.

7M – E o trabalho de encenação?

O trabalho de encenação tem a ver muito com os atores que escolho. E já é outra coisa, porque já não estou sozinha. Posso ir orientando um caminho, mas em princípio estou muito aberta aos universos daquelas pessoas e àquilo que elas me vão dando e muitas vezes vou criando a partir daí — e a minha criatividade com a criatividade de B ou de C ou D é sempre muito mais do que as nossas criatividades somadas. Lá está: transcende, é outra coisa. Em relação à poesia, aquilo que acho é que esta exige aquilo que muitas vezes peço no teatro, que é clareza e que seja a palavra justa, que não haja palavras a mais, que aquilo chegue. Então, é também… O que é que é uma forma poética de ver o mundo? Não sei.

7M –Quando compõe, como tantas vezes tem feito, o que lhe traz de novo essa experiência criadora? Como experiencia relação entre a música e a linguagem verbal? Como é que a voz do(s) instrumento(s) se entretece com a voz do(s) ator(es)?

A composição musical está, para mim, ligada ao ato de criação dramatúrgica. Portanto, o discurso musical faz parte da intencionalidade dramática de que se reveste a palavra a cada instante. Naturalmente que a interpretação do ator x ou y, com a sua voz inigualável, aporta diferentes cores e matizes ao discurso verbal que é suportado por uma melodia, que é cantado.

 

arte pública_Orientando ação de Formação no FESTLUSO_Teresina_Brasil

Orientando ação de Formação no FESTLUSO, em Teresina Brasil. Foto @ Arte Pública.

 

7M – Quanto à questão da formação de públicos, esta é uma área em que está a trabalhar desde sempre…

Tenho precisamente em mãos um projeto destinado a um território dos que têm um mais baixo índice de práticas culturais no país. No entanto, quando falo com um presidente de câmara municipal, quando falo a alguém que está no poder, aquilo me dizem é que o que as pessoas querem é a água, o saneamento básico, o apoio à terceira idade, é isto, é aquilo, a satisfação das necessidades básicas, muito terra a terra. E não há lugar para algo que pode parecer um luxo, uma inutilidade. Não há lugar para a contemplação do belo, seja uma árvore, um jardim bem cuidado, um texto que se diz, que se ouve — e que pode ter esse aspeto transformador. E, exatamente por pensar que a coisa mais inútil que nós temos é a poesia, sob o do ponto de vista de muitas pessoas, estou a tentar desenhar algo que tenha a ver com a poética da vivência das pessoas. É desconcertante ainda termos de nos confrontar com esta realidade 50 anos após Abril. De novo, é preciso transformar, intervir hoje.

7M – Esta formação de públicos é algo que também acaba por estar ao serviço da criação. É preciso ter interlocutores que também participem dessa criação?

Sim, isso é essencial para a fruição das artes e deveria ser algo que estivesse muito presente no nosso percurso escolar, enquanto crianças. Seria desejável que todas as crianças tivessem um ensino musical, um ensino de expressão dramática, de expressão pelo movimento, das artes visuais, porque só fazendo é que depois também podes ser um público atento. Não é só fazendo — isto não é totalmente verdade —, mas fazendo podemos sentir mais a necessidade de continuar esse percurso – em termos profissionais ou não profissionais, não interessa. Se já tentaste tocar um instrumento, se já sentiste a dificuldade da aprendizagem, por exemplo, podes estar mais atenta à maravilha que é um exímio músico tocar uma peça determinada num determinado instrumento, não é?

Algumas edições de teatro para crianças, álbum ilustrado e poesia. Foto @ Maria do Sameiro Pedro.

Algumas edições de teatro para crianças, álbum ilustrado e poesia. Foto @ Maria do Sameiro Pedro.

7M – Às vezes há uma aparente simplicidade na obra acabada, cuja complexidade só se compreende tendo essa experiência do lado oficinal do trabalho que está por trás disso. Estas preocupações levaram-na também a fazer estudos no âmbito da criatividade e a ter bastante produção escrita sobre os trabalhos que realiza. Porque realiza processos criativos, orienta outras pessoas nos processos criativos e escreve sobre isso.

Sim, sim.

7M – Escreve não sentido de relatar a experiência emocionalmente, mas de sistematizar o processo de trabalho subjacente àquela experiência.

Sim, porque acho que isso pode ser interessante para multiplicadores.

7M – No texto “Com o Poema no Corpo” temos provavelmente um dos exemplos em que essa sistematicidade foi levada mais além, porque é uma espécie de manual que terceiros podem usar. Também em “Camões é um poeta rap” ou sobre teatro musical para crianças e jovens.

Há uma oficina que tenho feito em vários museus em que tal é ainda mais conseguido. Comecei aqui no Museu Regional de Beja e já fiz várias oficinas aqui neste museu. Já a fiz também em outros pontos do país, nos Açores, na Madeira. Trata-se de Leituras multidisciplinares e canibalismo na transfiguração artística. Tem a ver com o seguinte: a partir de um espaço museológico onde estão tantas peças em exposição, é feito um convite para imaginá-lo e vivenciá-lo de outra maneira. Essa oficina demonstra muito bem os processos criativos em que eu tantas vezes me apoio para criar. 

