“o país decidiu trabalhar”[1],
disse o ministro,
não foi em devaneios.
não se enganou no século.
preferiu cem euros, sem recibo,
lá para o fim da década,
a preservar o direito de os exigir,
com recibo e tudo,
e, já agora, reforma
e assistência médica.
o ministro sorriu:
que orgulho governar um povo assim,
tão flexível, tão dado, tão ordeiro.
compramos-lhe uns finos, e touradas,
mesmo sem touros, não faltam ciganos, animais
de vária espécie a dormir nas ruas.
sabe-se bem o mal que nos fazem.
corre-se, pois, com eles, convoca-se a polícia,
um tirito certeiro, à queima-roupa,
chama audiências.
por fim, ajeita-se o cenário:
uma navalha no lajedo, ou 100 gramas de haxixe:
a artimanha sossega as consciências,
reorienta percepções,
atiça as massas.
“o país decidiu trabalhar”,
repetiu o ministro, embevecido.
quem o diria?
tudo a funcionar:
as escolas fecharam, os transportes
não andam, as cidades vazias
como num domingo de inverno.
e, no entanto, greve nem vê-la,
que disparate!
solícita, a criatura explicou:
que, por coincidência apenas,
foi esse o dia em que o país
recolheu a casa de coração quente.
teve uma tarde bem passada,
longe da chuva.
não recebeu jorna, é certo,
mas também não descontou impostos
para acudir a pretos, maricas e indigentes.
esteve quietinho, agradecido,
embalado por tão feliz governo
e leis assim, não cruéis, mas exigentes,
que, se prometem uma vida mais difícil,
insuportável até, dizem alguns,
nostalgicamente invocam um país que houve,
sem sindicatos, colectivos e engulhos,
cada um sozinho face ao mundo, ó força anímica
deste povo modesto, mas honrado:
chapéu na mão para mendigar aumentos,
colecta no jornal para um transplante em londres,
assim era, na verdade, e estava-se melhor.
trabalhadores para quê? pensa o ministro,
‘colaboradores’ é a palavra,
quem colabora não exige,
ou ‘empreendedores’, há fundos disponíveis,
excitam-se os mercados.
em todo o caso, precários,
precários,
precários sempre,
precários até ao fim,
que tal desígnio enrijece a alma
e amesquinha-a.
o ministro, não o parecendo,
leu os clássicos e sabe do que fala:
não há poesia maior que a indigência.
Luís Soares Barbosa é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis.
Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.
Nota
[1] António Leitão Amaro, comentando a greve geral de 11 de Dezembro de 2025, erguida massivamente contra a revisão das leis laborais. Cinco meses mais tarde, dia 3 de Junho, lá estaremos de novo.










