Um ensaio

Guerra e Paz: angústias e compromissos

| 16 Jun 2024

na ucrania, uma criança observa os edifícios destruídos pela guerra, Foto © UNICEF/Diego Ibarra Sánchez

Na Ucrânia, em 2022, uma criança observa os edifícios destruídos pela guerra. Foto © UNICEF/Diego Ibarra Sánchez.

No meio de uma entrevista muito interessante ao Público em 30 de maio de 2024, a ex-deputada Margarida Marques diz às tantas: “é necessário continuar a apoiar a Ucrânia e passar a um processo de paz — tem de se começar a falar em paz.

Então, vamos lá a isso. 

Este é um escrito de um cristão angustiado e desorientado, e também com medo, porque acredita que uma guerra devastadora na Europa, a partir da agressão em curso da Rússia imperialista à Ucrânia, é de alta probabilidade. Quando se chega a este ponto, é porque a esperança é já pequena. Ainda assim, manda a consciência tentar fazer o possível por evitar a guerra e dar uma oportunidade à paz. 

Mas como?

1. Guerra e paz 

Sou um convicto pacifista por dentro e, por fora, um angustiado possibilista (uma estranha palavra tomada de empréstimo a alguém que a usou no sentido de ser pela melhor hipótese possível). Esta descoincidência é-me muito penosa, e não sei como me livrar dela porque não quero, nem sei, optar por um dos termos.

A guerra é a mais horrível, definitiva e irrecuperável das tragédias; está sempre à nossa espreita porque, ao contrário do que é hábito dizer-se, ela não é uma desumanidade; é, antes, profundamente humana, no triste sentido que é caracterial e inerente ao homo sapiens. A paz é o bem mais precioso de entre todos, ainda que só o notemos quando perto de nós se pratica ou anuncia a guerra. Tal como a guerra é sempre inerentemente má, a paz é sempre boa, e uma condição necessária para a felicidade e a justiça.

Hoje discute-se de novo a natureza da guerra face às duas mais graves em curso – Médio Oriente e Ucrânia. A segunda, em que é evidente a existência de um agressor dentro de um quadro de ilegitimidade formal, ressuscita o debate sobre a guerra justa e injusta, de agressão e de legítima defesa. Por isso, simetricamente, discute-se também a paz: se a dos cemitérios assente na injustiça da derrota ucraniana, a possibilista da realpolitik, ou a paz verdadeira fundada na justiça e fraternidade que parece cada vez mais utópica. 

Julgo perceber que o Papa Francisco está a abandonar a ideia da guerra justa (tão usada no tempo das guerras coloniais) centrando-se antes na oposição a todas as guerras: a guerra “é um ultraje a Deus”. Isso parece-me tão bem no plano dos princípios quanto complicado de praticar no plano da realidade. Daí a minha grande angústia sobre a dualidade pacifista-possibilista.

Precisamos de ir às origens cristãs: Jesus, mesmo quando belicoso – como com os vendilhões do templo, por exemplo – não disse “dou-vos a minha guerra”, mas “dou-vos a minha paz”, e noutra passagem propõe-nos dar a outra face. Mas como poderia funcionar essa mansidão no plano da grande política geo-estratégica?

O meu eu cristão quer ardentemente (ess)a paz desarmada e profunda, mas debate-se com a grande dificuldade de saber como se luta – paradoxalmente uma palavra guerreira – por ela. Podemos rezar, evidentemente!; mas uma fé adulta saberá que Deus é mistério e não age por critérios terrenos, não evita catástrofes como inundações ou sismos, e menos ainda aceita procurações para evitar guerras, qual Deus de interesses substituindo a liberdade dos homens.

(Perante isto, é inevitável perguntar “onde estás, Senhor?” ou regressar à tese de que há uma teologia de antes e de depois do Holocausto, levantando pelo meio a terrível questão sobre onde estava Deus no meio de um inominável sofrimento.) 

Talvez possamos, não em alternativa, mas em paralelo à oração, organizar movimentos de reflexão nas paróquias e em grupos. Sendo indispensáveis, todavia eles serão demasiado pequenos e impotentes perante os jogos da grande política internacional. 