7M – Escreveu sobre esta oficina?

Não escrevi porque várias vezes propus ao Museu Regional de Beja fazer exatamente um tipo desse manual de instruções sobre como os professores, desde o primeiro ciclo ao ensino secundário, aí poderiam fazer com que os alunos passassem por processos criativos (através das vivências que eu tenho feito chegar a esses professores, porque geralmente até são professores que vão frequentar essas oficinas) – mas ainda não encontrei interesse para que o projeto se concretizasse…

Como é que um estímulo visual, ou um estímulo literário, nos leva a um processo criativo de movimento? Ou a um processo criativo de plasmação plástica? Ou, ao contrário, como é que um estímulo que é dado nos faz chegar a um poema que já existe? No fundo é isto. É muitas vezes partir de um ponto que é alheio a tudo para chegar ao ponto de chegada que é o poema ou que é o quadro que está exposto ou, então, partir do quadro que está exposto, partir do espaço, partir da estátua para se chegar a um processo que pode chegar a um texto. Tudo tem que ser muito vivenciado. E o que eu acho é que as pessoas acabam por ver essas coisas — sejam os textos literários, seja o espaço museológico—, acabam por vê-los com os outros olhos. Porquê? Porque se apropriaram. Porque as pessoas acabaram por se projetar naquele elemento, de alguma maneira. É o desbravar possibilidades. para que as pessoas possam olhar de outro modo aquilo que as rodeia.

7M – É como se fosse uma forma dar voz? Proporcionar às pessoas que descubram que também têm algo a dizer sobre aquilo que nessa experiência entra em relação com elas?

Sim, e muitas vezes até nem sabem que vão chegar ali. Por vezes proponho um estímulo que seja completamente exterior para depois fazer esse processo que vai lá chegar àquele quadro, àquele texto. E nesse processo há uma coisa muito importante — a confiança que as pessoas depositam em quem as está a orientar, em quem está a conduzir um percurso, que é sempre individual.

 

No avesso da pele. Foto @ Arte Pública

No avesso da pele. Foto @ Arte Pública

 

7M – É como se fosse uma espécie de peregrinação com acompanhamento espiritual?

É, é uma peregrinação. [risos] Sem dúvida que é uma peregrinação, porque cada um faz o seu próprio caminho e cada um vai fazendo aquilo que deseja fazer, aquilo que deseja exprimir. Porque eu não lhes digo “escreve isto” ou “faz este movimento assim ou assado”. Vão fazendo, para depois chegarem àquela descoberta. É muito interessante. E eu gosto muito de trabalhar com pessoas por isso, por achar que cada pessoa é um universo criativo único. Mesmo aquelas pessoas que acham que não são criativas… 

Cada pessoa é um universo criativo espantoso e único. E é preciso dar estes impulsos às pessoas. Ou seja, ter para comer, ter casa, é importante; claro que é importante comer, ter casa. Depois também é importante outras coisas. É importante a poesia, aquilo que é aparentemente inútil, que não serve para nada. E temos de nos resguardar muito, muito, muito, dando atenção e exigindo tempo a esta nossa voz interior. Porque cada vez estamos mais abafados e atolados de exigências imediatas e complexas, que nos roubam a atenção, e que, no entanto, a cada momento, parecem ser a coisa mais importante do mundo.

Quando chegas a casa e ligas a televisão ou quando te sentas à frente do computador e ligas a Internet e vês as notícias, essas coisas parecem as mais importantes do mundo, estão a acontecer e são avassaladoras. O modo como hoje temos o universo dentro da nossa casa — parece, mas não é o universo dentro da nossa casa, são determinados universos. E onde é que está aí a parte da tal peregrinação interna que tem de ser feita, sem o tempo para o silêncio e sem o tempo para estarmos connosco próprios? Não existe. Não existe possibilidade de se fazer essa peregrinação — e a criação tem tudo a ver com isso, com esse silêncio, com esse tempo que exigimos para nós. A leitura é um motor importantíssimo na criação desses estímulos.

 

Casa da Gi. Foto @ Gisela Cañamero

Casa da Gi. Foto @ Gisela Cañamero

 

7M – E criar esse tempo, pode ser também uma luta, não é? Porque quem não a conheça pode ficar a pensar que é uma quase eremita que de vez em quando apresenta uns espetáculos, mas nada está mais longe da realidade. Os seus dias são muito cheios, até pela outra vertente de criação sua, que é a Casa da Gi. Tem dezenas de seres vivos que dependem diariamente dos seus cuidados. Portanto, esse fazer tempo é um fazer tempo subjetivo também, porque as horas do dia não lhe sobram para ter esse tempo, mas consegue tê-lo e de forma muito fecunda, basta olhar à quantidade de espetáculos que já fez, de livros que publicou, por exemplo. 

