Grandes fraturas da humanidade

| 13 Out 2022

Solidão. Abusos

“Porque somos pessoas de pessoas não devíamos esquecer-nos que a solidão mata mais do que a doença.” Foto © Sam Moqadam  | Unsplash

 

Entre os dias 28 e 31 de Agosto deste ano realizou-se, em Fátima, a 44ª Semana Bíblica Nacional, subordinada ao tema Da Bíblia à Igreja Sinodal. A matéria que, nela, fui gentilmente convidada a abordar tinha que ver com as fraturas da humanidade, baseando-me, sobretudo, na encíclica Fratelli Tutti (nºs 10-50), do Papa Francisco.

Este mês de Outubro é marcado, entre outros, pelo Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinalou dia 10. Porque defender a Saúde Mental não é apenas (também o é e isso é muito importante) fazer campanhas anti-estigma ou sensibilizar para a necessidade de se pedir ajuda a tempo, quando se identifica um problema ou os seus sinais prodrómicos, resolvi compilar alguns conteúdos dessa intervenção que fiz: acredito que o conhecimento favorece a regulação e que, a partir desta, podemos prevenir consistentemente, sempre melhor do que remediar, alguns problemas graves. Não somos sem o nosso contexto e, por isso, temos de estar bem cientes do que, dele, nos ensombra os percursos internos e nos predispõe para a insanidade psíquica. Todos podemos ter um papel ativo. Os dias de… são realmente úteis porque nos permitem, a propósito, passar uns tempos a refletir temas intemporais, mas que, se não tiverem um bom pretexto, são frequentemente evitados.

Temos de assumir que o mundo ocidental, desenvolvido, se transformou num 3º mundo no que diz respeito ao modo como cuida da própria humanidade em diversos aspetos. Tudo, nele, muda ao segundo pelas melhores, mas também pelas piores razões e este é o enquadramento em que existimos. O homem não sabe parar e ignora as provas que lhe mostram que também não se salva sozinho.

Fratelli Tutti é, como se sabe, uma encíclica que pretende responder à questão dos caminhos a percorrer para quem quer construir um mundo mais justo e fraterno nas suas relações quotidianas, nos diferentes contextos da vida. Pretende também responder a uma aspiração mundial à fraternidade e à amizade social. Deveria ser de leitura obrigatória e urgente para os que querem voltar a tratar o homem humanamente.

A pandemia poderia ter mostrado que estávamos todos no mesmo barco e ajudado a repensar a nossa existência, mas não me parece. Tudo está a voltar à “patológica normalidade” anterior.

O mundo ficou estranho de repente, mas já esquecemos. As cidades ficaram vazias, mas já esquecemos. Os aviões não saíram do chão, mas já esquecemos. Os animais vieram da selva para algumas urbes, mas também já esquecemos.

A/s guerra/s ameaçam-nos e, não tarda, conseguiremos ser-lhes indiferentes.

Somos, digo eu, ridículos com tudo o que teimamos em não aprender.

O homem ocidental continua a querer ser dono e senhor da vida e de tudo o que existe. Deveriam contar mais os atos do que as palavras. Esse seria o verdadeiro testemunho.

Muitos seres humanos não querem ser dignos, ou seja, preferem expor-se histrionicamente a construir um ser e um estar com dignidade e ter o desejo de superação rumo à melhor versão de si.

Sou contra tudo o que destrói esta enorme criação de Deus que somos nós, mas, nestes tempos, também somos nós que, na nossa evolução imparável, nos destruímos a nós mesmos.

Nestes mesmos tempos em que o abandono parece não incomodar ninguém, mas afeta todos, invocarei alguns pontos essenciais que inviabilizam ou, pelo menos, boicotam a tão necessária fraternidade:

  • O ser humano tem uma ténue memória para a dor; ou seja, como já vimos, teima em não aprender com o seu passado, distante ou temporalmente próximo;
  • No Ocidente o envelhecimento acompanha-se da “morte antes de morrer”. Isto resulta, em grande parte, da solidão em que os mais velhos são deixados;
  • O homem vive para o individualismo, para ter, para exibir e se exibir, para o egoísmo e não para a dimensão comunitária da existência;
  • O progresso desregulado tem grandes implicações na perda, subtil ou ostensiva, da nossa saúde mental;
  • A ditadura da juventude, da independência plena, como se alguém não fosse vulnerável e não precisasse dos outros, aquilo a que costumo chamar a “síndroma da autonomia”, exceto quando for para ser servido, cada vez imperam mais;
  • O envelhecimento da população e a solidão em que os mais velhos são deixados, em simultâneo com o aumento da esperança média de vida; o mundo em que só se conta pela utilidade que se tem ou pelas mordomias que se prestam e o desprezo pela sabedoria dos anciãos hostilizam a existência, a partir de certo tempo;
  • As ambições do ser humano, para além da mais legítima de todas, o amor, tornam-lhe a existência artificial porque o desregulam na sua ação. Costumo ordená-las, e creio que não me engano, em prestígio, poder e dinheiro;
  • O lugar em que o homem tem medo do próprio homem – outro obstáculo à solidariedade;
  • O imparável ruído ensurdecedor porque “ninguém pode tranquilizar-se”;
  • Este mundo ocidental que é uma quimera para os migrantes, atrás da qual frequentemente, perdem a vida;
  • O desprezo pelas imperfeições, que é como quem diz, pelas marcas da existência. Aliás, a velhice é já sinónimo de patologia, classificada internacionalmente;
  • Vive-se depressa demais em vazio de sentido. Exemplo disso são as/os influencers por banalidades sem senso, sem conteúdo e, frequentemente, até sem estética;
  • O que devia ser serviço, como, por exemplo, a política, é promoção pessoal e retribuição de favores à custa dos outros;
  • O homem tem-se desunido e distanciado, disfarçando-se de mais próximo. Não se envergonha com o racismo ou com o fomentar da pobreza dos que explora.

