Guerra Junqueiro: Peregrino em contínuo desenraizamento

| 19 Mar 21

Saborear os Clássicos IV

casa de guerra junqueiro em Freixo de Espada-à-Cinta. Foto © Município de Freixo de Espada-à-Cinta

A casa onde nasceu o poeta, em Freixo de Espada-à-Cinta. Foto: Município de Freixo de Espada-à-Cinta.

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada-à-Cinta (Bragança, Trás-os-Montes), de uma família abastada. Matriculou-se em Coimbra na Faculdade de Teologia; dois anos depois mudou para a Faculdade de Direito.

Pertenceu à Geração de 70, denominação do grupo de intelectuais que, na década de 1870, quiseram renovar a cultura portuguesa, na fase decadente do Romantismo.

Entre os homens não há fraternidade – há sócios.
(G. Junqueiro)

Guerra Junqueiro (1850-1923) era considerado no seu tempo um dos maiores poetas portugueses e até peninsulares. As gerações mais velhas ainda se recordam dos poemas Morena ou A Moleirinha. Na segunda metade do século XX, eclipsou-se.

“… Junqueiro tem uma obra poética menor, grandiloquência demagógica e sem imaginação, caindo na última fase num sentimentalismo pretensamente místico, franciscano…”(1)

Capa de _Os Simples_, de Guerra Junqueiro

Capa de Os Simples, de Guerra Junqueiro.

“… é certo que os ideais no fim oitocentista já não arrastam multidões (…), houve nele (além da intervenção política e defesa dos ideais republicanos, num estilo muito vigoroso), uma inclinação para a simplicidade mística” e é “precisamente nos textos menores (Os Simples, por exemplo) em que “o religioso metafísico” se releva que o poeta se perdura.”(2)

“Havia em Junqueiro um humorista, um realista, um lírico sem insipidez, um poeta intensamente original, mesmo nas suas desigualdades de eloquência tempestuosa, mas não chegou a revelar-se integralmente porque viveu obcecado em imitar outro (Victor Hugo) e desempenhou a todo o custo um papel. O papel passou de moda.” (3) 

Excertos de duas obras de intenção crítica:

“(…) Gozar? Sim, mas com toda a segurança: / A razão e a luxúria, a liberdade e a pança / Que haja um grande sossego e haja prazer à farta: / O bordel e o gendarme, a saturnal e a carta / … Uma camisa branca, uma consciência preta. / Um ar um pouco sério, um nome, algum dinheiro, / Eis tudo o que se exige a qualquer bandoleiro / Para representar a farsa desta vida…”  (4)

“(…) como é que tu, ó Egreja pretendes / Cerrando na tua mão um box enorme – o Inferno / Levar aos encontrões o espírito moderno… / Atirar à Justiça, a ideia, o pensamento / Às fogueiras da fé, ó bonzos, é impossível / Loucos! Ide dizer ao velho Torquemada / Que queime se é capaz n’um forno uma alvorada! / … Sacristas / Ajuntai, reuni os balandraus papistas / As fardas sepulcrais do exército da fé … / a consciência não é a besta de uma nora…” (5)

 

O poeta confessa-se          
cartaz Guerra Junqueiro-arquivo CMP

Guerra Junqueiro: “Atravessei há anos um período agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo salutar…”. Cartaz do arquivo da Câmara Municipal do Porto.

Em 1923, Luís de Magalhães fala no Porto com o poeta que ia em breve para Lisboa, falecendo nesse mesmo ano. Diz o escritor ao amigo: “Se não fosse a infernal política, eu teria feito com ele (Prometheu Libertado) um dos maiores poemas contemporâneos.”

Junqueiro refere depois ao amigo a crise que viveu: “… atravessei há anos um período agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo salutar. Ante a morte, próxima, senti-me electrizado, como por encanto, de energias súbitas … esbocei então este pequeno poema lírico Os Simples. É muito mais uma autobiografia psicológica que uma série de quadros campestres e bucólicos.” (6)

 

Minha mãe, minha mãe! / ai que saudade imensa…

“… no tempo em que ajoelhava orando, ao pé de ti. Caía mansa a noite …”.

