“Greve” das católicas na Alemanha com lenços brancos nos bancos das igrejas

| 13 Mai 2019

“Greve” das católicas na Alemanha com lenços brancos nos bancos das igrejas

| 13 Mai 19

Ícone da campanha Maria 2.0; ilustração de Lisa Kötter.

(Foto de abertura: Votação em assembleia da KFD, Assembleia Nacional de Mulheres Católicas da Alemanha; foto © kfd/Kay Herschelmann)

 

“Nós, as mulheres, queremos uma verdadeira renovação da nossa Igreja. Queremos participar na sua vida e nas suas decisões. Queremos que todos possam seguir a sua vocação, como irmãs e irmãos, com os olhos postos em Jesus Cristo, que nos deixou o encargo de tornar visível no mundo o amor de Deus” – assim se apresentam em manifesto as mulheres que lançaram a iniciativa Maria 2.0  e o apelo à “greve” das mulheres na Igreja Católica, convocada para esta semana, entre sábado passado, dia 11, e o próximo, dia 18 de Maio.

O apelo à “greve” fez com que no último fim-de-semana muitos lugares nas Igrejas ficassem vazios. Em muitas delas, havia lenços brancos nos bancos a assinalar ausências. No exterior das Igreja, nas praças e nos adros, houve celebração, partilha, canto, mulheres vestidas de branco, lenços brancos em cadeia…

Embora seja difícil avançar com números ou estimativas, parece que a iniciativa acertou em cheio com o sentimento actual de muitas mulheres católicas. Em declarações ao 7MARGENS, Lisa Kötter, umas das iniciadoras e porta-voz da iniciativa, calculava em mais de mil os grupos que em toda a Alemanha participaram, além de outros que aderiram à iniciativa também na América Latina ou em Nova Iorque. Só em Münster, a cidade onde tudo começou, eram cerca de mil mulheres na praça da catedral. De muitas outras cidades chegam notícias de grupos activos, com uma adesão considerável.

Porquê uma “greve”? Lisa Kötter reconhece que a palavra greve não será a melhor. Não se trata de não comparecer, antes pelo contrário. As mulheres querem participar e, como gesto, vêm e ficam de fora, nos adros, nas praças, para denunciar aquilo que está a acontecer na Igreja. “Sentimo-nos magoadas pelo facto de, na Igreja, serem os homens a dizer-nos aquilo para que Deus nos chama”, acrescenta Lisa Kötter. “A Igreja está a perder tanto, em espiritualidade, em vitalidade, em força, por deixar de lado mais de metade dos seus fiéis, as mulheres”, acrescenta.

O porta-voz da Conferência Episcopal Alemã, Mathias Kopp, em declarações a uma cadeia de TV, em Roma, dizia que os bispos alemães levam a sério esta iniciativa e vêem a necessidade de mudanças, mas consideram que a Igreja tem de reformar-se passo a passo, no diálogo. Alguns bispos lamentam que o apelo à greve inclua mesmo a ausência da missa dominical, mas afirmam compreender a necessidade de provocar com sinais deste tipo.

Reagindo à pressão dos leigos, e sobretudo das mulheres, e numa tentativa de ultrapassar a crise provocada pelos abusos de poder na Igreja, os bispos alemães anunciaram abrir um sínodo de diálogo com alargada participação de todos e todas, sem temas-tabu. A abertura dos ministérios ordenados às mulheres é o ponto mais crítico deste diálogo, conhecidas que são as reservas do Papa ao tema. Muitas mulheres temem que não se passe das palavras bonitas.

Esta “greve” de uma semana, independetemente da adesão que venha a conseguir, é sem dúvida uma “irritação”, mas uma “irritação necessária, mais que necessária”, comenta um dos grandes jornais alemães, o Süddeutsche Zeitung, referindo-se a esta “greve” das mulheres.

Maria 2.0  conta com a adesão das mulheres comuns que, semana a semana, enchem as igrejas e animam as comunidades. Na liturgia, na catequese, na Cáritas, nos serviços de acolhimento, as paróquias contam com elas. E elas sentem que a Igreja continua a ignorá-las e exigem mais. Exigem a abertura dos ministérios às mulheres, começando pelo diaconato; exigem a partilha dos lugares de decisão, a todos os níveis e em todas as instâncias.

A ideia desta iniciativa surgiu em princípios deste ano, como reacção às últimas notícias sobre todo o escândalo dos abusos de poder na Igreja Católica. Escreveram uma carta ao Papa, que ainda pode ser assinada como petição. E avançam agora com gestos concretos de denúncia de uma situação que muitas consideram insuportável. “A nossa paciência está a chegar ao fim”, resumia Claudia Lücking-Michel, vice-presidente do Comité Central dos Católicos alemães. E com esta posição haverá muitas mulheres católicas a identificar-se. “Os bispos pensam que esta é mais uma bola de sabão, mas enganam-se. Vamos continuar, porque o desejo profundo de renovação e mudança na Igreja é muito, muito grande!”, assegura Lisa Kötter.

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