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Francisco no acolhimento da JMJ

“Gritem comigo: Na Igreja há lugar para todos! E nunca se cansem de fazer perguntas!”

| 03/08/2023

Papa Francisco, JMJ

A encenação do Ensemble 23 no espetáculo da cerimónia de acolhimento da Jornada Mundial da Juventude com o Papa Francisco. Foto © André Kosters/JMJ-2023-Lusa-Pool

 

“Na Igreja, ninguém é supérfluo. Ninguém é supérfluo. Há lugar para todos. Tal como nós somos. Todos nós.” Voz enérgica, entusiasmada, vibrante, o Papa Francisco pôs talvez cerca de meio milhão de pessoas a afirmar que na Igreja cabem “jovens e velhos, sãos e doentes, justos e pecadores, todos, todos, todos! Na Igreja, há lugar para todos.”

O discurso do Papa marcou de forma intensa a cerimónia de acolhimento da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023. A multidão encheu, na tarde desta quinta-feira, 3 de Agosto, o Parque Eduardo VII, a Praça Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade e Rua Joaquim António de Aguiar, respondendo com a mesma vibração aos apelos do Papa.

“‘Padre, mas eu sou um desgraçado… Eu sou um desgraçado, há lugar para mim?…’ Há lugar para todos!”, acrescentou o Papa, num discurso em que respondeu ao “barulho agradável” que os jovens faziam e cuja alegria era contagiante, como também disse.

“Amigos, gostaria de ser claro convosco, que são alérgicos à falsidade e às palavras vazias: na Igreja, há lugar para todos. Para todos”, afirmou Francisco. “E Jesus torna-o claro”, acrescentou, desafiando o os jovens a repetir, cada um na sua língua: “Todos, todos, todos, todos eles, todos eles, todos, todos.”

O colorido universal que tomou conta do centro de Lisboa e inundava Lisboa até ao Tejo, azul ao fundo, dava sentido visual à insistência do Papa no seu discurso. Bandeiras do mundo inteiro foram levadas para o centro do relvado do Parque Eduardo VII, simbolizando a universalidade e a diversidade.

Onde ninguém é excluído, como repetia ainda o Papa. “Esta é a Igreja, a Mãe de todos”, disse ainda Francisco. “Há lugar para todos. O Senhor não aponta com o dedo, mas abre os braços. É curioso: o Senhor não sabe como fazer isto [aponta com o dedo], mas faz isto [faz o gesto de abraçar]. Abraça-nos a todos. Mostra-nos Jesus na cruz, que abriu tanto os braços para ser crucificado e morrer por nós.”

A Igreja, diria mais à frente, é “a comunidade dos que são chamados”. “Não somos a comunidade dos melhores – não, somos todos pecadores, mas somos chamados tal como somos.”

Interrompido várias vezes com aplausos que respondiam à sua voz vigorosa, o Papa Francisco dirigiu-se ainda aos jovens como se falasse com cada um em concreto: “Também tu, esta tarde, me fizeste perguntas, muitas perguntas. Nunca te canses de perguntar. Não te canses de fazer perguntas.” E explicou: “Fazer perguntas é bom; de facto, muitas vezes é melhor do que dar respostas, porque quem faz perguntas fica ‘inquieto’ e a inquietação é o melhor remédio para a rotina, por vezes uma espécie de normalidade que anestesia a alma.”

 

“É bonito estarmos juntos em Lisboa”

Cerimonia de acolhimento ao Papa Francisco. Foto ©️Jesus Huerta/JMJ Lisboa 2023

O Papa Francisco passando entre a multidão que encheu o Parque Eduardo VII e o centro de Lisboa, antes da cerimónia de acolhimento. Foto ©️Jesus Huerta/JMJ Lisboa 2023

 

“É bonito estarmos juntos em Lisboa”, começou por dizer o Papa, pedindo a todos que agradecessem aos “que trabalharam para tornar possível este encontro”. Antes do seu discurso, aliás, os peregrinos da JMJ puderam ver várias manifestações artísticas, quase todas nacionais: o coro e orquestra, o Ensemble 23 (composto por 50 jovens de 22 países); o músico evangélico Héber Marques, que compôs a música Um Dia de Sol, que acompanhou o desfile inicial de bandeiras; Mariza (que cantou o fado “Foi Deus”, popularizado por Amália Rodrigues), o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento (Serpa), que cantou “Nossa Senhora do Carmo” enquanto a cruz e o ícone de Nossa Senhora, símbolos da JMJ, eram transportados em direcção ao altar; e ainda Tiago Bettencourt com grupos de bombos do Fundão, cuja música acompanhou a colocação dos símbolos no palco.

Ao mesmo tempo, a coreografia encenada por Matilde Trocado acompanhava com ritmo e cor os diferentes momentos, com o Papa Francisco a insistir ainda na ideia de que cada pessoa foi chamada pelo nome: “Fostes chamados pelo nome: tu, tu, tu, tu, tu, tu, aqui, todos nós, eu, todos nós fomos chamados pelo nome. Não fomos chamados automaticamente, fomos chamados pelo nome. (…) Fomos chamados porquê? Porque somos amados. Fomos chamados porque somos amados. É lindo. Aos olhos de Deus, somos filhos preciosos, que Ele chama todos os dias para abraçar, para encorajar, para fazer de cada um de nós uma obra-prima única e original. Cada um de nós é único e original e a beleza de tudo isso não podemos vislumbrar.”

“Somos amados tal como somos”, afirmou o Papa. “Não como gostaríamos de ser, mas como somos agora. Este é o ponto de partida da JMJ, mas sobretudo o ponto de partida da vida. Rapazes e raparigas, somos amados tal como somos, sem maquilhagem. Compreendem isto? E somos chamados pelo nome de cada um de nós.”

A chamada pelo nome foi posta em contraste com o nome conhecido que “aparece nas redes sociais, é elaborado por algoritmos que o associam a gritos e preferências”. Mas tudo isso “não põe em causa a sua singularidade, mas sim a sua utilidade para os estudos de mercado”, referiu. “Quantos lobos se escondem atrás de sorrisos de falsa bondade, dizendo que sabem quem és, mas que não te amam; insinuam que acreditam em ti e prometem que te tornarás alguém, para depois te deixarem em paz quando já não estiverem interessados em ti.”

Essas são as ilusões do virtual, disse ainda o Papa. “Temos de ter cuidado para não nos deixarmos enganar, porque muitas realidades que nos atraem hoje e prometem felicidade mais tarde acabam por ser o que são: coisas vãs, bolas de sabão, coisas supérfluas, coisas que não servem para nada e que nos deixam vazios por dentro”. Por contraste, disse: “Jesus não é assim, não é assim; ele confia em vós, confia em cada um de vós, em cada um de nós, porque para Jesus cada um de nós é importante para ele, cada um de vós é importante para ele. E isso é Jesus.”

No final, a multidão ainda demorou a dispersar, mas a festa continuou em múltiplos lugares de Lisboa e noutras localidades, com concertos, música e iniciativas diferentes. A festa continuará, em registos diferentes nesta sexta-feira: de manhã, o Papa estará alguns momentos a confessar alguns jovens no Parque do perdão, em Belém, após o que se dirige ao Bairro da Serafina, para um encontro com responsáveis de instituições de solidariedade. Depois disso, encontra-se com líderes de outras confissões religiosas, como o 7MARGENS noticiou há dias em primeira mão, num acrescento ao programa. Ao fim da tarde, de novo no Parque Eduardo VII; fará a Via-Sacra com os jovens.

 

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