Guerras de irmãos

| 19 Out 2023

É uma sequência de imagens que pode ser observada com frequência num certo tipo de filmes de acção. Exibe um indivíduo, geralmente o protagonista, confrontado com um engenho explosivo que terá de desactivar num curtíssimo espaço de tempo. O nervosismo está sempre associado ao habilidoso, e por regra solitário, trabalho manual. Um olhar perscrutador, primeiro; depois, um fio desligado, outro fio separado e outro ainda, e por aí fora, até ao limite da contagem decrescente e da crescente ansiedade.

Uma das grandes figuras do judaísmo contemporâneo, Jonathan Sacks (1948-2020), que foi Rabino-Chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth, podia ser um desses heróis aplicados, contra-relógio, a salvar vidas, ao escrever Não em nome de Deus. Como explicar a violência religiosa [1], obra em que se aplicou, com minuciosa perícia, em, fio após fio, desarmadilhar o que de potencialmente destrutivo tantos entrevêem nas religiões por causa de as interpretarem erradamente.

“Com demasiada frequência na história da religião, as pessoas mataram em nome do Deus da vida, travaram guerra em nome do Deus da paz, odiaram em nome do Deus do amor e praticaram a crueldade em nome do Deus da compaixão”, observa Jonathan Sacks, notando que, quando tal acontece, “Deus fala, por vezes numa voz calma e baixa quase inaudível, sob o clamor daqueles que alegam falar em seu nome. O que Ele diz nessas alturas é: Não em Meu Nome”.

Uma das grandes figuras do judaísmo contemporâneo, Jonathan Sacks (1948-2020), que foi Rabino-Chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth, Foto FB The Rabbi Sacks Legacy

“Com demasiada frequência na história da religião, as pessoas mataram em nome do Deus da vida, travaram guerra em nome do Deus da paz, odiaram em nome do Deus do amor e praticaram a crueldade em nome do Deus da compaixão”, escreveu o rabino Jonathan Sacks (1948-2020). Foto © The Rabbi Sacks Legacy.

 

Aos judeus, cristãos e muçulmanos, Jonathan Sacks faz um primeiro apelo: “Não nos cabe a nós conquistar ou converter o mundo, nem impor a uniformidade da crença. É nosso dever ser uma bênção para o mundo”. Esta é considerada como uma das lições mais simples da fé abraâmica.

O livro é de 2015 e apresenta logo nas páginas iniciais exemplos que corroboram uma constatação trágica: “A violência em nome da religião não diminuiu”. As vítimas são muçulmanos, cristãos e judeus. Mas “não são apenas os membros dos monoteísmos abraâmicos que se vêem sob ameaça. Também se encontram nessa situação budistas, hindus, siques, zoroastrianos e bahais” – e os iazidis.

Jonathan Sacks fala do “mal do tipo que todos nós reconhecemos como tal”. Ou seja: “Matar os fracos, os inocentes, os muito jovens e os idosos é o mal. Assassinar indiscriminadamente através de ataques terroristas ou bombistas suicidas é o mal. Assassinar pessoas devido à sua religião ou raça ou nacionalidade é o mal”. De facto, há actos “tão estranhos ao nosso conceito de humanidade que não podem ser justificados com base em serem os meios para um fim grandioso, nobre e sagrado”.

O paroxismo da “ligação genérica entre a religião e a violência”, que se encontra no “extremismo religioso politizado do século XXI”, é o que mais inquieta Jonathan Sacks. É nessa religião radical e politizada que se encontra a “maior ameaça à liberdade”. Como responder-lhe? A esta interrogação, dá o autor uma resposta algo surpreendente. Considerando que “as guerras são vencidas por armas, mas são necessárias ideias para conseguir a paz”, Jonathan Sacks propõe algo inesperado: “O trabalho a realizar agora é teológico”.

Como o protagonista cinematográfico que torna inofensivo o engenho explosivo que tem perante si, Jonathan Sacks lê os textos bíblicos mais desabridos, particularmente aqueles que se centram na rivalidade fraterna (Caim e Abel, Isaac e Ismael, Jacob e Esaú, Lia e Raquel, José e os seus irmãos), interpretando-os de modo a extirpar-lhes o ressentimento e o ódio que suscitaram a animosidade entre judeus, cristãos e muçulmanos e a exemplificar como da hostilidade se pode evoluir até à reconciliação – como o fratricídio (Caim e Abel) pode ceder lugar à irmandade reencontrada (José e os seus irmãos).