Com isto tudo e muito mais que não se disse, a realidade já superou a ficção. O “todo-poderoso sapiens” já não tem fantasmas. Parece que a culpa, o medo e a vergonha que, antes, o ensombravam, mas também o regulavam de certa forma, deixaram de ter significado.

Já esquecemos que não cuidar do mundo é também não cuidar de nós. Nunca se falou tanto de ambiente como agora e faz sentido. É, contudo, necessário que haja coerência e maturidade para não ceder a exageros com os quais nos defrontamos todos os dias nos caminhos das nossas cidades que, tantas vezes, parecem uma selva de agressões disfarçadas de boas práticas.

Nunca foi tão difícil ser livre como hoje. A ética, de que tanto se fala, parece estar em vias de diluição. As assimetrias mundiais são brutais. O homem ocidental não olha para o lado. É o verdadeiro homem desumano.

Estamos contaminados pelo perigo das modas que escravizam – só se é aceite se se fizer como os outros, se se for onde os outros vão, se se tiver o que os outros têm.

Os atuais desejos mais frequentes dos jovens de 20 anos são, sem querer dramatizar, incoerentes e ridículos – viajar e ter experiências incríveis; ganhar muito trabalhando pouco (dinheiro fácil); estudar no estrangeiro porque os outros/ricos também estudam; ser rico antes dos 30 anos, mas não perder “pitada”; sair e estar socialmente em todos os lugares sem pensar que no dia seguinte se tem de ir trabalhar ou ter aulas; ser influente nas redes sociais; concretizar todos os seus anseios rapidamente.[1]

Em suma, o ruído da exterioridade em que se vive é deveras ensurdecedor e contribui fortemente para alguns dos mais graves problemas de saúde mental que afetam a humanidade.

A depressão nos mais velhos sobe em flecha e a ansiedade sobe igualmente em todas as gerações.

Porque somos pessoas de pessoas não devíamos esquecer-nos que a solidão mata mais do que a doença.

A incapacidade de viver no presente com base na insaciável ambição (tudo está ao alcance) é responsável pelo descontrolado aumento das perturbações ansiosas e pelo medo de não estar em todas. A propósito disto exemplifico com a história de um jovem que, diria eu excecionalmente, tem uma ótima relação com o esforço, mas apenas consegue sentir-se seguro porque controla, pensa ele, e não porque confia. Perde o seu equilíbrio quotidiano, desregulando a própria biologia, que é como quem diz o sono, a alimentação, a atividade física, etc., para trabalhar em excesso e sem limites, projetando o seu futuro em metas mesmo difíceis de atingir.

A ilusão do “tudo é possível” contribui fortemente para o aumento da extensão das perturbações da personalidade. O remorso e a empatia começam a estar em vias de extinção e por isso entramos na apologia de qualquer coisa pode ser.

O flagelo resultante do mau uso das redes sociais e o que isto implica de permanente exposição, o fim da intimidade e da descrição, que leva à “doença das comparações” também deprime e separa famílias.

As incontroláveis consequências do cyber-bulliyng; os suicídios devidos a jogos online; o desregrado desenvolvimento das tecnologias que pode contribuir fortemente para o incremento de quadros psicóticos graves, tais como delírios persecutórios (com as escutas, as câmaras, etc.)… Enfim, a ficção e a realidade já não têm fronteiras bem definidas e, por isso, se confundem.

Não queria terminar esta reflexão em tom de desesperança, já que evidenciar o que está mal tem de ter como missão incentivar ao bem-fazer e à mudança. Assim, num próximo artigo, porque este já vai longo, falarei das urgências da Humanidade, numa lógica de mostrar como, no nosso dia-a-dia, todos podemos contribuir para o nosso bem-estar e, naturalmente, para melhorar a nossa saúde mental.

 

[1] Reflexão feita a partir de um texto de 2014 atribuído a Ricardo Archilha.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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