Último texto de Dimas de Almeida

Gratidão

| 18 Ago 21

Na sua última hospitalização, há três meses, Dimas de Almeida escreveu um texto onde fala da sua vida e do Grupo Ecuménico de Carcavelos, cuja experiência animou. Com autorização da família, o 7MARGENS divulga-o aqui, tendo em conta o facto de ser o último texto escrito pelo pastor presbiteriano, que morreu na passada quarta-feira, 11 de Agosto.

Nos últimos dias, temos publicado vários textos evocativos de António Dimas de Almeida, cujo percurso é um dos mais relevantes do protestantismo, do diálogo ecuménico e do cristianismo português das últimas décadas. Nesta quarta-feira, 18, publicaremos ainda um perfil biográfico construído a partir de memórias de várias pessoas.

Além deste que é o seu último documento, o 7MARGENS publicou, durante dez semanas, o comentário de Dimas de Almeida à tradução dos Evangelhos promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa bem como uma espécie de Credo pessoal, com o título “Uma oração possível num tempo impossível”.

 

Gratidão

Dimas de Almeida

Dimas de Almeida fotografado pelo filho Paulo.

  1. Quando alguém vive uma situação ferida pela mácula da vulnerabilidade há geralmente um círculo de generosidade e de amizade que se estreita. Sinal de que a generosidade não é uma palavra vã neste nosso mundo onde tantas vezes o oposto parece tomar a dianteira. Obviamente o movimento da memória emerge, um salutar movimento a contrariar a esclerose de um esquecimento que seria nefasto nas circunstâncias em que é preciso dar força à memória.

 

  1. Ora bem, para enquadrar a palavra desta minha gratidão que é neste caso a minha gratidão ao Grupo Ecuménico de Carcavelos, preciso de me referir às minhas origens. É uma gratidão devida a muita gente, mas que compreensivelmente tem como referente neste caso o Grupo Ecuménico de Carcavelos.

 

  1. De um famoso filósofo do século passado (parece-me que Heidegger) se diz que ele dizia que para evocar uma pessoa bastava o ano em que nasceu e o ano em que morreu. Eu confesso a minha ignorância a esse respeito. Como ninguém pode falar da sua morte, que estará para breve, entro só no que diz respeito ao nascimento pois o falecimento previsível para breve ainda não ocorreu, e da sua morte ninguém pode falar.

 

  1. E a inevitabilidade do narcisismo quando se trata de exprimir a gratidão parece-me ser inescapável. Pois falarmos da gratidão que devemos aos outros implica falarmos de nós próprios na medida em que nós fomos os destinatários da generosidade dos outros.

 

  1. Nasci em 1937 na vila do Montijo e lá vivi até aos 21 anos. Uma longa vida já, em que as outras e os outros me marcaram com inúmeros gestos que geraram em mim muita gratidão. À frente de todos, obviamente os meus pais. Quando se tem uns pais como eu tive, a gratidão brota genuinamente sem sabermos muito bem como a exprimir. Que genuínos pais aqueles! Uma genuinidade biológica e espiritual que assim julgo me tem marcado na minha vulnerabilidade e na minha força. E, quem sabe, até que ponto na minha alegria de viver. No meu lar, nunca se praticou uma qualquer devoção religiosa. Nunca se discutiu o problema da crença em Deus nem o problema da descrença. Nem o ateísmo nem o agnosticismo constituíram matéria dos nossos debates internos. Os meus pais numa vila do Montijo onde não havia ninguém que não fosse católico não casaram pela igreja católica. Nem a mim me baptizaram nas águas baptismais. Dificilmente podemos hoje imaginar o quanto uma tal atitude teve de insólita. Não esqueçamos o quanto naquele tempo as instituições eram cristãs, as escolas eram cristãs, as igrejas eram cristãs (católicas). Mas foi assim mesmo. As grandes inquietações espirituais começaram a tomar conta de mim a partir da minha adolescência. Chegado aqui a este ponto, o ponto da evocação paterna, impõe-se-me a afirmação que me enche de uma inquestionável gratidão-orgulho: a que tem que ver com a minha descendência. A Célia e o Paulo ocupam essa gratidão-orgulho juntamente com a Maria, a Francisca e o Martim. Com todos eles, tenho vivido uma gratidão jubilosa.

