Glossário dos tempos incertos

| 1 Mar 2022

Armas nucleares; armamento; guerra

 “A Ucrânia é a mais recente vítima das políticas identitárias de Estado que se têm afirmado nos últimos anos um pouco por todo o mundo, remontando às ideias dos séculos XIX e início de XX.” Foto: Míssil balístico intercontinental RS-24 Yars, fabricado pela Rússia.  © Vitaly V. Kuzmin / Wikimedia Commons 

 

Guerra. Em meia dúzia de dias a vida mudou, sobretudo para os ucranianos, mas também para os europeus e, presumo, mudará em breve para uma boa parte do mundo democrático. Assistimos, incrédulos e em direto, à morte de inocentes e à supressão da ordem política legitimada. Porém, nada disto aconteceu por acaso. Foi urdido durante anos nos corredores do poder político através da condescendência, na promiscuidade financeira atrativa, na exaltação das culturas nacionalistas nos media, com os extremistas europeus de direita e trumpistas americanos, entre outros, a funcionarem como figurantes úteis desta estratégia…

Autodeterminação dos povos. É por isto que lutam os ucranianos, cujo princípio, previsto no Pacto das Nações Unidas após a II Guerra Mundial, ficou consagrado no direito internacional e da ONU. Cito: “o princípio da autodeterminação dos povos confere aos povos o direito de autogoverno e de decidirem livremente a sua situação política, bem como aos Estados o direito de defender a sua existência e condição de independente”. É curioso que, já em 1936, a constituição soviética havia aprovado o princípio de autodeterminação das nações georgianas, ucranianas, turcas e as demais que compunham a então União Soviética…

Totalitarismo. A Ucrânia é a mais recente vítima das políticas identitárias de Estado que se têm afirmado nos últimos anos um pouco por todo o mundo, remontando às ideias dos séculos XIX e início de XX. Neste caso, a Ucrânia é vítima das ambições imperialistas russas, protagonizadas por um totalitarista que, confundindo o seu interesse ideológico absoluto com o da nação russa, exige completa subserviência dos seus cidadãos a este desígnio (Navalni que o diga). Honra seja feita aos cidadãos russos presos por se manifestarem nas praças das cidades contra este autoritarismo de Estado!

Plutocracia, Oligarquia, Cleptocracia. Expressões que, tendo significados similares, giram, genericamente, em torno da ideia de um poder exercido por uns poucos abastados e corruptos que enriquecem ilegalmente e governam o seu povo de forma totalitária e/ou manipulada em benefício próprio… O povo russo também é uma das suas vítimas…

Uma nova (des)ordem internacional. A invasão da Ucrânia constitui a face indecentemente dolorosa de uma reconfiguração em curso da ordem unipolar dos EUA herdada da queda do Muro de Berlim para uma nova (des)ordem multipolar (China, Rússia, Índia? União Europeia? quem mais?). As posições de não condenação da invasão russa assumidas por algumas potências revelam quanta hipocrisia diplomática estas conseguem aceitar, sacrificando vidas humanas na Ucrânia, para salvaguardar uma calculada posição geoestratégica futura na presumida nova (des)ordem mundial. O valor da vida humana e a liberdade dos povos parecem não constituir os alicerces da vida civilizada nesta nova rearrumação do mundo em curso.

pomba da paz nicola belem

“É preciso recorrer às melhores práticas diplomáticas e não apenas encenar diálogos que possam ser embustes,” Gravura: A pomba da paz com colete à prova de bala.

 

Diálogos de Paz. Não há outro caminho para a resolução do conflito e, no imediato, a exigência de proteger vidas, de estabelecer pontes para alcançar um cessar-fogo como garantia mútua de não agressão e abrir corredores humanitários de apoio às vítimas indefesas, estabelecendo canais de comunicação permanentes. É preciso recorrer às melhores práticas diplomáticas e não apenas encenar diálogos que possam ser embustes…

Gestos. De solidariedade: há que fomentar manifestações públicas de defesa intransigente de vidas humanas, sejam elas quais forem, quer de agressores quer de agredidos; de acolhimento aos refugiados e na implementação de ações de apoio a esta situação de emergência. De legítima defesa: consagrado no direito internacional, este princípio implica o dever de ajuda dos Estados a quem está a ser agredido fornecendo-lhes meios de defesa proporcionais, temporários, subsidiários e controlados. De coragem: este é o momento em que não se pode hesitar na defesa dos princípios dos direitos humanos à integridade física de cada pessoa (e registar atos de violações) e quanto à autodeterminação dos povos (e.g. adesão da Ucrânia à UE, da eventual adesão da Suécia e da Finlândia à NATO), entre outras iniciativas já conhecidas.