O meu eu social quer a paz, mas não encontra resposta suficiente no diálogo interno com meu eu cristão. Ele sabe que é fácil enunciar e aderir ao princípio abstracto da paz, mas experimenta dificuldades em aplicá-lo face a ameaças sérias ou já concretizadas à escala internacional.

 

2. As duas guerras (e os cristãos)

Criança num bairro de Gaza arrasado por ataques aéreos israelitas. Foto © UNICEF/Mohammad Ajjour

Vemos hoje tantas guerras. Alguns dizem estar já a decorrer difusamente a terceira guerra mundial. De entre elas ressaltam a do Médio Oriente e a da Ucrânia. Na imagem, uma criança num bairro de Gaza, Palestina, arrasado por ataques aéreos israelitas. Foto © UNICEF/Mohammad Ajjour.

Vemos hoje tantas guerras. Alguns dizem estar já a decorrer difusamente a terceira guerra mundial. De entre elas ressaltam a do Médio Oriente e a da Ucrânia. 

A primeira revela um ódio ancestral e visões teocráticas distintas. Tornou-se estrutural e há muito que, em rigor, ninguém saberá dizer quem agrediu quem (nem tal já interessa), sobrevindo agora a particularidade de um ataque anti-semita violentíssimo e de uma violência agonizante, com uma punição israelita desproporcionada e desprovida de lógica e racionalidade, sujeitando os palestinos a uma infinidade de horrores. O desprezo a que ambos os lados votam o seu semelhante deveria ser uma interpelação aos cristãos. No caso dos católicos, onde andam eles?

A segunda consagra também um certo embate entre Ocidente e Oriente, com origens remotas e recentes. Pacheco Pereira (Público, 11 Maio 2024), abordando-a do ponto de vista geopolítico, diz que “uma grande potência convencional e nuclear, governada por um ditador e uma oligarquia que exercem um poder absoluto, invadiu um país vizinho, ocupou parte do seu território (…), e ameaça todos os dias com um ataque nuclear”. Existe um risco real de escalada cujo desfecho pode ser uma catástrofe derradeira para grande parte da humanidade. 

Sabemos que, nas suas ponderações, a Rússia, um estado imperialista governado e sustentado por uma clepto-elite, precisou de suster às suas portas a ameaça de um certo cosmopolitismo ou europeísmo ucraniano, e sobretudo de dar continuidade à desorganização da ordem internacional liberal estabelecida pelo Ocidente. Pode-se facilmente evocar, como insiste o chamado Sul global, a injustiça sistémica e até crimes da actual ordem mundial. Sendo inequivocamente verdade, ainda assim ela compara favoravelmente de modo igualmente inequívoco com a alternativa russo-chinesa e seus aliados, cujos valores não são apenas não-democráticos, mas ferozmente anti-democráticos, enformando projectos de governança que, por definição e natureza, desprezam e oprimem os cidadãos e a sociedade civil.

O desejo de aniquilar a democracia e o cosmopolitismo é sinónimo da intenção de anular os direitos humanos e de estabelecer formas de ditadura como as que vigoram na China, Rússia e Irão ou em formas proto ou quasi-ditatoriais como na Índia, Venezuela, Nicarágua, Turquia ou mesmo Hungria, algo que tem sido muito apreciado pelas forças de extrema-direita que vemos ganhar terreno nos EUA e na Europa (incluindo Portugal).

Para os cristãos, se não estiverem a dormir na fila, esta deveria ser entendida como uma ameaça crítica, pois é precisamente na carta dos Direitos Humanos que encontra a melhor tradução laica possível do amplo conjunto de ideais e valores de justiça dos Evangelhos de Jesus Cristo. Posto em causa o imperfeito, mas indispensável edifício democrático, assistiremos em seguida à derrocada de um modo de vida mais propício à justiça, ao respeito e à igualdade entre as pessoas. 

Porque esperam os cristãos para reagir?

3. Diplomacia para a paz

Cartaz com a frase Stop War!!! (em português, Parem a guerra!!!), numa manifestação pela paz em fevereiro de 2022, na Piazza Donatori del Sangue em Veneza, Itália. Foto © Creative Commons

Cartaz com a frase Stop War!!! (em português, Parem a guerra!!!), numa manifestação pela paz em fevereiro de 2022, na Piazza Donatori del Sangue em Veneza, Itália. Foto © Creative Commons

Por isso, nós, como cidadãos (enquanto há cidadãos) e como cristãos (enquanto estes se podem exprimir) precisamos pensar muito depressa sobre o que podemos fazer para ajudar a evitar o alastramento da guerra, uma enorme guerra, possivelmente apocalíptica. 