É um poema luminoso: a presença espiritual da mãe revela-se “… na Lua branca, além, por entre os olivais / Como a alma de um justo ia em triunfo ao céu…” sugere a Assunção de Santa Maria. “… E mãos postas, ao pé do altar do teu regaço, / Vendo a Lua a subir, muda, alumiando o espaço, / eu balbuciava a minha infantil oração…”

A oração é expressa através da repetição do modo conjuntivo optativo: “…Pedindo a Deus … Que mandasse um alívio a cada sofrimento / Que mandasse uma estrela a cada escuridão…” A repetição anafórica das preposições indica a quem era destinada a oração: “… Por todos eu orava e por todos pedia / pelos mortos no horror da terra fria / por todas as paixões… / pelos míseros… / Para toda a nudez um pano do seu manto / … e para todo o crime o seu perdão de Pai…”.

No final, a recordação da mãe torna-se presença da piedade, serenidade e paz interior: “… a minha mãe faltou-me era eu pequenino, / Mas da sua piedade o fulgor diamantino / Ficou sempre abençoando a minha vida inteira / Como junto de um leão um sorriso divino / Como sobre uma forca um ramo de oliveira!” (7)

 

Ó sonhador louco de outrora, teus sonhos onde estão?        
Guerra Junqueiro era considerado na sua época um dos maiores poetas peninsulares. Foto: Direitos reservados.

Guerra Junqueiro, considerado, na sua época um dos maiores poetas peninsulares. Foto: Direitos reservados.

 

Há um outro poema, com uma estrutura dramática, dividido em três partes: na primeira, A Caminho, “um loiro peregrino, de olhos ingénuos”, inicia a sua peregrinação; todos o saúdam e os mais velhos avisam-no dos perigos. A estrela d´alva diz-lhe: “… por infernos deixas tua paz, teu lar!

Na segunda parte, De Volta, ninguém reconhece o jovem que iniciou a jornada n’“um pobrezinho triste, arrimado ao bordão”; só a estrela d’alva o identificou: “Ó sonhador louco d’outrora/ teus lindos sonhos onde estão?…”

Na terceira parte, Regresso ao Lar: “Ai, há quantos anos eu parti chorando / Deste meu saudoso carinhoso lar!… / Foi há vinte?… há trinta?… / Minha velha ama, que me estás fitando, / Canta-me cantigas para eu me lembrar!… // Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida… / Só achei enganos, decepção, pesar… / Oh! A ingénua alma tão desiludida (…) / Canta-me cantigas de dormir, sonhar!… // Canta-me cantigas para ver se alcanço / Qu’ a minh’ alma durma, tenha paz, descanso, /  Quando a Morte em breve, ma vier buscar!…”

Há o desejo de regresso à infância, no pedido do sujeito à Ama / Mãe – único vínculo duradouro: “Canta-me”; a progressiva sequência verbal exprime a finalidade do canto: (para) lembrar, dormir, ter paz, descansar, morrer.  Afinal, tudo estava ali, no lugar onde iniciou a viagem: a vida, a morte. O resto foi uma ilusão. (8)

 

Bendito o Christo-Sol …               

O poema Oração à Luz assemelha-se na estrutura à Oração ao Pão. Neste, o Pão é a metáfora do corpo e da alma de Cristo. Na Oração à Luz, esta é metáfora do sopro divino, do Espírito Santo: é ela que transforma o caos em cosmos: “… é carne humana, é sangue, é pensamento … por ti um sopro anímico e profundo / penetra o lodo, a rocha, a água, o ar…”

O poema é uma toada à vida, à agonia, à morte. Apostrofando o “Homem”, exclama: “…Ergue-te em pé, ergue essa fronte… Levanta à Luz esta oração… Bendito o Christo-Sol na cruz ardente…” (9)

 

A alegria pura
Casa-Museu Guerra Junqueiro-Porto. Foto © Eugénia Abrunhosa

Casa-Museu Guerra Junqueiro-Porto. Foto © Eugénia Abrunhosa.

