Conceito em debate

“Guerra justa” em Gaza? Igreja Católica e Israel com respostas contrárias

| 4 Jul 2024

© UnrwaFadi Thabet Criança sentada entre as ruínas de uma escola no centro de Gaza

Criança sentada entre as ruínas de uma escola no centro de Gaza. Foto © Unrwa/Fadi Thabet 

Uma declaração recente da Comissão Justiça e Paz da Terra Santa, intitulada “Guerra justa?”, critica de forma contundente a operação militar israelita na Faixa de Gaza, acusando-a de ser desproporcional. A resposta da embaixada de Israel junto da Santa Sé não se fez esperar: assegura que o único objetivo da incursão é “acabar com o domínio do Hamas” e impedir ataques terroristas futuros. Mas para o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, não há dúvidas: apesar de o conceito de “guerra justa” estar “em revisão”, não pode mesmo ser aplicado ao que se passa em Gaza.

“Como católicos da Terra Santa, que partilham a visão do Papa Francisco por um mundo pacífico, estamos indignados com o facto de que os atores políticos em Israel e no exterior estejam a usar a teoria da ‘guerra justa’ para perpetuar e legitimar a guerra em curso em Gaza”, pode ler-se na declaração da Comissão Justiça e Paz, datada de 30 de junho, e divulgada pela agência Fides no dia seguinte.

A Comissão, que reúne líderes católicos latinos e orientais de Israel, Palestina, Jordânia e Chipre, é liderada pelo patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa.

O documento opõe-se à utilização indevida da expressão “guerra justa” – da doutrina social católica – “como uma arma para justificar a violência em curso em Gaza”. E recorda os critérios definidos no parágrafo 2309 do Catecismo da Igreja Católica para que uma guerra possa ser considerada “justa”: o recurso ao uso de armas é legítimo apenas em resposta a uma agressão que tenha causado danos e injustiças graves duradouras, e quando todos os outros meios de prevenir os danos e acabar com os mesmos se tenham revelado impraticáveis e ineficazes; a reação armada deve ainda ter uma perspetiva razoável de sucesso e não causar destruição e sofrimento a pessoas inocentes superior ao mal a ser eliminado.

“A falta de objetivos declarados por Israel torna impossível avaliar se há ‘sérias perspetivas de sucesso’. Acima de tudo, as guerras justas devem distinguir claramente entre civis e combatentes, um princípio que foi ignorado por ambos os lados nesta guerra com resultados trágicos. As guerras justas também devem empregar o uso proporcional da força, algo que não pode ser facilmente dito de uma guerra na qual o número de mortos palestinianos é superior em dezenas de milhares de pessoas ao de israelitas e na qual a maioria das vítimas palestinianas são mulheres e crianças”, evidencia a declaração.

“Há aqueles que pretendem – insiste o documento da Justiça e Paz na Terra Santa – que a guerra siga as regras da ‘proporcionalidade’, alegando que uma guerra que continue até o fim poderia salvar as vidas dos israelitas no futuro, colocando as milhares de vidas palestinas perdidas no presente no outro lado da balança. Dessa forma, a segurança de pessoas hipotéticas no futuro é priorizada em relação às vidas de seres humanos vivos que respiram e são mortos todos os dias. Em resumo, a manipulação da linguagem da teoria da guerra justa não se trata apenas de palavras: ela está a ter resultados tangíveis e fatais”, conclui o texto.

 

Do conceito de “guerra justa” à tarefa da paz

Cardeal Parolin durante seu discurso na Embaixada da Itália junto à Santa Sé, 2 julho 2024. Foto Vatican media

“Às vezes parece que o trabalho diplomático produz pequenos resultados, mas não devemos cansar-nos nem ceder à tentação da resignação”, disse o cardeal Parolin desta terça-feira. Foto © Vatican media

Numa resposta publicada nas redes sociais esta terça-feira, 2 de julho, a embaixada israelita na Santa Sé critica, por seu lado, a declaração da Comissão, afirmando que esta “usa o pretexto religioso e truques linguísticos” para se opor de facto ao “direito de Israel de se defender das intenções declaradas dos seus inimigos de pôr fim à sua existência”.

Assegurando que o objetivo de Israel, desde o início do conflito, é “acabar com o domínio do Hamas no território e garantir que atrocidades como as cometidas em 7 de outubro [de 2023] não aconteçam novamente”, a embaixada lamenta a forma como os líderes católicos se referem aos eventos pós-7 de outubro como “a guerra em Gaza” e afirma que as críticas à natureza desproporcional dos combates criam “uma falsa simetria que reflete preconceito e parcialidade”.

A embaixada alerta ainda para o facto de a Comissão Justiça e Paz usar o temo “guerra justa” de uma forma que “não é consistente com o direito internacional, com o qual Israel procura cumprir” e assinala que chamar o conflito de “guerra em Gaza” é impreciso, já que “Israel também enfrenta ataques da parte do Líbano, Síria, Iêmen e Irão”. “Por conseguinte, o título ‘A guerra contra a existência de Israel’ descreverá os eventos dos últimos nove meses de forma muito mais realista”, conclui o comunicado da embaixada.

Questionado a propósito desta tensão entre os líderes católicos da Terra Santa e a embaixada israelita na Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin sublinhou esta terça-feira que “só se pode falar de uma guerra justa no contexto da defesa, no caso de uma guerra de defesa”. E concretamente sobre o conflito em Gaza, disse: “Nunca é uma guerra justa, neste sentido”. O secretário de Estado do Vaticano acrescentou ainda que “hoje, com as armas que estão disponíveis este conceito torna-se muito difícil”. “Creio que ainda não existe uma posição definitiva, mas é um conceito em revisão”, adiantou.

Parolin, que falava aos jornalistas à margem da entrega do Prémio Literário dos Embaixadores junto da Santa Sé – atribuído ao jornalista da RAI Piero Damosso, pelo seu livro A Igreja pode parar a guerra? Uma investigação sessenta anos depois da Pacem in Terrishavia já assinalado no seu discurso: “Às vezes parece que o trabalho diplomático produz pequenos resultados, mas não devemos cansar-nos nem ceder à tentação da resignação; a paz é tarefa de cada um de nós a partir da nossa vivência quotidiana, nas nossas cidades, nos nossos países, no mundo”.

Após quase nove meses de guerra, o número de mortos palestinianos  ultrapassou os 38 mil, anunciou esta quinta-feira, 4 de julho, o Ministério da Saúde do enclave governado pelo grupo radical Hamas. De acordo com a ONU, os intensos combates em curso forçaram cerca de 84 mil pessoas a fugir da Cidade de Gaza só nos últimos dias e cortaram o acesso a um importante centro de distribuição de ajuda no norte do enclave. Estima-se que nove em cada dez pessoas na Faixa de Gaza foram deslocadas internamente pelo menos uma vez, e em alguns casos, até 10 vezes, desde outubro do ano passado.

Quanto aos 116 reféns que continuam detidos na Faixa de Gaza, estimativas realizadas pelas autoridades norte-americanas indicam que apenas 50 estarão vivos. Vários familiares destes reféns bloquearam esta quinta-feira a autoestrada Ayalon, em Telavive, exigindo um acordo para a libertação dos sequestrados e o fim do atual Governo. O protesto foi replicado noutras partes do país, como na autoestrada 4, perto de Netanya, onde um grupo de pessoas queimou pneus e exigiu um acordo para uma trégua e eleições antecipadas.

 

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