Julgo haver três condicionantes:

  1. (a) Os cidadãos europeus não estão suficientemente envolvidos. Atónitos com a ferocidade do ataque do Hamas e a desproporção da investida israelita, e com a agressão russa e a sua máquina de guerra (tão ineficaz quanto violenta, dando razão aos que referem que o insucesso leva à brutalidade), eles foram remetidos para o papel de meros espectadores e apoiantes de uma das partes nas guerras (generalizadamente a favor da Ucrânia, ou controversamente tomando um partido na guerra do Médio Oriente).
  2. (b) A crença de que a extraordinária resistência ucraniana pode ganhar a guerra desde que haja mais armas – embora eu não duvide dessa necessidade para a Ucrânia se defender – tal configura uma aflitiva ingenuidade dos políticos e militares ocidentais, simétrica na natureza e calibre àquela que antes via a integração russa na economia europeia como óbice aos desvarios imperialistas de Putin, ou que as sanções impediriam a imensa Rússia de se rearmar e prosseguir a invasão.

Com melhor ou pior desempenho militar de ambas as partes, esta guerra não tem fim à vista; ninguém o quer admitir, julgando que isso seria uma demonstração de fraqueza.

  1. Por último, quanto à guerra na Europa, ao que se sabe a diplomacia ocidental não tem sido devidamente investida e activada. O pressuposto clássico de negociar a partir de uma melhor posição militar surge como desajustado porque actualmente as guerras de grande vulto não podem ser ganhas, apenas empatadas, naturalmente à custa de sofrimento imenso e de volumes impressionantes de dinheiro.  

Posto isto, conformamo-nos e permaneceremos sentados, ou pomo-nos de pé? E de pé, o que podemos fazer, como desarmadilhar os constrangimentos referidos? Haverá algum papel a protagonizar pelos cristãos (e por outros crentes)?

Pedir a paz, só por si, parece pouco, ambíguo (ou até mesmo errado, diz-me a minha voz possibilista). Os movimentos pacifistas de que se ouve falar têm realmente sido, ingénua ou dissimuladamente, a favor da rendição da Ucrânia, o que monta um perigoso cenário para a Europa, ou da culpabilização de Israel, isentando o outro lado de responsabilidades na guerra exactamente simétricas. 

Sempre focados na paz, visando a paz, e se pedíssemos antes esforços diplomáticos activos para terminar com a guerra? Não é uma diferença semântica, mas substantiva na estratégia. Essa diplomacia seria a dos Estados e dos políticos, mas firmemente incentivada e apoiada pela sociedade civil, igrejas, movimentos sociais e organizações.

Se é inadmissível Putin vencer a guerra, por mero realismo estratégico ele não a deve perder (uma lamentável injustiça). Concomitantemente, não se vendo como poderá a Ucrânia ganhar a guerra, é necessário que não a perca (outra injustiça). 

Tratar-se-á de uma equação de impossível solução? De imediato, sim, pois assenta na ideia da vitória e da derrota. Então, a verdadeira questão poderia ser: como desconstruir este paradigma? Esse seria o trabalho de uma diplomacia corajosa, empenhada e pressionada por um levantamento da sociedade civil. 

4. O papel dos cristãos no sobressalto pela paz

Dança da Paz, Pablo Picasso

Pablo Picasso, Dança da Paz

Os cristãos (e outros crentes) devem estar na linha da frente na procura da paz; hoje, possivelmente, isso significa acções distintivas e plurais. Rezar e comprometer-se pela paz, mas também exigir a activação da diplomacia.

Creio que a Conferência Episcopal Portuguesa, seguindo as preocupações do Papa Francisco, poderia, corajosamente, promover um grande levantamento nacional pela diplomacia activa visando o fim da guerra e a defesa da democracia, já que se torna impossível distinguir as duas coisas. 

