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Gomes Eanes: paradigma do espírito reformista no século XV, elo português no retiro do Papa

Gomes Eanes: paradigma do espírito reformista no século XV, elo português no retiro do Papa

| 14 Mar 19

Estando o tema da Reforma da Igreja Católica, mais uma vez, na ordem do dia é de particular pertinência evocar a voz e o percurso de uma figura maior do universo religioso português do século XV e do diálogo luso-italiano que teve lugar nesta centúria: D. Gomes Eanes, (c.1383-1459), tradicionalmente conhecido como o Abade de Florença. A sua voz ressoa em centenas de registos exemplificativos da abertura de Portugal às correntes reformistas e de observância que então percorriam a Cristandade. É também em Florença que outro português contemporâneo de Gomes Eanes, o cardeal D. Jaime (1433-1459) – filho do infante D. Pedro (1392-1449), 1º Duque de
Coimbra e regente de Portugal entre 1439 e 1448, que devido às suas viagens ficou conhecido como o Infante das Sete Partidas – jaz no mosteiro beneditino de San Miniato al Monte. Foi o actual abade deste mosteiro que o Papa Francisco escolheu para orientar os exercícios quaresmais da Cúria Romana, que decorrem esta semana.

Percurso

Natural de Lisboa, Gomes Eanes descendia de uma família socialmente modesta, mas não pobre (o pai, João Martins, era notário). A consciência do quão difícil era ascender na cidade cabeça do reino de Portugal levou-o a rumar a Itália, em 1409, para ingressar na Faculdade de Direito de Pádua. Aí permanecerá até 1413, data em que se dirige para o mosteiro de S. Justina de Pádua, onde se incorpora na Ordem beneditina, para o noviciado sob a direcção do abade reformista Luís Barbo (1382-1443).

Professa em Janeiro de 1414, integrando o círculo privado de Barbo, cuja direcção espiritual respondia a seis princípios fundamentais: convivência sã; assídua direcção espiritual; brandura e sobriedade de governo; reforma da organização monacal; incremento cultural e literário; aperfeiçoamento contínuo da administração temporal e espiritual. Quatro anos mais tarde, em 1418, lidera um grupo de 16 monges destinado a reformar o mosteiro beneditino de Sta. Maria de Florença, tradicionalmente conhecido como Badia.

O título oficial de Gomes Eanes era o de prior claustral, mas na realidade os seus poderes e raio de acção transcendiam largamente o indiciado pelo ofício canónico. Assim, D. Gomes instaura a observância em todas as áreas da vida na abadia de Florença. Desde logo na esfera do ofício, a obrigação principal.

No ano seguinte, em 1419, é eleito abade dessa mesma instituição, cargo que ocupará até à sua eleição como Geral da Ordem dos Camaldulenses em 1439. A Badia torna-se, entretanto, o segundo mosteiro da Congregação, depois de S. Justina. Em 1441, após dois anos à frente dos Camaldulenses, Gomes Eanes dirige uma súplica a Eugénio IV (1431-1447), solicitando-lhe a concessão do priorado de Santa Cruz de Coimbra. O Papa responde satisfatoriamente ao pedido, atribuindo-lhe a missão de governar o dito mosteiro, ofício que manterá até à sua morte, em 1459.

A torre de Santa Maria de Florença, a “Badia”, onde Gomes Eanes foi abade (foto © Sailko/ WikiCommons)

 

Gomes Eanes foi membro dos conselhos régios de D. Duarte (r.1433-1438) e D. Afonso V (r.1438-1481). Além disso, desempenhou as funções de legado papal para Portugal entre 1435 e 1437, e participou ativamente numa série de eventos importantes da Igreja, incluindo sessões do Concílio de Basileia/Ferrara/Florença (1431 – 1445), como apoiante do papa Eugénio IV.

Durante o longo período de vinte anos que esteve à frente da Badia, em Florença, D. Gomes deslocou-se por duas vezes a Portugal com intuitos reformadores: primeiro da Ordem beneditina, entre 1424 e 1426, e, depois, das ordens monásticas em Portugal, entre 1435 e 1436.

Neste segundo caso, o mais importante tratou-se de um projecto de visitação geral e reforma de todo o clero de Portugal.

 

Princípios orientadores

Gomes actuou na esfera política, diplomática, religiosa e cultural. Merecedora de particular destaque é a sua acção enquanto protagonista do movimento reformista monástico beneditino observante, em especial durante as duas décadas em que esteve à frente dos destinos da Badia.

Gomes Eanes é um monge com formação de jurista. Na essência, um homem actuante e de governo, que concebia a reforma num quadro bem delimitado: uma acção empreendedora fundada no respeito profundo e incondicional pela Regra. Sempre conforme, portanto, ao uso beneditino.

