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Expo universal

Grande significado do pequeno pavilhão vaticano no Dubai

pavilhao santa se expo dubai foto © Conselho Pontifício da Cultura

Uma reprodução do fresco da criação de Adão decora o teto do pavilhão da Santa Sé na Expo de Dubai. Foto © Conselho Pontifício da Cultura.

 

O Papa Francisco quis que a Santa Sé estivesse presente na Expo de Dubai (2020), na tradição que vem desde o início (Expo de Londres – 1851), sem nenhuma interrupção. Estes eventos nasceram para celebrar o progresso técnico e promover o mútuo conhecimento dos povos.

“Coligar as mentes, criar o futuro” é o tema geral da atual Exposição universal, que decorre entre 1 de outubro de 2021 a 31 de março de 2022, um ano depois do previsto. O Conselho Pontifício da Cultura foi novamente encarregue de preparar e animar o Pavilhão vaticano, como ocorreu com Milão (2015) e Beijing (2019). É particularmente significativa a presença vaticana na primeira expo realizada no Médio Oriente em país de maioria muçulmana. Mas foi precisamente aí, nos Emiratos Árabes, que o Papa Francisco assinou, a 4 de fevereiro de 2019, a Declaração sobre a fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum com o Imã da mesquita de Al-Azhar, Aḥmad Al-Ṭayyib. O documento foi editado em árabe e inglês, com introdução de Sua Alteza Xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, Emir de Dubai, e do Papa Francisco. Os visitantes recebem uma edição popular bilingue desse documento.

O pequeno pavilhão, caraterizado pela sobriedade, no contexto difícil da pandemia e da escassez de recursos, foi pensado e preparado com muita dignidade e beleza por monsenhor Tomasz Trafny, vice-comissário, e a supervisão do cardeal Gianfranco Ravasi. O projeto é do arquiteto Giuseppe Di Nicola.

O fio condutor do pavilhão é a fraternidade. Remonta ao encontro ocorrido há 800 anos no Cairo em 1219, entre o sultão Malik Al-Kāmil e São Francisco, momento de viragem com a presença franciscana, que ultrapassava a mentalidade das cruzadas e abria caminho a um diálogo fraterno. Uma reprodução do célebre quadro de Giotto, existente na basílica superior de Assis, marca a entrada do pavilhão, coligando o encontro de 2019 agora com outro Francisco.

A evocar o fundamento da fraternidade em Deus criador, vê-se uma reprodução do fresco da criação de Adão a decorar o teto do pavilhão da Capela Sistina. A fé num único Deus criador constitui o vínculo profundo entre todos os filhos de Abraão.

Ao redor do espaço situam-se alguns manuscritos originais da Biblioteca Apostólica do Vaticano. Em primeiro lugar, o incipit de uma tradução árabe (ca. 800-830) das tábuas manuais de Téon de Alexandria, fragmento palimpsesto proveniente da grande universidade criada no século IX em Bagdad, significativa por revelar o esforço da cultura daquele tempo para tornar acessível ao mundo islâmico o saber de outros povos. Em segundo lugar, expõe-se o Liber Abbaci de Leonardo Pisano ou Fibonacci (ca. 1170 – ca. 1250), introdutor dos números árabes no Ocidente. E, em terceiro lugar, pode admirar-se o texto das Observações sobre a reforma gregoriana do calendário feitas pelo médico, cosmógrafo e matemático português Tomás de Horta (+1594). Gregório XIII pediu parecer a vários cosmógrafos e Portugal ofereceu este contributo, em 1579.  A exposição é acompanhada por um breve documentário realizado pela Biblioteca Vaticana.

Conseguir um calendário partilhado por vários povos foi elemento fundamental para a comunicação. Este processo, iniciado no mundo católico, estendeu-se à Europa e a todo o mundo. Um testemunho importante deste caminho é a meridiana construída na Torre dos Ventos dos Museus Vaticanos. Através desta, os peritos verificaram a divergência das estações do calendário juliano, que na altura já atingia um atraso de 11 dias. Essa meridiana está reproduzida no pavimento do pavilhão, mostrando o necessário diálogo entre ciência e fé.

A receber os visitantes estão dois manequins, vestidos com uniformes da Guarda Suíça, que ao longe identificam a marca vaticana do pavilhão. A Juventude Franciscana de vários países reúne a equipa de jovens voluntários, entre os quais jovens portugueses, que guia os visitantes. São memória viva do espírito franciscano aberto à fraternidade universal.

A 19 de março de 2022, será o dia nacional da Santa Sé, com a presença do Secretário de Estado do Vaticano.

As muitas dificuldades foram ultrapassadas e certamente o resultado final sublinha a importância de construir pontes entre as diferentes culturas e religiões, optando pela evocação do que aconteceu de positivo na história e provoca os atuais responsáveis dos povos e das religiões a escolher caminhos de abertura, de diálogo e até de colaboração para salvaguardar o bem da criação. A memória de um passado dialogante deseja-se inspire e ofereça energia para criar um futuro harmonioso.

 

Carlos Moreira Azevedo é bispo e delegado do Conselho Pontifício da Cultura

 

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