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autores-pedro fraga

gramática que muda tudo

| 30/05/2025

 

Fé em Deus é fé na vida. O cristianismo sempre se debateu com questões que apertam o sussurro do divino, impedindo-o de se tornar uma experiência originária do mundo que construímos e habitamos.

Contemplando a fé na ressurreição, como podemos tornar palpável esta primeira relação? Segundo a sentença de Falque, “Quanto mais alguém filosofa, melhor teologiza“. Assim, é necessário compreender de que modo esta questão pode ser colocada ou, nas palavras de Milan Kundera: “a beleza esconde-se atrás dos cenários. (…) Para a encontrar é preciso furar a tela do cenário”.[1]

Na verdade, a Páscoa não nos traz uma revelação estranha ao que Jesus era; pelo contrário, revela o que Ele era sem que tivesse sido plenamente reconhecido. Apesar de Jesus já não estar sujeito às leis do espaço e do tempo, é o mesmo que percorreu o caminho que o levou à crucificação, vivendo agora de modo misterioso e atuante na existência daqueles que o acolheram. [2] Ou seja, Cristo faz-se ver vivo no Jesus de Nazaré, atestando aquela forma de viver como dom incondicional, que impede que a morte e o mal tenham a última palavra.[3]

As aparições pascais confirmam que o exercício de reconhecimento de Jesus é a base da idoneidade do testemunho[4], uma vez que o objetivo não é descortinar uma vida após a morte, mas o chamamento que Jesus dirige à nossa vida. A ressurreição destrói a morte, não porque a evita, mas porque anuncia “a absoluta e radical realização de tudo o que é verdadeiramente humano, dentro de Deus”.[5]

Como podemos compreender isto? Há sempre o risco de cometer dois erros: por um lado, reduzir o caminho de Jesus apenas a uma coleção de ditos, abordando-os simplesmente como uma preparação para os seus últimos dias em Jerusalém; por outro lado, cair na tentação de desmitologizar o sentido da sua vida (como propunha Bultmann), desligando-a da sua paixão e morte.[6] Com efeito, a ressurreição é uma novidade cristã porque a assume  a partir do humano. Testemunha-se a crença na ressurreição dos mortos, mas não a ressurreição de um único humano. Por isso mesmo, ela reforça o próprio “sim” dado por Deus à vida de Jesus, impedindo que esta seja interpretada como uma imagem vazia ou um acontecimento do passado.[7]

Sendo assim, devemos entrelaçar-nos no caminho de Jesus, desde o seu Getsémani ao tormento da crucificação e, por fim, à vinda da ressurreição. Devemos interrogar a figura do Salvador e, por consequência, a forma como Deus, em Jesus, transfigura a vida. Como sublinha com precisão a Gaudium et Spes: “pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado.” (GS 22). Portanto, Deus é uma presença incarnada na fragilidade fugitiva que atravessa a nossa contingência, o caos, a pulsionalidade do nosso organismo.

Fresco da Ressurreição, Igreja de Chora

‘Curiosamente, depois da ressurreição, Jesus apresenta-se com o princípio que sempre orientou a sua vida: “Estou sempre convosco”‘ Fotografia: Fresco da Ressurreição, Igreja de Chora (Kariye Museum ) Istambul.

Ora, a figura do Salvador deve conduzir-nos à revelação de Deus na carne humana. Entre o corpo estendido (Descartes) e o corpo vivido (Husserl), existe um terceiro corpo, uma espécie de zona intermédia, no qual se encontra aquilo que não controlamos, mas que habitamos — e onde, por sinal, o próprio Salvador não está ausente. Trata-se sobretudo de uma pulsão interior, uma espécie de vida instintiva que a nossa consciência não consegue modelar.[8] É talvez essa a marca do Getsémani, onde surge o grito mais humano, pois é aí que Jesus enfrenta a angústia e a morte como atos que podem ser atravessados como vida.[9]

Neste sentido, a nossa pergunta não deve ser tanto: “como é que o humano procura Deus?”, mas o seu contrário: “como é que Deus procura o humano?”. É Deus quem nos ensina o que é o humano, fazendo da sua kenosis não uma limitação num recetáculo previamente preparado, mas a escolha pela qual Deus vem habitar e revelar o seu desejo dentro dos nossos próprios limites.[10]

Será, porventura, este Deus — que se manifesta com um corpo exposto na cruz — que se dá como possibilidade da carne, ao ponto de a carregar, sem a rejeitar, tomando consciência de que é nela que deve viver?[11] A Ressurreição seria, assim, o resultado da metamorfose de Deus ao transformar a nossa condição, não só para a divinizar, mas para a humanizar. A graça também se humaniza, pelo que exige uma verdadeira assunção e transformação de toda a nossa humanidade. É na força do Espírito Santo que somos “metamorfoseados” [12], sendo conduzidos à luz da “cristificação do Cosmos” (Teilhard de Chardin), por meio da qual penetramos o plano final do mistério da encarnação.