O destino de Caim depois de matar o seu irmão Abel, representado na escultura de Henri Vidal, que se encontra no Jardin des Tuileries, em Paris. Foto: Direitos reservados.

 

José inaugura, aliás, “uma via inédita de resistência à violência: a não-violência e a reconciliação”, assinala Olivier Artus, médico, padre e reitor da Universidade Católica de Lyon. Em Penser les défis contemporains avec la Bible hébraïque [2], considera que, “esboçando os contornos de uma possível resposta paradoxal à violência, figura por excelência do mal, a narrativa do Génesis desenha igualmente em que é que pode consistir uma resistência individual ao mal”. Para Olivier Artus, “a personagem de José é descrita em diversas ocasiões como sábio e dotado de inteligência, não podendo, portanto, ser suspeito de ingenuidade”.

O prisma da liberdade, incluindo “da liberdade para remodelar a nossa compreensão do passado, curar algum do seu legado de dor”, que permite que uma visão religiosa reenquadre a história, libertando-a da dinâmica do ódio e da vingança, é o que, segundo Jonathan Sacks, se revela mais promissor para ultrapassar a rivalidade entre irmãos, a rivalidade entre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. “O passado não dita o futuro. Pelo contrário, um futuro de reconciliação pode, pelo menos em alguma medida, redimir retroactivamente o passado”.

O trabalho a fazer é deixar “a fé fortalecer, não danificar, a nossa humanidade partilhada”, considera Jonathan Sacks. Parece simples, mas não é, acrescenta ele, justificando: “Pessoas religiosas sob o domínio de emoções fortes – medo, dor, ansiedade, confusão, uma sensação de perda e humilhação – desumanizam frequentemente os seus adversários com resultados devastadores”.

É sobretudo o caso da religião radical politizada, que, ao ensinar, através da sua rede de doutrinamento, das escolas e dos seminários, que amar o seu Deus impõe odiar os inimigos do seu Deus, tem provocado “uma torrente de caos, violência e destruição”. É preciso travar este ódio.

Jonathan Sacks, que considera imprescindível uma educação “para a paz, para o perdão e para o amor”, termina Não em nome de Deus com uma incitação: “Esta é a altura para os judeus, cristãos e muçulmanos dizerem o que não conseguiram dizer no passado: somos todos filhos de Abraão. E quer sejamos Isaac ou Ismael, Jacob ou Esaú, Lia ou Raquel, José ou os seus irmãos, somos valiosos aos olhos de Deus. Somos abençoados. E para se ser abençoado, ninguém tem de ser amaldiçoado”. A todos, todos, todos, Deus pede “para abrirmos mão do ódio e da predicação do ódio e para vivermos, finalmente, enquanto irmãos e irmãs”.

Perante as imagens de desumanidade como as que desde o dia 7 de Outubro nos têm sido dadas a ver, a rabina Delphine Horvilleur afirmou numa entrevista concedida ao diário Le Monde [3] que a questão que a habita é saber como é possível preservar a nossa humanidade, assegurando uns aos outros que, nos tempos que virão, seremos capazes de não nos desumanizarmos a ponto de confiscar as nossas almas.

 

Palestinians evacuate the area following an Israeli airstrike on the Sousi mosque in Gaza City on October 9, 2023. AFPMahmud Hams, via UNOCHA

Palestinianos em fuga após um ataque aéreo das forças israelitas à mesquita de Sousi, em Gaza, no passado dia 9 de outubro. Foto © AFP/Mahmud Hams, via UNOCHA.

 

Delphine Horvilleur afirma que, tanto quanto pode compreender, no Médio Oriente as pessoas já não são capazes de o fazer, porque o nível de ódio e de raiva está a atingir o seu paroxismo, mas não temos desculpa para aqui na Europa não sermos mais humanos. A rabina julga que desumanizar o outro é “uma falha empática” – que é, na verdade, “uma terrível falha moral” – cuja repercussão será a desumanização de si próprio. Pelo menos, não precisamos de acrescentar ódio ao ódio.

Jonathan Sacks tem razão: estaremos aptos a aprender a não fazer o mal se conseguirmos viver os acontecimentos sob o ponto de vista das vítimas.

[1] Oeiras: Edições Desassossego, 2021
[2] Paris: Odile Jacob, 2022
[3] “Delphine Horvilleur : « Face aux meurtres du Hamas, certains silences m’ont terrassée »”. Le Monde, 17 de Setembro de 2023

 

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