Acusação de “terrorismo”

Governo da Nicarágua confisca a UCA, prestigiada universidade dos Jesuítas

| 17 Ago 2023

nicaragua bandeira foto c derek brumby

Mais uma polémica na Nicarágua com a Igreja Católica faz aumentar o clima de repressão do país. Foto © Derek Brumby

 

“A UCA é um centro de terrorismo”. Foi esta a acusação que o regime ditatorial da Nicarágua invocou para calar e neutralizar aquela que é considerada uma das mais prestigiadas universidades privadas da América Central, a Universidade Centro-Americana da Nicarágua (UCA),dirigida pela Companhia de Jesus, com sede em Manágua.

A notificação judicial chegou no dia da festa da Assunção, ao fim da tarde, dia que não é feriado na Nicarágua. Uma juíza do 10º Tribunal Penal Distrital de Manágua, ordenava a “apreensão de bens imóveis, mobiliário, dinheiro em moeda nacional ou estrangeira das contas bancárias imobilizadas, produtos financeiros em moeda nacional ou estrangeira propriedade da UCA”.

O início das aulas para o novo ano letivo estava previsto para 21 de agosto, segunda-feira, pelo que havia o habitual movimento de alunos para se inscreverem e matricularem.  Mal as autoridades académicas confirmaram a notificação recebida, gerou-se o receio de que a instituição viesse a ser ocupada pelas forças policiais, levando à evacuação do pessoal docente, administrativo e dos estudantes. Nas redes sociais, tornou-se viral a imagem de um grande crucifixo que estava a ser retirado da capela do campus universitário, bem como outros objetos de especial valor simbólico.

 

Apesar de o site da instituição continuar a funcionar como se nada de anormal estivesse a decorrer, a UCA emitiu um comunicado dando conta da suspensão das atividades, “até que estejam reunidas as condições” para a sua retoma. Com o futuro também em suspenso ficaram 546 professores e mais de 5000 estudantes.

A perseguição do regime de Daniel Ortega e a esposa Rosario Murillo remonta a 2018, quando a Universidade se converteu em refúgio para muitos jovens perseguidos pela polícia por se terem envolvido ativamente nas lutas populares contra a política social do governo.

Segundo o jornal El País, nos últimos tempos, as autoridades “encurralaram” a instituição, congelando os seus bens imóveis e as suas contas bancárias e revogando a acreditação do seu Centro de Mediação Legal, um serviço gratuito para os cidadãos.

A Província Centro-Americana da Companhia de Jesus, com sede em El Salvador, considerou, entretanto, em comunicado, as “graves acusações” de que que a UCA funcionava “como um centro de terrorismo, organizando grupos criminosos”, “totalmente falsas e infundadas”.

O comunicado chama a atenção para “o prestigioso trabalho” de ensino e investigação desenvolvido pela Universidade durante os seus 63 anos de existência, o qual “foi reconhecido nacional e internacionalmente”, tendo sido realizado “de acordo com a tradição educativa da Companhia de Jesus e as orientações da Igreja Católica”.

Do seu ponto de vista, “esta nova agressão governamental contra a Universidade não é um facto isolado; faz parte de uma série de ataques injustificados contra a população nicaraguense e outras instituições educativas e sociais da sociedade civil, que estão a gerar um clima de violência e insegurança, agravando a crise sociopolítica no país”.

A posição oficial da Companhia assume que, a partir de abril de 2018, “como resultado da sua posição em defesa da vida de pessoas que estavam a ser reprimidas por forças estatais e para-policiais, a UCA tem sido objeto de constante perseguição e assédio por parte das instituições governamentais nicaraguenses, expressa em mecanismos como a não prorrogação das certificações necessárias para o seu funcionamento”. Como exemplo refere a exclusão de membro do Conselho Nacional de Universidades (CNU), de que foi vítima, que lhe retirou a possibilidade de beneficiar “dos 6 por cento afetados ao ensino superior”.

Por fim, a Companhia de Jesus solicita ao Governo que cessem os efeitos das medidas tomadas contra a UCA, agradece o grande número de manifestações de solidariedade nacional e internacional, assume o seu compromisso com o povo da Nicarágua e com o Evangelho e reconhece que “o confisco de facto da UCA é o preço a pagar pela busca de uma sociedade mais justa, para proteger a vida, a verdade e a liberdade do povo nicaraguense, de acordo com o seu lema: A verdade vos libertará (João 8:32)”.

O Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas, através do seu escritório para a América Central e as Caraíbas, considerou na rede social X (ex-Twitter) que o impacto das medidas contra a UCA, com a suspensão das aulas, “afeta seriamente o direito à educação, que é essencial para o cumprimento de outros direitos humanos”.

Aquela agência apelou à Nicarágua para que respeite as suas obrigações ao abrigo do Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, que protege o direito à educação.

Por sua vez, o bispo nicaraguense exilado Silvio Jose Baez, escreveu que “a confiscação injusta e ilegal da UCA pela ditadura sandinista é ultrajante” e demonstra “desprezo pela liberdade intelectual, pela educação de qualidade e pelo pensamento crítico. Todos os dias, afundam-se mais na sua irracionalidade, na sua maldade e no seu medo.”

A historiadora Dora Maria Tellez, também ela exilada denunciou igualmente a medida, considerando-a como um ato de “ditadura”. “A universidade com a maior qualidade académica do país foi liquidada”, disse Tellez, uma ex-aluna, citada pelo site da cadeia televisiva Al Jazeera.

 

Judeus na Europa “mais angustiados que nunca” face ao aumento do antissemitismo

Estudo revela

Judeus na Europa “mais angustiados que nunca” face ao aumento do antissemitismo novidade

O mais recente relatório da Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) não deixa margem para dúvidas: o antissemitismo cresceu nos últimos cinco anos e disparou para níveis sem precedentes desde o passado mês de outubro, o que faz com que os judeus a residir na Europa temam pela sua segurança e se sintam muitas vezes obrigados a esconder a sua identidade judaica.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Fundadora da Comunidade Loyola castigada pelo Vaticano é ministra da comunhão em Braga

Decreto de extinção a marcar passo?

Fundadora da Comunidade Loyola castigada pelo Vaticano é ministra da comunhão em Braga novidade

A pouco mais de três meses de se completar um ano, prazo dado pelo Vaticano para extinguir a Comunidade Loyola, um instituto de religiosas fundado por Ivanka Hosta e pelo padre Marko Rupnik, aparentemente tudo continua como no início, com as casas a funcionar normalmente. No caso da comunidade de Braga, para onde Ivanka foi ‘desterrada’ em meados de 2023, por abusos de poder e espirituais, a “irmã” tem mesmo estado a desenvolver trabalho numa paróquia urbana, incluindo como ministra extraordinária da comunhão, com a aparente cobertura da diocese.

Sobreviventes de abusos acusam bispos de os “revitimizar” no processo de compensações financeiras

Contra a obrigação de repetir denúncias

Sobreviventes de abusos acusam bispos de os “revitimizar” no processo de compensações financeiras novidade

Vários sobreviventes de abusos sexuais no seio da Igreja Católica expressaram, junto da presidência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o seu descontentamento quanto ao “método a utilizar para realizar as compensações financeiras”, dado que este obriga todas as vítimas que pretendam obtê-las a repetirem a denúncia que já haviam feito anteriormente.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This