 

  1. Pois bem, chego aqui a um ponto em que manifestar gratidão supõe começarmos a falar de nós mesmos (e eu não tenho feito se não outra coisa mas não vejo como fugir a um tal decreto). Por outras palavras, falar na gratidão que nos invade implica falarmos de nós mesmos porque o elemento narcísico está lá. Como é que nós podemos fugir ao narcisismo quando sentimos a necessidade de manifestar gratidão. Pois, uma auto-referência surge como inevitável em relação a nós próprios.

 

  1. Pelos meus quinze ou dezasseis anos, comecei a sentir curiosidades intelectuais e espirituais que me levaram a debruçar-me sobre os mais variados textos. Não era apenas o enigma de Deus que me preocupava, eram também questões culturais que tinham que ver com a maneira como foi construído o nosso Ocidente. E a esse respeito como eu (paradoxalmente!) invejava secretamente o venerável Padre Pólvora (António Gomes Pólvora), da Paróquia do Montijo. É que ele era tido como notável latinista e, segundo se dizia, não apenas do latim da missa. Um dia enchi-me de curiosidade e fui assistir a uma missa. Do princípio ao fim nada compreendi e saí de lá marcado com uma deplorável vacuidade. Meses depois, chegaram-me aos ouvidos os estudos bíblicos que se faziam numa pequena comunidade protestante (herdeira da Reforma do século XVI) onde o estudo da Bíblia, feito num registo de liberdade, me proporcionou alargar horizontes que muito me enriqueceram.

 

  1. Um novo mundo começava a abrir-se à minha frente na medida em que eu, para começar a viver a minha fé, não tinha de a sacrificar no altar da razão. Isto é, começava a descobrir uma fé (só mais tarde melhor compreendida) que é idêntica à fé católica ela mesma, quando verdadeiramente católica, uma fé universal e libertadora e isso foi extremamente importante para mim, pois comecei a compreender que se tratava de uma fé que, ao afirmar-se protestante, era irmã gémea da fé chamada a fé católica. O Deus era o mesmo, não obstante o conceito de Igreja não ser coincidente.

 

Dimas de Almeida

António Dimas de Almeida e a esposa, Suzete, fotografados pelo filho Pulo.

 

  1. Fui baptizado aos dezassete anos e vivi anos felizes nessa comunidade protestante onde nos interessávamos pelas mais diversas preocupações não só espirituais mas também intelectuais. A essa comunidade do Montijo fiquei a dever muito. Mesmo muito!

 

  1. No meu ser e sentir emergiu a necessidade de me preparar para cumprir uma tarefa que sentia premente: a tarefa de melhor compreender as origens cristãs e de melhor querer para esse fim. Como dizia um antigo padre da Igreja da tradição latina, credo ut inter ligere. Desse modo estava diante de mim o que viria a ser o meu ministério pastoral.

 

  1. A sedução espiritual que me levou a sentir por Jesus levou-me a enveredar humanisticamente e teologicamente por uma formação académica preparatória do meu ministério de pastor. E passaram-se dezenas de anos de um ministério pastoral onde estive como pastor em variadas paróquias, em Algés, em Campo de Ourique (Lisboa), em São Miguel (Açores), de novo em Campo de Ourique (Lisboa), e de novo em Algés. Foram anos que me ajudaram a compreender a dimensão ecuménica da Igreja: por outras palavras, a catolicidade da Igreja.

 

  1. Num determinado dia do mês de Maio de 1991, um grupo de três mulheres abordaram-me para me pedir ajuda. Cada uma dessas mulheres pertencia a uma confessionalidade religiosa diferente: uma delas católica; uma outra hindu; a outra protestante. Havia já alguns meses que elas se reuniam para ler o Evangelho em conjunto e para rezarem em conjunto. Segundo me disseram, não eram poucas as vezes em que sentiam necessidade de algum esclarecimento relativo à leitura que faziam e tendo sabido que eu era um biblista vinham solicitar o meu apoio para as ajudar na leitura. Procurei ir ao encontro desse seu desejo e foi assim que o posteriormente conhecido Grupo Ecuménico de Carcavelos se expandiu, dilatou confessionalmente e integrou não apenas pessoas com pertença religiosa mas também algumas pessoas agnósticas e ateias. Este grupo fez trinta anos agora neste mês de 2021. E uma coisa eu confesso desde já: foi ele que, enquanto grupo, verdadeiramente me enriqueceu a mim.

