Grito da sociedade civil face à pandemia no Brasil: “É hora de estancar a escalada da morte”

| 15 Mar 21

jair bolsonaro igreja covid-19

Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil, é acusado numa carta aberta de seguir uma “política genocida”. Foto: Direitos reservados. 

 

“Não há tempo a perder, negacionismo mata. É hora de estancar a escalada da morte!” – é o grito lançado por seis organizações da sociedade civil brasileira, perante uma situação da pandemia que tem estado fora de controlo. Ao mesmo tempo, um outro leque de cidadãos de setores científicos, culturais, religiosos e políticos do Brasil apelaram às Nações Unidas e ao Tribunal Penal Internacional para que condenem a “política genocida” do Presidente da República do país.

A tomada de posição das seis entidades da sociedade civil, intitulada “O povo não pode pagar com a própria vida!” é assumida pelo Pacto pela Vida e pelo Brasil, que surgiu nos inícios da pandemia, em abril passado, e tem como signatários, na pessoa dos respetivos presidentes, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), a Comissão [D. Paulo Evaristo] Arns, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Nesta segunda-feira, 15, o documento será entregue, em ato público, ao Fórum Nacional de Governadores estaduais, na pessoa do seu coordenador. Os seus signatários começam por manifestar solidariedade às famílias dos quase 280 mil mortos e de agradecer a entrega dos profissionais de saúde que se encontram “à beira da exaustão”, para irem ao objetivo central da sua iniciativa, nestes termos:

“É hora de estancar a escalada da morte! A população brasileira necessita de vacina agora. O vírus não será dissipado com obscurantismos, discursos raivosos ou frases ofensivas. Basta de insensatez e irresponsabilidade. Além de vacina já e para todos, o Brasil precisa urgentemente que o Ministério da Saúde cumpra o seu papel, sendo indutor eficaz das políticas de saúde em nível nacional, garantindo acesso rápido aos medicamentos e testes validados pela ciência, a rastreabilidade permanente do vírus e um mínimo de serenidade ao povo.”

Os protagonistas deste Pacto afirmam ser “notória” “a ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia” que vive o Brasil, manifestando, assim, compreensão e apoio aos esforços que vêm sendo desenvolvidos por governadores e prefeitos que “não podem assumir o papel de cúmplices no desprezo pela vida”. Pede-lhes, entretanto, que “ajam com olhos não só voltados para os seus estados e municípios, mas para o país, através de um grande pacto”. “Somos um só Brasil”, acrescentam.

Os signatários instam o Congresso Nacional, a que dê máxima prioridade a matérias relacionadas ao enfrentamento da covid-19, por não haver nada de mais urgente, através de um auxílio de emergência “digno, e pelo tempo que for necessário”. Ao Supremo Tribunal Federal e ao poder judiciário, pedem que “zele(m) pelos direitos da cidadania e pela harmonia entre os entes federativos”; e à imprensa que “atue livre e vigorosamente, de forma ética, cumprindo sua missão de transmitir informações confiáveis e com base científica, sobre o que se passa”. Fazem, por fim um apelo à juventude para que “assuma o seu protagonismo histórico na defesa da vida e do país, desconstruindo o negacionismo que agencia a morte”, dado que “o vírus está infetando e matando os mais jovens e saudáveis, valendo-se deles como vetores de transmissão”.

 

Queixa ao TPI contra a “política genocida” de Bolsonaro

julio lancellotti

Padre Júlio Lancellotti, um dos subscritores da carta aberta que cita Hannah Arendt: “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança.” Foto reproduzida da página Instagram padrejulio.lancellotti.

 

“Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança” (Hannah Arendt). É com esta epígrafe que centenas de brasileiras e brasileiros decidem iniciar a sua “Carta Aberta à Humanidade”, por se sentirem “reféns do genocida Jair Bolsonaro, que ocupa a presidência do Brasil”.

Os subscritores afirmam que Bolsonaro, rodeado de “um gangue de fanáticos movidos pela irracionalidade fascista”, “deixou de ser apenas uma ameaça para o Brasil para se tornar uma ameaça global”. Entre os signatários do documento, estão nomes como o músico Chico Buarque, os teólogos Leonardo Boff e Frei Betto, o bispo Mauro Morelli, o padre Júlio Lancelotti – que já foi ameaçado de morte e a quem o Papa telefonou há meses – a atriz Fernanda Montenegro ou a ex-Presidente Dilma Roussef.

“O Brasil hoje sofre com o intencional colapso do sistema de saúde. O descaso com a vacinação e com as medidas básicas de prevenção, o estímulo à aglomeração e à quebra do confinamento, aliados à total ausência de uma política sanitária, criam o ambiente ideal para novas mutações do vírus e colocam em risco os países vizinhos e toda a humanidade. Assistimos horrorizados ao extermínio sistemático de nossa população, sobretudo dos pobres, quilombolas e indígenas”, sublinha-se no texto do Manifesto.

Por estas razões, os subscritores apelam ao Supremo Tribunal Federal, à Ordem dos Advogados do Brasil, ao Congresso Nacional e à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, bem como, no plano externo, à ONU e ao Tribunal Penal Internacional que condenem a “política genocida desse governo que ameaça a civilização”.

O documento, que se encontra disponível em seis idiomas, continua aberto a assinaturas, tendo os autores da Carta Aberta sido obrigados a abrir vários endereços de subscrição, para descongestionar a procura. Explicando e comentando esta singular iniciativa, escreveu Leonardo Boff no seu blog:

“Este texto, elaborado por várias mãos e cabeças, é fruto do desamparo. A pandemia está matando nosso povo. Não sabemos a quem recorrer, pois aqueles que poderiam fazer algo não o fazem, por misteriosos desígnios que suspeitamos quais sejam. A dizimação do nosso povo equivale a 6 guerras do Paraguai, na qual morreram 50 mil soldados brasileiros. Não podemos assistir sem indignação e sem fazer nada face a essa guerra interna, cujo inimigo está dentro de nosso país e ocupando o mais alto cargo da nação. Mas existe a humanidade que ainda tem ‘humanidade’ em nome da qual recorremos.”

Entretanto, foi anunciada a adesão ao documento por parte de centrais sindicais, como Central Única dos Trabalhadores, Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, Nova Central Sindical dos Trabalhadores, Central dos Sindicatos Brasileiros, Central Geral dos Trabalhadores do Brasil, e Central do Servidor e CSP-Conlutas.

(A política do Governo merece mesmo críticas em forma de música. Monarco da Portela, uma das velhas estrelas do Carnaval do Rio de Janeiro, compôs mesmo um samba de elogio à vacina, que pode ser escutado no vídeo a seguir:)

 

 

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