 

 

É nas Prosas Dispersas e noutras obras inéditas que Guerra Junqueiro desenvolve as suas ideias ético-filosóficas. O amor e crime são co-originários: ambos se manifestam no mundo. Cabe ao homem responder ao chamamento da sua consciência, que é a chamada de Deus: “… a alma de Jesus proclama o triunfo da santidade sobre o crime… do verbo odiar nasce o verbo amor. Toda a alegria pura vem do amor e todo o amor inclui o sofrimento. Tal como o peregrino, o seu destino foi um contínuo desenraizamento, até à verdadeira chegada – a morte / a morada de Deus.” (10)

 

Notas
(1) Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70, uma Revolução Cultural e Literária.
(2) Nuno Júdice, Poesia de Guerra Junqueiro.
(3) Pierre Hourcade, Temas da Literatura Portuguesa.
(4) Guerra Junqueiro, A Musa em Férias.

(5) Idem, A Velhice do Padre Eterno.
(6) Guerra Junqueiro, Prometheu Libertado, esboço do poema. Prefácio de Luís de Magalhães.
(7) Idem, Os Simples, poesias líricas.
(8) Ibidem.
(9) Guerra Junqueiro, Oração à Luz.
(10) Jorge Cunha, “Observações sobre o pensamento moral de Guerra Junqueiro”, in Actas do Colóquio da Universidade Católica Portuguesa (UCP)-Porto; e Joaquim Saraiva de Sousa, “Guerra Junqueiro, Poesia e Filosofia”, in Humanística e Teologia, revista da UCP-Porto.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

Os Dias da Semana – Socorrer urgentemente Cabo Delgado

Os Dias da Semana – Socorrer urgentemente Cabo Delgado novidade

Moçambique tem um amplo destaque na primeira página da edição de hoje e de amanhã do diário francês Le Monde, por causa dos ataques mortais de jihadistas à cidade de Palma e da instabilidade na província de Cabo Delgado, qualificada como “antigo canto do paraíso”. No interior, as páginas 16, 17 e 18 são integralmente dedicadas ao que se passa na região entalada entre “as ambições da indústria do gás e a pressão jihadista”.

Breves

Vida para lá da Terra? Respondem teólogos e astrónomos novidade

Ciência e Espiritualidade é o mote para um encontro organizado pela Faculdade de Teologia e pelo Departamento de Astronomia da Universidade de Genebra (Suíça). “O homem e o céu: do universo mítico ao universo científico” é o tema que procurará responder a perguntas como: O que é o universo? Vida, aqui e além? De onde vimos? Para que fim?

Seminário de Coimbra assinala Dia Internacional dos Monumentos e Sítios com direto na cúpula da igreja

Uma conversa em cima do andaime montado na cúpula da igreja do Seminário Maior de Coimbra irá juntar, no próximo dia 19 de abril, pelas 18h, o padre Nuno Santos, reitor da instituição, e Luís Aguiar Campos, coordenador do projeto de conservação e restauro do seminário. A iniciativa pretende assinalar o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios (que se celebra domingo, 18) e será transmitida em direto no Facebook.

Vaticano saúda muçulmanos no Ramadão

O Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, da Santa Sé, enviou uma mensagem aos muçulmanos de todo o mundo, por ocasião do início do Ramadão, convidando todos os crentes a serem “construtores e reparadores” da esperança.

China quer que clérigos tenham amor pelo Partido Comunista

Novo decreto governamental é “mais uma medida totalitária para limitar a liberdade religiosa”, acusa organização de direitos humanso. O decreto aplica-se a todas as religiões, ou seja, lamas budistas, clérigos cristãos, imãs muçulmanos e outros líderes religiosos.

Aumentar valor das prestações sociais, sugere Pedroso nos 25 anos do RSI

O valor das prestações sociais como o Rendimento Social de Inserção (RSI) deveria aumentar, pois já não responde às necessidades das pessoas mais vulneráveis. A ideia é defendida por Paulo Pedroso, que foi o principal responsável pela comissão que estudou o modelo de criação do então Rendimento Mínimo Garantido (RMN).

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Quebra de receitas da principal Igreja financiadora do Vaticano

A Igreja Católica alemã, que é líder no contributo que dá habitualmente para as despesas da Santa Sé (juntamente com a dos EUA), teve “um verdadeiro colapso” nas receitas, em 2020, segundo dados divulgados pelo jornal Rheinische Post, citados por Il Messaggero.