 

  1. No que consistia a actividade do grupo? Numa reunião: rigorosamente todas as semanas às quartas-feiras nos reuníamos, éramos uns trinta, e o objectivo não era nem atacar doutrinas nem defender doutrinas mas lermos e interpretarmos (num desejo grande de compreensão) os textos em análise. O cânone era amplo: aquele que compõe a literatura bíblica. Que deslumbramento não era o nosso ao sermos invadidas e invadidos pela riqueza daquela literatura. Como eu agradeço a todas e a todos aqueles que no acto da leitura tanto me ajudaram com a sua interpretação, por vezes diferente da minha. Sim. Era um deslumbramento e foi por termos vivido essas experiências variadas que me compele a pronunciar aqui a palavra gratidão a todas e a todos. Que eu aqui o diga: sem o Grupo Ecuménico de Carcavelos quanto não teria eu perdido!

 

  1. A minha gratidão agora é a daquele que sente e vive a convicção de que o Grupo Ecuménico de Carcavelos tem a vocação da continuidade e por isso eu gostaria de sublinhar aqui uma coisa extremamente significativa. Ao contrário de outros movimentos e espiritualidades, o Grupo Ecuménico de Carcavelos não teve um fundador ou uma fundadora nem nunca teve nenhum chefe. Por outras palavras, o Grupo Ecuménico de Carcavelos fundou-se a si próprio. Note-se isto porque isto é fundamentalmente importante. O Grupo Ecuménico de Carcavelos fundou-se a ele próprio. Esse é um dos motivos que me levou a não citar o nome de ninguém. Não há aqui nem um pai fundador nem uma mãe fundadora e portanto o Grupo Ecuménico de Carcavelos é para se rever democraticamente e isso é fundamentalmente o que conta. Com o passar dos três decénios, assim julgo, foi-se sentindo a força de Jesus de Nazaré. Se me é permitido terminar desta maneira é isto que eu gostaria de sublinhar. Este grupo de Carcavelos viu-se definindo cada vez mais como um grupo de Jesus. A sua figura veio-se impondo e impondo cada vez mais. De acordo com os analistas internacionais (leia-se a França estrangeira) numa altura em que as igrejas católicas e protestantes recuam na sua influência, Ele, Jesus de Nazaré, continua a apaixonar muita gente fora das igrejas (quer mesmo em filmes quer em romances). Que o Grupo Ecuménico de Carcavelos se deixe impregnar por Ele. O Grupo Ecuménico de Carcavelos transporta consigo uma única referência: a referência a Jesus de Nazaré. É Ele que com a sua permanente pergunta “quem dizeis vós que eu sou?” nos cria e recria como cristãos. Como Igreja. Durante os trinta anos em que fui um deles ou uma delas nunca entendi que a minha tarefa fosse além da de um servo de Jesus apaixonado pela sua palavra que sempre procurei partilhar com os outros. Com a grave patologia que me atingiu estou incapacitado de o continuar a fazer. Cabe agora a este grupo cuja riqueza é enorme decidir o seu próprio caminho. Eu nada sei a esse respeito. Volto a dizer o que já disse no princípio: este grupo não foi fundado por ninguém, saiu de ele mesmo e impõe-se-lhe continuar a ser assim mesmo. Um grupo que nasce de si mesmo na nova circunstância em que se encontra. Todos nós sabemos que a figura de uma pessoa (de duas ou de três) pode ter a sua importância institucional. Mas isso é ao grupo que cabe fazer a opção.

 

Hospital do Mar, de 16 a 20 de Maio de 2021.

Dimas de Almeida contou com a colaboração de Paulo Dimas de Almeida na elaboração do texto.

 

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