Com esse objectivo em vista, sonho o lançamento de um grande movimento de reflexão e de acções a desenvolver nas paróquias, grupos e organizações católicas (e, deseja-se, de outras confissões religiosas) que se pudesse estender a toda a sociedade.

A CEP poderia mesmo lançar o desafio às suas congéneres europeias e do Médio Oriente (e a estruturas inter-religiosas que mostram hoje algum dinamismo), que possivelmente serão as mais sensíveis ao assunto, directamente ou através do Vaticano. 

Sinto de antemão sorrisos complacentes de quem vê nesta proposta uma utopia, se não mesmo uma infantilidade ou um disparate. Não me importo. Precisamos de ambição e arrojo e de sentir a fabulosa frase “Dou-vos a minha paz”, pensando o que fazemos com elas, a frase e a paz. 

Precisamos de agir agora para que estes tempos plúmbeos não se transformem em negros e vermelhos incandescentes, cujo único resultado será sofrimento e morte.

*  *  *

Seguidamente, apresenta-se uma lista de hipóteses de acções simbólicas de impacto público debaixo do slogan DIPLOMACIA PARA A PAZ, AGORA!

Entidades a envolver: Igrejas e suas organizações, comunidades religiosas, sindicatos e centrais sindicais, fundações, ordens profissionais, IPSS, ONG, autarquias, representação da ONU em Portugal, escuteiros e escoteiros, universidades, escolas, Instituto de Defesa Nacional, jornais, rádios, canais de televisões. 

Acções:

  • um dia vestido de branco – na rua, o branco impor-se-ia;
  • vigílias de oração de uma hora abertas à comunidade pela diplomacia para a paz, agora, segundo um guião nacional preparado antecipadamente, ao longo de um mês;
  • meio minuto de alarme sonoro a nível nacional, com publicitação internacional: sinos das igrejas, buzinas de carros, comboios e barcos, sirenes das torres e dos carros de bombeiros, tachos e panelas às janelas e nas ruas;
  • lançamento de um abaixo-assinado nacional (cuidadosamente redigido de modo a poder cativar o máximo de pessoas e entidades, mas sem prescindir do essencial), predominantemente online, pela diplomacia para a paz, agora, a entregar às representações da ONU, dos países beligerantes e dos que os apoiam (assinaturas em papel a converter em digitais);
  • um seminário sobre a democracia e necessidade de uma diplomacia para a paz em cada diocese, envolvendo a sociedade civil, seguido de desfile – oportunidade de recolha de assinaturas para o abaixo-assinado;
  • celebrações ecuménicas e inter-religiosas diocesanas coordenadas e realizadas no mesmo dia e hora, com publicitação nacional; 
  • lançamento de concursos regionais (talvez diocesanos) públicos nas escolas de belas-artes para projectos de pequenos monumentos sobre a paz, cujo prémio seria a sua exposição no espaço público, o que requereria um compromisso autárquico;
  • lançamento de um desafio a todas as associações de estudantes universitárias para a realização de uma sessão sobre a necessidade de paz e democracia (oportunidade de recolha de assinaturas para o abaixo-assinado);
  • desafiar a Sociedade Portuguesa de Autores, as orquestras nacionais, as televisões, a organizarem um grande concerto no fim do Verão para uma diplomacia pela paz, agora;
  • pedir apoio a fundações relevantes para a atribuição de prémios monetariamente significativos sobre a diplomacia para a paz, agora a incidir 
    • nas três iniciativas portuguesas mais inovadoras 
    • nos três melhores artigos de jornal
    • numa canção composta para o efeito
    • nos três trabalhos escolares mais relevantes e com maior potencial multiplicador junto dos jovens;
  • identificar livros sobre a temática da paz e da diplomacia, e das guerras em curso, que possam ter especial divulgação em iniciativas abertas a decorrer nas feiras do livro de 2024 e 2025 (oportunidade de recolha de assinaturas para o abaixo-assinado);
  • pedir a cinco figuras públicas e comediantes que introduzam no Tik-tok uma mensagem de DIPLOMACIA PELA PAZ, AGORA!
  • criar uma página de Facebook de DIPLOMACIA PELA PAZ, AGORA! que publicite as iniciativas;
  • esforço de ampla publicitação de todas as iniciativas visando a diplomacia para a paz, por mais pequenas que sejam.

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