Democracia e espaço público. Nestes tempos, há que valorizar o espaço público, o lugar de formação das opiniões e das vontades políticas, que garante a legitimidade do poder, através do debate e do uso público da razão. O espaço público é a instância mediadora entre a sociedade civil e o Estado, entre os cidadãos livres e organizados e o poder. Formar opiniões públicas pluralistas constitui um dever de implicação de todos os cidadãos na defesa dos princípios da democracia. É um assunto demasiado importante para o deixar somente nas mãos dos políticos. Queremos continuar a viver em democracias consolidadas? Então organizemos debates, vigílias, fóruns, iniciativas práticas que materializam o uso público da razão livre e solidária e não apenas manifestações emocionais transitórias nas redes sociais… Este é o tempo da mobilização e não da paralisação!

Futuro. O que foi acontecendo em outras partes do mundo, aconteceu também na Europa. Para a minha geração, o acontecimento Ucrânia poderá marcar um ponto de viragem na visão dada por adquirida (ingénua?) de uma ordem internacional baseada na paz e alcançada há várias décadas na Europa. Quebrou-se um modus vivendi assente num consenso de relações entre nações construído sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial. No pressuposto esperançoso de que esta escalada bélica será contida, e depois de cuidarmos de quem necessita, há que pensar em reconstruir a confiança num novo pacto político entre nações que garanta um futuro de paz aos nossos filhos. Se um certo caminho chegou ao fim, há que reinventar novos percursos…

 

José Luís Gonçalves é professor e diretor da Escola Superior de Educação Paula Frassinetti (Porto)

 

Uma Via-Sacra especial em Guimarães

23 de março

Uma Via-Sacra especial em Guimarães novidade

A música de artistas portugueses como Pedro Abrunhosa, Marisa Liz e Tiago Bettencourt integrará uma Via-Sacra especial organizada pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Guimarães, e cujas receitas reverterão para o restauro de uma capela. A iniciativa está marcada para o próximo dia 23 de março.

Uma ativista e uma catequista à conversa com uma teóloga e um padre

Uma ativista e uma catequista à conversa com uma teóloga e um padre novidade

Georgina perguntou-se sobre como explicar a dificuldade de relação dos bispos africanos com o mundo LGBTI+, Helena congratulou-se pela presença de leigos na aula sinodal, Serena sublinhou que a participação não se limita a “fazer parte”, inclui “tomar parte”. Aconteceu no Fórum Europeu de Grupos Cristãos LGBTI+, no qual participou Ana Carvalho.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

23 de março

Uma Via-Sacra especial em Guimarães novidade

A música de artistas portugueses como Pedro Abrunhosa, Marisa Liz e Tiago Bettencourt integrará uma Via-Sacra especial organizada pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Guimarães, e cujas receitas reverterão para o restauro de uma capela. A iniciativa está marcada para o próximo dia 23 de março.

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

O “Boletim Cinematográfico” na Igreja em Portugal – uma memória histórica

Os primórdios do movimento cinematográfico no seio da Igreja em Portugal

O “Boletim Cinematográfico” na Igreja em Portugal – uma memória histórica novidade

Este é o breve historial de uma publicação simples na sua forma de apresentação, mas que, ao durar persistentemente cerca de cinco décadas, prestou à cultura cinematográfica e à Igreja Católica em Portugal um serviço inestimável e indelevelmente ligado ao nome de Francisco Perestrello, agora falecido.

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro

Frade morreu aos 85 anos

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro novidade

O último alarme chegou-me no dia 10 de Fevereiro. No dia seguinte, pude vê-lo no IPO do Porto, em cuidados continuados. As memórias que tinha desse lugar não eram as melhores. Ali tinha assistido à morte de um meu irmão, a despedir-se da vida aos 50 anos… O padre Morgado, como o conheci, em Lisboa, há 47 anos, estava ali, preso a uma cama, incrivelmente curvado, cara de sofrimento, a dar sinais de conhecer-me. Foram 20 minutos de silêncios longos.

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This