A experiência crente “precisa de repensar o assentimento de fé aos atributos divinos que, na realidade, contradizem a própria imagem do Deus bíblico”.[13] Sem atravessar a nossa contingência — que é, no fundo, a essência da encarnação —, corremos o risco de transformar a fé num exercício angélico e irreal de pensar a vida. Deus é uma variável na nossa vida. A dimensão da fé acompanha a existência, na qual está assente tanto o mistério da crença como da incredulidade.[14] A fé nunca será uma ideia imutável, uniforme e absoluta. Ela encontra-se num jogo de confiança que acompanha o nosso devir. [15]

Curiosamente, depois da ressurreição, Jesus apresenta-se com o princípio que sempre orientou a sua vida: “Estou sempre convosco” (Mt 28, 20). Ou, se quisermos recuperar a interpelação: “Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu?” (At 1, 11), somos relembrados de como Ele colocou o sentido da sua vida no mais ordinário e quotidiano, o que se revela plenamente na sua Páscoa.[16]

Portanto, a ressurreição não é a projeção de um desejo ilusório, mas um acontecimento que exige fidelidade. É na transfiguração do nosso quotidiano e na insurreição contra tudo o que dessangra a condição humana que tudo será transformado[17]. Tal como afirma Karl Rahner: “O cristão crê na morte de Jesus como o acontecimento pelo qual a humanidade, no seu ponto mais elevado e mais profundo, se entregou inteiramente à graça de Deus. Acredita na sua ressurreição, realização suprema desse homem Jesus, como uma realidade através da qual a humanidade, ultrapassando a sua história espaço-temporal, começou já a possuir diretamente a própria vida de Deus.”

[1] Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, trad. Tereza Bulhões Carvalho de Mello (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), 243.
[2] Cf. Bento Domingues, Fora do Diálogo não há salvação (Lisboa: Gradiva, 2016), 36.
[3] Cf. Pierangelo Sequeri, A ideia da fé: Tratado de Teologia Fundamental (Braga: Frente e Verso, 2013), 181.
[4] Cf. Sequiri, A ideia da fé, 181.
[5] Leonardo Boff, Vida para além da morte: o presente – seu futuro, sua festa, sua contestação, 21.ª ed. (Petrópolis: Editora Vozes, 2002), 20.
[6] Cf. Christian Duquoc, Jésus, homme libre: Esquisse d’une christologie (Paris: Cerf, 2003), 16.
[7] Cf. Daniel Marguerat, Ressurrección: Una historia de vida, trad. Juan Sánchez e Julián Mellado (Madrid: Fliendner Ediciones, 2012), 60.
[8] Cf. Emmanuel Falque, Métamorphose de la finitude: Essai philosophique sur la naissance et la résurrection (Paris: Cerf, 2004), 124.
[9] Cf. Massimo Recalcati, La noche de Getsemaní, trad. Carlos Gumpert (Madrid: Editorial Anagrama, 2024), 80.
[10] Cf. Emmanuel Falque, «Seul un Dieu peut encore nous sauver», Transversalités 2014/3, n.º 131 (2014): 164.
[11] Cf. Falque, «Seul un Dieu peut encore nous sauver», 166-167.
[12] Falque, Métamorphose de la finitude, 180.
[13] João Paulo Costa, Indícios: À escuta dos traços de Deus (Lisboa: Universidade Católica Editora, 2016), 40.
[14] Cf. Costa, Indícios, 40.
[15] Cf. Costa, Indícios, 40. Cf. Adolphe Gesché,, Dios, 129-132.
[16] Cf. Fabrice Hadjadj, Ressurreição: Manual de Instruções, trad. Maria do Rosário de Castro Pernas (Braga: Editorial Apostolado da Oração, 2023), 38.[17] Cf. Recalcati, La noche de Getsemaní, 80.

Pedro Fraga é sacerdote da arquidiocese de Braga.

 

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