Greta não está sozinha em Casa

| 26 Set 19

Greta Thunberg no seu discurso perante a Cimeira do Clima na ONU, numa foto captada da imagem vídeo.

 

Onde os vemos? Nas primaveras, em contestação nas ruas, nos novos movimentos desinstitucionalizados de protesto – anticapitalista, antiglobalização, anticorrupção, antiviolência, anti… –, nas greves estudantis, nas lutas contra a discriminação e as desigualdades, na vivência ou procura de uma liberdade que quebra velhos (pre)conceitos, a dar voz à emergência climática, nas opções alimentares, na generosidade do voluntariado…

Paternalista, a geração estabelecida continua a relativizar a geração que desperta, perdeu a iniciativa mas não aceita que quem lhe sucede grite e desponte na reconstrução de valores e causas.

É um hábito comparar a experiência de uma juventude passada à juventude presente, mas neste exercício prevalece uma cegueira de soberba. “Eles sabem lá, no meu tempo nem havia telemóveis.” Não pode retirar-se a circunstância dessa comparação. Entre os “veteranos” e os “Z”, a sociologia ensaia novas teorias geracionais e parte de uma verificação: com a tecnologia, adaptada à educação ou revolucionária dos modelos relacionais, nunca a humanidade teve tanto mundo e tanto acesso.

Greta Thunberg não está sozinha e, como tantos outros miúdos que querem mudar o mundo – Malala Yousafzai, Emma González, Luisa Neubauer, Jack Andraka, Amila George, Genesis Butler… incomparáveis no contexto e na cultura, semelhantes na vontade –, denuncia o paradoxo: conhecemos mais, sabemos como fazer, mas manifestamos uma chocante ineficácia política para resolver ou, pelo menos, tentar. Este ativismo juvenil cresce e cria, temos de o admitir, dinâmicas de organização que deixam a generosidade e a ingenuidade mais susceptíveis. Mas quem se fixa apenas nesta consequência perde o foco.

Numa mensagem à Cimeira do Clima, onde a raiva da jovem ativista sueca, com síndrome de Asperger, contrastou com a indiferença dos destinatários, Francisco voltou a pressionar a ferida. O Papa que deu ao mundo a encíclica Laudato Si – documento que será referência, quando, já tarde, se relerem sinais e reflexões que a governança desvalorizou – é já um pivô na defesa da Casa Comum. Num vídeo de cinco minutos, sintonizou-se pragmaticamente com o inevitável: “O futuro é deles [gerações futuras], não é nosso!”

A (im)paciência das novas gerações ativistas é proporcional à natural capacidade de sonhar, de atalhar caminhos e não aceitar fracassadas formas de ser e de estar. Alguns não conhecem o passado de lutas e conquistas dos direitos universais, mas todos vivem intensamente o hoje, com as contingências e perplexidades do presente. Sentem-se vítimas de modelos de desenvolvimento assentes na exploração dos recursos naturais, que exaltam o supérfluo e a ganância consumista.

Aos 82 anos, Bergoglio mantém o otimismo – “a janela de oportunidade está ainda aberta, ainda vamos a tempo” –, mas partilha a irreverência das novas gerações ativistas. Também ele revela impaciência quando questiona “se há uma verdadeira vontade política para destinar maiores recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos da mudança climática e ajudar as populações mais pobres e vulneráveis”.

Não é desejável uma fratura geracional, nem se avista esse risco, mas é perigoso e injusto menosprezar a adesão das novas gerações à causa planetária, remetendo o fenómeno para o mero painel da caricatura mediática. Na era das redes fluídas, há muitas e perigosas seduções, disfarçadas de caminho alternativo…

Sim, sinto o murro no estômago dado por Greta. Sim, acredito na geração que protesta. Sim, compreendo as suas frustrações. Sim, têm razão para denunciar e agir. Atrevam-se. Como diz o Papa, há uma “multiplicidade de soluções que estão ao alcance de todos, se adoptarmos a nível pessoal e social um estilo de vida que encarne a honestidade, a valentia e responsabilidade.”

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