Hum… pois, nem sei como é que… Há uma orientação por objetivos, há uma inspiração. Quando começa uma ideia, quando uma ideia se aloja, quando começa a fazer ninho, começa a crescer dentro de ti e chega a determinado ponto em que tens de lhe dar atenção. Mas, olhando às dificuldades e vicissitudes do processo, quando a ideia inicial se transforma num produto, tenho sempre a sensação de que um milagre aconteceu. Não se explica.

7M – Os abusos sobre os mais frágeis, em particular crianças e mulheres, são um tema que lhe é caro. Tal é evidente quando consideramos, em breve exemplo, Não te amo, mãe, Nós todos 3 ou A pastora leitora. Até na Casa da Gi têm sempre prioridade ninhadas de cachorros, cadelas prenhas ou recentemente paridas, animais em situação de abuso… Porquê esta atenção a situações de fragilidade, num compromisso que tantas vezes é para a vida?

É a minha modesta contribuição de colmatar a grande injustiça e crueldade a que estão sujeitos os mais frágeis – ou que se encontram momentaneamente em situação de fragilidade. Das coisas mais abomináveis que se me ocorre pensar é no desplante com que uma situação de dependência, de iminente sobrevivência, pode ser usada por alguém para exercer força e prepotência – seja no desrespeito completo pelas vidas dos migrantes, no abuso emocional, sexual, ou outro, de uma criança ou de uma mulher, na crueldade para com os animais. É algo execrável, sem perdão.

 

Gisela Cañamero, na capa do n.º 1 da WOS

Gisela Cañamero, na capa do n.º 1 da WOS

7M – O que é o projeto WOS – Women on the scene? A que se propõe? Como nasceu?

A WOS é uma revista que dá voz a percursos e criações de criadoras portuguesas, ou radicadas em Portugal, no domínio das artes cénicas. Recolhe depoimentos de mulheres que assumem várias facetas da criação – da escrita à interpretação, da encenação à música, à coreografia – e que se encontram em todo o território nacional, em meios urbanos e rurais, no litoral e em terras do interior.

Saíram já dois números: #1 CRIADORAS, #2 A CRIAÇÃO. Temos contado com a colaboração de profissionais como Alexandra Diogo, Ana Ademar, Ana Bárbara Soares, Ana Luena, Ana Rocha, Anabela Mira, Beatriz Baptista, Joana Brito Silva, Mariana Fonseca, Susana Paixão, Carlota Lagido, Carolina Santos, Catarina Santana, Catarina Vieira, Célia Martins, Cláudia Dias, Cristina Carvalhal, Cristina Paiva, Fernanda Lapa (entretanto falecida, e a quem dedicamos o primeiro número), Filipa Francisco, Isabel Mões, Isabél Zuaa, Julieta Aurora Santos, Lídia Martinez, Lígia Soares, Lucinda Loureiro, Luísa Pinto, Luzia Paramés, Madalena Victorino, Margarida Mestre, Maria Caetano Vilalobos, Maria João Luís, Mariana Barros, Mariana Fonseca, Patrícia Andrade,  Raquel André, Renata Portas, Rita Calçada Bastos, Sandra Maya, Sara Barros Leitão, Sara de Castro, Sarah Adamopoulos, Sofia Santos Silva, Telma João Santos, Teresa Faria, Teresa Vaz, Cristina Taquelim, Carmen Jesuíno, Tânia Sacramento – e eu própria. Maria João Brilhante, Paulo Pires, Tito Lívio e Natália de Matos deram ainda importantes contributos.

E o que transparece, é, por um lado, a enorme resiliência em afirmar o direito ao lugar da criação, a resistência de encontro a um território (o da criação e direção nas artes performativas) também marcado por uma exclusão e invisibilidade feminina – e, por outro, a enorme capacidade de resolução de problemas, de integração da vida pessoal e familiar no percurso profissional, de criatividade e de organização estrutural.

Somos muitas, seremos mais, e reivindicamos o nosso lugar na contemporaneidade do panorama artístico em Portugal – não por qualquer favor, mas porque temos provas dadas.

 

Suicido-me nas palavras de Ruy Belo

Suicido-me nas palavras (folha de sala). Foto @ Arte Pública  Suicido-me nas palavras (folha de sala). Foto @ Arte Pública

Suicido-me nas palavras (folhas de sala). Foto @ Arte Pública

 

Em Beja, no Teatro Municipal Pax Julia, acaba de ser levado à cena o espetáculo Suicido-me nas palavras, com poemas de Ruy Belo, dirigido por Gisela Cañamero, com performance de Victor Caetano, direção musical e composição de José Manhita e videoplastia de Rafael del Rio. Os poemas de Ruy Belo, como um longo monólogo, desafiam fecundamente o ator Victor Caetano, acompanhado da música criada por José Manhita e interpretada ao vivo por Leonor Esteves (guitarra elétrica), Lara Pereira (guitarra baixo) e Sara Gonçalves (percussão). 

 

 

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra

Carta nos dois anos da guerra na Ucrânia

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra novidade

No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito.

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Breves

 

Sessões gratuitas

Sol sem Fronteiras vai às escolas para ensinar literacia financeira

Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

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