Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar.
A mim, e a muitos outros observadores mais competentes, sempre pareceu ilusório pensar que a população iraniana, ainda que vítima dessa opressão e aspirando à mudança de regime, viesse a acolher de bom grado esses seus supostos libertadores depois de eles terem provocado as mortes e a destruição que qualquer guerra sempre provoca.
É claro que esse alegado objetivo da guerra foi rapidamente esquecido. O presidente norte-americano já o tinha certamente posto de parte quando delirantemente ameaçou destruir esta civilização milenar…
Ora, o que hoje pode concluir-se é não apenas que a guerra não conduziu à mudança do regime iraniano no sentido da sua democratização, mas que ela contribuiu até para o reforço desse regime.
É essa a conclusão fundamentada de um artigo dos investigadores norte-americanos de origem iraniana Narges Bajoghil e Vali Nasr publicado na revista Foreign Affairs e citado no número de setembro da revista italiana Città Nuova.
As manifestações de oposição ao regime iraniano, violentamente reprimidas (com milhares de mortos e presos), ocorridas pouco tempo antes do eclodir desta guerra, haviam gerado uma mobilização de uma parte significativa da sociedade civil unida contra o regime que seria de esperar viesse a crescer cada vez mais apesar dessa repressão.

As manifestações de oposição ao regime iraniano, violentamente reprimidas (com milhares de mortos e presos), ocorridas pouco tempo antes do eclodir desta guerra, haviam gerado uma mobilização de uma parte significativa da sociedade civil unida contra o regime que seria de esperar viesse a crescer cada vez mais apesar dessa repressão. Gravura © Center for Iran Human Rights
Depois da guerra essa mobilização desapareceu.
Sobre essa união de uma parte significativa da sociedade civil contra o regime passou a prevalecer uma união a favor do regime e contra um seu inimigo externo que provoca morte e destruição. O regime soube aproveitar a revolta de quem sofre com a guerra (toda a população) explorando o sentimento nacional contra o inimigo externo, comparado a outros inimigos externos do Império persa, desde Alexandre Magno aos exércitos árabes e mongóis (e este inimigo atual chegou mesmo a ameaçar destruir a sua civilização milenar). As multidões presentes nas cerimónias fúnebres das mais altas figuras do regime (não há muito tempo tão contestadas) são disso reflexo e não inteiramente manipuladas.
O regime alargou, pois, a sua base social de apoio: já não apenas os partidários do radicalismo islâmico (ainda numerosos, mas que tendem a perder apoio nas gerações mais jovens e instruídas), mas também quem é movido pelo sentimento nacional contra o inimigo externo. Consideram tais investigadores que de um regime teocrático islamista se passou a um regime autocrático nacionalista, igualmente opressor, mas com maior base social de apoio.
Este exemplo do regime iraniano vem confirmar uma conclusão já antiga: as guerras para mudança de regime não são apenas condenáveis na perspetiva moral e jurídica; são-no também na perspetiva da sua eficácia política.
As mudanças de regime devem partir de dentro, da sociedade civil, e não de uma intervenção externa, sobretudo se esta assume a forma de uma guerra. As guerras quase sempre provocam mais malefícios do que benefícios («tudo se perde com a guerra, nada se perde com a paz» – dizia o Papa Pio XII). Não há que desistir das vias pacíficas, mesmo quando estas exigem perseverança, coragem e sacrifícios. Foi isso que sucedeu com a mudança dos regimes comunistas da Europa de Leste, como salientou São João Paulo II na encíclica Centesimus annus.
Pedro Vaz Patto é Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.
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