Neste quadro, as normas canónicas e a hierarquia constituída representavam para ele algo inquestionável, assentando, por último, todo o edifício comportamental do monge na disciplina, no rigor e, sobretudo, na obediência perfeita, requisitos prioritários e indiscutíveis. Tudo isto se congregava num espírito pragmático, que não dissociava a contemplação da proactividade.

Dito de outro modo, a espiritualidade, para D. Gomes devia ser acompanhada do poder de iniciativa e do empreendimento com zelo, condições essenciais para qualquer proposta de reorganização e de melhoria. Reformar era, pois, agir.

Gomes Eanes desejava a reforma, a observância, a boa administração e, sobretudo, a ascensão espiritual, sendo que esta última só poderia concretizar-se quando fundada nos atributos anteriores. De facto, é a constante busca do ponto de equilíbrio entre os vectores assinalados que encontramos na sua actividade administradora (do temporal e do espiritual), da Badia a Santa Cruz de Coimbra.

A sua acção de renovador não era generalista e vaga, antes concreta e objectiva. Sempre na senda do papa Eugénio IV, o grande promotor deste método: reformar caso a caso, cidade por cidade, aproveitando as ocasiões e os homens oportunos. Uma acção sempre bem localizada no espaço e no tempo. Um focar no particular e não no geral. Utilidade, sustentabilidade, cultura, arte e, acima de tudo, fé foram os seus princípios orientadores.

De sublinhar que Gomes Eanes revelou uma particular preocupação com a formação eclesiástica e literária dos monges a seu cargo, porque estas, sobretudo no caso monástico, devem ter uma ligação estreita. Não é por acaso que desde S. Justina, e muito particularmente nos anos à frente da Badia, impõe como obrigatório um elevado grau de preparação cultural, a qual passa por uma atenção especial dada ao conhecimento livresco e à vertente artística. Daí também a sua profunda preocupação com a constituição de uma boa livraria e de um scriptoriumrealmente funcional.

Das visitações e missões por ordem papal, às incumbências seculares ao serviço da Senhoria de Florença, passando pela ampla constelação de actividades diversas relacionadas com a administração temporal e espiritual da Badia, é toda uma imensa galeria de projectos e acções caracterizadas por um profundo sentido (e fervor) de mudança e melhoria. Uma galeria, saliente-se, à qual é incontornável juntar as missões ao serviço da Coroa portuguesa, os programas associados à reconstrução da Badiae ao funcionamento da livraria/scriptoriumdo mosteiro, e também os esforçados desempenhos em prole da fundação de outras instituições religiosas como as Emparedadas(Le Murate), em Itália,ou os Lóios, em Portugal.

Nota final

O percurso de Gomes Eanes é um exemplo de como, ao longo do século XV, o reino de Portugal não ficou à margem da predisposição que circulava na Cristandade de reformar a vida religiosa. Com efeito, o reino luso, em maior ou menor grau, fazia parte dos movimentos internacionais coevos de reforma da Igreja, não se limitando, pois, a assistir de forma passiva ao que se passava para lá dos seus limites fronteiriços – para além das pessoas e dos objectos, circulavam na Europa propostas reformadoras que se constituíam, afinal, como modelos religiosos identitários; aDevotio Moderna era um desses mais impressivos modelos e, sem dúvida, atingiu o espaço português.

O trajecto de corrigir do Abade de Florença nunca poderá, pois, ser pensado sozinho, de forma estanque, mas no seio de uma ampla galeria de acontecimentos e figuras que ultrapassam em muito as fronteiras da sua nação de origem, estendendo-se a toda a Europa ocidental de Quatrocentos. Sobretudo, deve ser percepcionado em profunda ligação com a coroa portuguesa e com Itália.

Depois, os contatos que estabeleceu, em particular durante o período que esteve em Itália, fizeram integrar a sua acção em plataformas de solidariedades e influência supranacionais, as quais reflectem, em última análise, a franca mobilidade das propostas reformadoras laicas e clericais do século XV na Cristandade.

Por tudo isto, é possível falar com segurança do estabelecimento de um verdadeiro diálogo entre a Itália e Portugal durante boa parte da centúria de Quatrocentos. Um diálogo, leia-se, entre a Coroa e o papado, entre o religioso e o século, no qual o Gomes Eanes é inequivocamente umas das vozes mais expressivas.

Pormenor do túmulo do cardeal D. Jaime, no mosteiro beneditino de San Miniato al Monte, outro português relaciona com Florença; foi o abade deste mosteiro que o Papa Francisco escolheu para orientar os exercícios quaresmais da Cúria Romana, que decorrem esta semana (foto © Miguel Metelo Seixas)

(Paulo Esmeraldo Lopes é historiador do IEM – Instituto de Estudos Medievais, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; texto acrescentado às 15h45 de 15/3/2019, nos dois primeiros parágrafos, com as datas de vida de Gomes Eanes e a filiação do cardeal D. Jaime)

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