Arte do ex-jesuíta ainda no santuário

Grande peregrinação em Lourdes sob a nuvem dos mosaicos de Rupnik

| 10 Fev 2024

Jesus, Ressurreição, Arte, Marko Ivan Rupnik, Lourdes, Basílica de Nossa Senhora do Rosário

Aparição de Jesus aos discípulos depois da ressurreição (pormenor). Obra na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Lourdes (França), da autoria do padre Marko Ivan Rupnik, que está a ser acusado de abusos. Foto © António Marujo/7Margens

 

Celebra-se este domingo, 11 de fevereiro, a grande peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Lurdes, em França, equivalente ao 13 de maio em Fátima, evocando a primeira aparição de Maria a Bernadette Soubirous, ocorrida, segundo os crentes, em 1858. Este ano, porém, a sombra de um presbítero internacionalmente conhecido criou algum ruído sobre este centro de piedade popular.

Relativamente às celebrações, um comunicado do Santuário informa que o dia 11 tem um motivo acrescido de oração, dado ser também o Dia Mundial do Doente, instituído pelo papa João Paulo II, há cerca de três décadas. Os atos litúrgicos tiveram início neste sábado, com a procissão mariana de tochas, que inaugura a as cerimónias da peregrinação. A eucaristia internacional tem lugar este domingo, às 11h (menos uma hora em Portugal), sob a presidência do cardeal François Bustillo, arcebispo de Ajaccio (ver o programa completo).

Algum ruído que rodeia este ano estas celebrações está relacionado com a polémica em torno do padre e artista de mosaicos Marko Rupnik, envolvido em casos graves e escabrosos de abuso de poder e abuso sexual sobre religiosas e figura de grande poder simbólico nos meios do Vaticano. Esta influência inclui os três últimos papas, de modo particular o Papa S. João Paulo II, que encomendou ao Aletti, centro artístico que ele criou e liderou, a decoração interior da capela vaticana Redemptoris Mater, e o Papa Francisco, jesuíta como ele foi até 2023, que presidiu à celebração dos 25 anos do Centro Aletti e o convidou para orientar o retiro quaresmal de 2020 para o pessoal do Vaticano.

Ora, de entre mais de uma centena de basílicas, catedrais, tempos e seminários que nos quatro cantos do mundo têm obras da escola de Rupnik, mais ou menos grandiosas (a basílica da Santíssima Trindade em Fátima é uma delas), destaca-se precisamente o Santuário de Nossa Senhora de Lurdes, em França, cuja fachada e rampas de acesso foram decoradas com vários painéis evocativos dos mistérios evocados na oração do terço do rosário.

Quando em finais de 2022 explodiram os relatos de abusos atribuídos ao padre Rupnik e se começou a conhecer o ‘currículo’ deste artista, que passou, inclusivamente, por processos na Congregação para a Doutrina da Fé, em vários edifícios e espaços religiosos levantaram-se questões à presença de alguém cujas malfeitorias dificilmente se podiam dissociar das obras que produziu. O Santuário da Senhora de Aparecida, no Brasil, que tinha contratado com Rupnik a decoração de todas as fachadas, um empreendimento de enorme impacto, decidiu interromper o contrato, com a obra a menos de metade. Em Lurdes, onde as transmissões diárias do terço davam regularmente grande visibilidade às imagens que figuram nas duas rampas de acesso ao templo, a obra de Rupnik começou a suscitar reações de incómodo e mesmo repulsa, a ponto de o bispo de Tarbes-Lurdes, Jean-Marc Micas, ter criado uma comissão para analisar o problema e propor soluções.

O trabalho dessa comissão decorria sem que transparecessem sinais de algum desenvolvimento, até que, há dias, o prelado, que também integra a comissão, se referiu ao assunto.

Em declarações citadas pela Catholic News Agency (CNA), o bispo Jean-Marc Micas revelou ter recebido “montes de cartas de pessoas muito indignadas porque os mosaicos ainda estão lá e de outras pessoas igualmente indignadas com a ideia de que poderíamos vir a removê-los”.

Revelou ainda que, na constituição da comissão que estuda o que fazer, pesou o testemunho de uma voluntária inglesa ali em serviço ao longo de vários anos, que lhe disse ter “conhecido muitas mulheres que vêm a Lurdes pedir uma cura especial após os abusos”. A mulher descreveu as duas rampas da basílica como «os braços da Imaculada Conceição acolhendo os seus filhos»; porém, agora, para ela e para muitos devotos, deixaram de ser isso, para passarem a ser «os braços do Padre Rupnik”.

O bispo reconhece, na entrevista à CNA, que a decisão que vai ter de tomar “é muito, muito difícil”, até porque em vários outros sítios análogos, há muitos responsáveis católicos que aguardam com expetativa a decisão de Lurdes, ainda que ele entenda que o que vier a decidir será válido apenas para aquele caso. Seja como for, revelou que na primavera conta ter o assunto decidido.

 

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