Francisco corta 10% nos salários dos cardeais

O Papa Francisco emitiu um decreto determinando um corte de 10% nos salários dos cardeais, bem como a redução de pagamento a outros religiosos que trabalham na Santa Sé, com efeitos a partir de 1 de abril, divulgou o Vaticano esta quarta-feira, 24 de março. A medida, que não afeta os funcionários com salários mais reduzidos, visa salvar os empregos no Vaticano, apesar da forte redução das receitas da Santa Sé, devido à pandemia de covid-19.

Espanha: Consignações do IRS entregam 300 milhões à Igreja Católica

Os contribuintes espanhóis entregaram 301,07 milhões de euros à Igreja Católica ao preencherem a seu favor a opção de doarem 0,7% do seu IRPF (equivalente espanhol ao IRS português). Este valor, relativo aos rendimentos de 2019, supera em 16,6 milhões o montante do ano anterior e constitui um novo máximo histórico.

Entre margens

A viagem do vestido de casamento novidade

O cerne da questão das cerimónias de casamento, na minha sociedade, é o vestido de noiva. A existência do vestido de noiva é antecedida pelo anúncio do casamento, que traz felicidade a alguns familiares, tanto da noiva, quanto do noivo. Digo alguns, porque um casamento, para além da graça que carrega, reúne em torno de si muita agrura. Casar e ter filhos ainda é das coisas mais importantes na minha sociedade. Existe muito pouco deleite acima disso.

Dois quadros de Caravaggio

Há dois episódios que recentemente recordámos na liturgia que continuam a deixar-nos cheios de perplexidade. Falo da tripla negação de Pedro e da incredulidade de Tomé. Afinal, somos nós mesmos que ali estamos representados, por muito que isso nos choque. E o certo é que, para que não haja dúvidas, as palavras que pontuam tais acontecimentos são claríssimas. Pedro recusa terminantemente a tentação, quando Jesus lhe anuncia que ele O vai renegar. E nós sentimo-nos aí retratados.

Europa: um Pacto Ecológico para inglês ver?

“O Pacto Ecológico Europeu é … uma nova estratégia de crescimento que visa transformar a UE numa sociedade equitativa e próspera, dotada de uma economia moderna, eficiente na utilização dos recursos e competitiva, que, em 2050, tenha zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa e em que o crescimento económico esteja dissociado da utilização dos recursos.” (Pacto Ecológico)

Cultura e artes

A torrente musical de “Spem in Alium”, de Thomas Tallis

Uma “torrente musical verdadeiramente arrasadora”, de esperança pascal, diz o padre Arlindo Magalhães, comentador musical, padre da diocese do Porto e responsável da comunidade da Serra do Pilar (Gaia), a propósito da obra de Thomas Tallis Spem in Alium (algo que se pode traduzir como “esperança para lá de todas as ameaças”).

A Páscoa é sempre “pagã”

A Páscoa é sempre pagã / Porque nasce com a força da primavera / Entre as flores que nos cativam com promessas de frutos. / Porque cheira ao sol que brilha na chuva / E transforma a terra em páginas cultivadas / Donde nascem os grandes livros, os pensamentos / E as cidades que se firmam em pactos de paz.

50 Vozes para Daniel Faria

Daniel Faria o último grande poeta português do século XX, morreu há pouco mais de vinte anos. No sábado, dia 10, assinala-se o 50.º aniversário do seu nascimento. A Associação Casa Daniel assinala a efeméride com a iniciativa “50 Vozes para Daniel Faria” para evocar os poemas e a memória do poeta.

“Sequência da Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo”

Sem poder ir ao cinema para poder falar de um novo filme que, entretanto, tivesse estreado, porque estamos em tempo de Páscoa e porque temos ainda viva diante dos olhos a profética peregrinação do Papa Francisco ao Iraque – que não pode ser esquecida, mas sempre lembrada e posta em prática – resolvi escrever (para mim, a primeira vez neste lugar) sobre um filme profundamente pascal e actual: Dos Homens e dos Deuses (é quase pecado não ter experimentado a comoção de vê-lo). E não fui o único a fazê-lo por estes dias.

Sete Partidas

O regresso à escola má

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This