Gonçalo – o jardineiro de Deus

| 21 Nov 2020

“O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; pode ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza”. Foto: Pedro Ribeiro Simões,Lisboa, Portugal – Garden art/Wikimedia Commons

 

Gonçalo Ribeiro Telles foi um católico inconformista e determinado. Subscreveu em 1959 e 1965 três importantes documentos de católicos em denúncia da ausência de liberdade, da censura, e da repressão, arcando com as consequências de uma tal ousadia. Os textos de 1959 intitulavam-se significativamente: “As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e “Carta a Salazar sobre os serviços de repressão do regime”; ambos tinham como primeiros subscritores os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho. O de 1965 ficou conhecido com o Manifesto dos 101 e tinha por título “A posição de Alguns Católicos”, causando um grande impacto, a ponto de o regime ter pressionado sem sucesso o Cardeal Cerejeira para se demarcar do documento. Sendo um militante ativo da causa ambiental, sempre demonstrou a mesma extraordinária coragem e coerência de cristão empenhado, evidenciada nas posições desassombradas que o caracterizaram.

“O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; pode ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza”. (Cidade Nova, 1956, IV série, 4). Esta citação pioneira é emblemática de um percurso riquíssimo e exigente – que nos deixa uma herança que temos de respeitar e prosseguir. Gonçalo Ribeiro Telles é uma referência da sociedade portuguesa pela ligação que sempre soube estabelecer entre a cidadania e o exercício apaixonado da sua profissão de arquiteto paisagista, discípulo de Francisco Caldeira Cabral – com quem escreveu o fundamental “A Árvore em Portugal”, defesa intransigente das culturas tradicionais.

Nunca o vimos indiferente em relação a qualquer tema relevante que pudesse ser discutido em qualquer momento. Por isso, Eduardo Lourenço chamou-lhe “Jardineiro de Deus”. Quando a defesa do meio ambiente e da qualidade de vida era ainda algo muito distante e quase exótico relativamente às preocupações imediatas, por muito que o tema começasse a ser discutido no inicio dos anos setenta com crescente projeção comunicacional, a verdade é que desde sempre, a partir das origens do Centro Nacional de Cultura, nos anos quarenta e cinquenta, e da revista Cidade Nova, Gonçalo Ribeiro Telles pôs a tónica na dignidade da pessoa humana inserida numa natureza respeitada e equilibrada. Daí que não seja estranho que o encontremos, e a muitos dos seus amigos mais chegados, como Henrique Barrilaro Ruas, João Camossa Saldanha, Luís Coimbra ou Augusto Ferreira do Amaral em movimentos alargados na defesa da liberdade e da democracia.

Gonçalo Ribeiro Telles

” Muito devemos a Gonçalo Ribeiro Telles – por isso é com legítimo orgulho que o lembramos como mestre da liberdade, da dignidade e do humanismo.” Foto CorreiaPM/Wikimedia Commons.

Dir-se-ia que é natural essa ligação e esse caminho de abertura e de inconformismo. Liberdade e tradição estão intimamente ligados ao magistério deste homem singular para quem o amor à terra e à História era algo tão natural como o ato de respirar. No entanto, para Gonçalo Ribeiro Telles a tradição não se confundia com o que se repete ou com qualquer inércia que se impõe contra o dever de completar e enriquecer pelo valor humano a herança recebida das gerações que nos antecederam. Tradição é traditio, isto é, a capacidade de transmitir generosamente e em movimento o que cada geração herda e cria. Mas a traditio é, por essência, dinâmica – daí o movimento de dar e receber, enquanto a revolutio é o regresso ao mesmo ponto de partida, num movimento circular.

O seu empenhamento monárquico deve-se a esta conceção genuína baseada na tradição. A pessoa e a comunidade são elementos cruciais – como o património cultural, material, imaterial, natural, paisagístico, até às tecnologias novas e à criação contemporânea. Patres e múnus, o dever de preservar a herança dos nossos pais, eis o que tem de ser lembrado. Assim, Gonçalo Ribeiro Telles sempre se manifestou como um espírito livre para quem o mais importante são as pessoas e não os regimes formais. Daí o seu comunalismo de base – e a sua capacidade para debater e refletir com todos.

A economia existe para as pessoas. As culturas tradicionais devem ser preservadas e protegidas – uma vez que correspondem àquilo que o tempo testou através do exemplo e da experiência. Veja-se como a preservação do património tem de seguir os métodos e os materiais tradicionais. A sociedade constrói-se pela confluência fecunda entre a singularidade das pessoas e o bem comum.

Gonçalo Ribeiro Telles, a Fotobiografia (Argumentum, 2011) do arquiteto Fernando Santos Pessoa dá-nos o percurso humano do homem, cidadão atento, disponível, generoso, capaz de fazer do diálogo entre as pessoas e a natureza algo de vivo e perene. Nada lhe era indiferente, e com que entusiasmo o víamos abraçar as causas que realmente valem a pena. Na cidade bateu-se pelos corredores verdes, pelas hortas urbanas, por um urbanismo que pusesse as pessoas em primeiro lugar. No campo, compreendendo Portugal como um rico continente em miniatura, como Orlando Ribeiro ensinou, pugnou sempre pelo respeito do que nos foi legado desde tempos imemoriais.

E invoco especialmente o muito que o Centro Nacional de Cultura lhe deve. Gonçalo Ribeiro Telles é o elo que liga à primeira geração do Centro, fundado por António José Seabra, Afonso Botelho e Gastão da Cunha Ferreira, num tempo em que Almada Negreiros e Fernando Amado ligaram cultura e teatro, conferências e debates, convívio e reflexão. Depois, foi o momento de Sophia de Mello Breyner, de Francisco de Sousa Tavares, de António Alçada Baptista – até à presença luminosa de Helena Vaz da Silva… Gonçalo foi uma presença permanente e ativa no CNC, nunca deixando que a cultura fosse de mera circunstância. E foi assim que a cultura no CNC se tornou ciente de que a criatividade e a ecologia andam a par, como uma ética pública de liberdade e responsabilidade, de cidadania e de respeito da dignidade humana.

Com António Viana Barreto foi o autor do projeto dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, galardoado pelo Prémio Valmor de 1975. Um dia, disse, aliás, que a sua ambição para Portugal era que se tornasse uma espécie de Gulbenkian. Não por acaso, foi o Coro da Gulbenkian que acompanhou as cerimónias religiosas de despedida de Ribeiro Telles no Mosteiro dos Jerónimos. Em 1913 foi galardoado com o Prémio Geoffrey Jellicoe, o “Nobel” da Arquitetura Paisagística.

Consciente da importância da cidadania ativa, teve uma participação política corajosa que determinou a consideração como persona non grata do antigo regime, com consequências gravosas. Apoiou Humberto Delgado, com Luís Almeida Braga, Rolão Preto e Vieira de Almeida, também monárquicos; participou ao lado de Mário Soares, Sophia e Francisco de Sousa Tavares em 1969 na CEUD; interveio no Congresso da Oposição Democrática; fundou o PPM e foi membro dos governos provisórios da democracia; foi um dos líderes da Aliança Democrática com Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral; foi vereador independente nas listas do Partido Socialista no Município de Lisboa e fundou o Movimento Partido da Terra (1993). O corredor verde de Lisboa a ele se deve, e o novo Parque da Praça de Espanha terá o seu nome.

Muito devemos a Gonçalo Ribeiro Telles – por isso é com legítimo orgulho que o lembramos como mestre da liberdade, da dignidade e do humanismo.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

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