“Grande festa” na Ribeira Seca com visita de bispo após 50 anos põe fim a conflito com padre Martins Júnior

| 14 Jul 19 | Cristianismo - Homepage, Destaques, Igreja Católica, Newsletter, Portugal, Últimas

Martins Júnior ensaiando jovens; imagem de uma reportagem da SIC emitida em Dezembro de 2018 (https://sicnoticias.pt/programas/vidas-suspensas/2018-12-04-A-historia-do-padre-rebelde-da-Madeira)

 

Este domingo, 14 de Julho, ficará na história da paróquia da Ribeira Seca, diocese do Funchal: às 17h, o novo bispo, Nuno Brás, preside à Festa do Santíssimo Sacramento, assinalando a remissão da suspensão a divinis do padre José Martins Júnior, declarada pelo então bispo Francisco Santana em Julho de 1977 – faz agora 42 anos. É a primeira visita de um bispo do Funchal à paróquia ao cabo de quase meio século.

Será uma “grande festa”, diz o padre Martins Júnior, 81 anos, em entrevista à TSF, uma vez que há quase meio século que um bispo do Funchal não vai à paróquia. “Aquele que abandona a casa perde o direito à casa e a diocese abandonou a Ribeira Seca”, diz o padre Martins, que teve muitas vezes a tentação de abandonar o ministério presbiteral: “Se não fosse o povo, eu já há muito tempo tinha desistido”, diz.

O então bispo Santana era apontado na época como tendo patrocinado a ascensão política de Alberto João Jardim, que viria a ser líder do Governo Regional da Madeira entre 1978 e 2015. O bispo “era de uma militância política descarada, despudorada”, acusa o padre. Desde a sua ida para o Funchal, em 1974, Santana acusa Martins Júnior de empenhamento político e, após mais de dois anos de tensões e conflitos, acaba por suspender o padre administrativamente.

O envolvimento político, como deputado regional e presidente da câmara do Machico, aconteceu como “a única forma de não [lhe] cortarem a palavra”, diz o padre Martins, que desde cedo apoiou o povo da Ribeira Seca na luta contra o regime da colonia: “Foi uma escravatura” e por isso “o povo de Machico e Ribeira Seca trazia consigo o espírito revolucionário”. “Foram as pessoas que fizeram de mim mais reivindicativo”, acrescenta.

Ser deputado regional foi, por seu lado, “um serviço”, sempre longe de qualquer ambição política. “Obrigado, povo do Machico e Ribeira Seca, por me terem ensinado este caminho”, diz o padre Martins, na entrevista. A mesma tem levado José Martins Júnior, que toca acordeão, a dinamizar um conjunto de actividades culturais na Ribeira Seca e no Machico.

A situação de exclusão manteve-se com os dois bispos que sucederam a Francisco Santana: Teodoro de Faria, com o apoio do líder político regional, Alberto João Jardim, “mandou 70 polícias ocupar a igreja”, recorda Martins Júnior. António Carrilho, que veio a seguir, tentou resolver a questão, mas ficou pela intenção. A suspensão a divinis impedia o padre de celebrar a missa e os sacramentos, mas Martins Júnior continuou sempre a fazê-lo, com o apoio do povo e à revelia da diocese, ao mesmo tempo que reivindicava a possibilidade de ser ouvido.

Foi o terceiro bispo depois dos acontecimentos que acabou por sanar o caso, num decreto com data de 16 de Junho que prevê a confirmação da validade de todos os sacramentos celebrados. “Quem desobedeceu não fui eu, foram os (padres) que foram nomeados para a Ribeira Seca e nunca lá puseram os pés”, diz ainda.

O padre José Martins Júnior, junto do bispo do Funchal, Nuno Brás, assinando os documentos que colocaram fim a um caso com 42 anos. Foto: Diocese do Funchal

 

O padre Martins Júnior faz uma análise cáustica do processo, agora que ele terminou: “Na Igreja liga-se mais ao frasco do que ao que tem dentro, liga-se mais ao paramento do que ao sacramento.” E enaltece a atitude do bispo Nuno Brás: “Fica ao rubro a evidência do que é o Direito Canónico. A justiça da Igreja é inferior à humana” e o bispo “teve a coragem de afrontar tudo isso”.

Filho de pai pescador, e de um pai e mãe que “lutaram e muito se sacrificaram para pôr os filhos a caminhar na vida melhor do que eles”, Martins Júnior esteve também, na fase inicial do seu ministério de presbítero, a trabalhar como capelão militar durante dois anos, na Guerra Colonial. “Tenho vergonha de ter sido capelão militar”, diz agora, “é uma das nódoas da minha vida”. Mas o padre aceitou essa missão “para ver como era a vida de um jovem na guerra colonial”. O que viu deixou-o “chocado e revoltado”.

E viu não só os soldados mas também os supostos inimigos: “O que me impressionou mais foi ver terços e imagens de Nossa Senhora feitos” pelos Macondes de Moçambique, em cuja região esteve. “Fiz o baptismo de 32 pessoas, grandes e pequenos, africanos”, o que o levou a pensar que estava a “colaborar com a guerra para matar irmãos”.

É este homem que nestedomingo vê reconhecida a sua persistência.

(A entrevista à TSF pode ser ouvida na íntegra aqui; na SIC, pode ser visto aqui um excerto da reportagem Os Padres Políticos, da autoria de Joaquim Franco, emitida em Outubro de 2008)

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