Migrantes e refugiados contam vidas em teatro

Guerras, medos, esperas e outras histórias bizarras

| 6 Mai 2022

ensaios da peça Une Histoire Bizarre, interpretada por 16 imigrantes e refugiados em Portugal; ideia original de Sebastião Martins, encenação de Júlio Martin, foto © Tomás Nolasco

Momento de ensaio de Une Histoire Bizarre, interpretada por 16 imigrantes e refugiados em Portugal. Foto © Tomás Nolasco.

 

E como se arruma a vida numa pequena mala se tivermos apenas uma hora para fugir das bombas? Porque temos de decidir deixar para trás a roupa nova, o colchão de yoga, o livro que se começou a ler? Como se pode trocar um dia de aniversário pelo dia de início de uma guerra que outros nos fazem? Porque não se pode, sequer, encenar o pequeno teatro que era costume fazer para os amigos nesse dia?

As perguntas da ucraniana Marina Burdieieva fazem sentido quando ficamos a saber que o seu dia de aniversário coincidiu com a data em que os governantes russos decidiram invadir o seu país. A sua história é uma das que são contadas em Une Histoire Bizarre, que estará em cena no auditório de Santa Joana Princesa, na noite de sábado, 7 (21h) e na tarde de domingo, 8 (17h), no auditório Santa Joana, da paróquia de Santa Joana, em Lisboa (Rua Lagares d’el Rei).

Interpretada por 16 actrizes e atores de onze países, quase todos imigrantes e refugiados, a peça, uma ideia original de Sebastião Martins encenada por Júlio Martin, parte das histórias reais dos protagonistas-intérpretes. Ficaremos a saber, assim, que irá para o céu quem consegue comer todas as sementes de uma romã sem as deixar cair ao chão. Ou como, por causa de um discurso onde falou sobre a importância de um papel, uma caneta e um professor na vida de uma mulher, Huwaida teve de fugir do seu país. E que foi quando a sua filha contou até 10 em português, que Márcia percebeu que Portugal era a sua casa.

Ouviremos também Lana, jornalista, a ler um dos seus artigos e a contar como despertou de um pesadelo, ao mesmo tempo que vê os seus jornais desfeitos aos bocadinhos. E Bushra contará como podia ir para uma festa ao mesmo tempo que choviam mísseis na cidade. Enquanto Rawaa falará dos medos e de como numa fronteira se pode ouvir dizer “És um passageiro. Um passageiro passa e não fica para sempre.”

Ouviremos, ainda, muitas perguntas: “Será um crime que a dançar seja feliz? Será um crime libertar os meus cabelos? Será um crime desejar quem queira amar? Será um crime querer dançar?” Escutaremos acusações: “Somos 16. E continuamos à espera. A nossa vida parou.” Esperam trabalho, um abraço, um papel, uma assinatura, a solidariedade, um cartão de cidadão, o poder aprender português ou que as filhas possam estudar. Três anos à espera. Três anos.

Apesar de tudo, contra tudo, estes actores e actrizes insistem em afirmações de esperança. Bushra Shhadah, síria de 34 anos, conta ao 7MARGENS, num intervalo de um dos ensaios, que o seu nome quer dizer “boas notícias”. Foi isso que ela experimentou com a integração nesta peça: “Às vezes as coisas boas aparecem: conheci o Sebastião numa organização de ajuda a refugiados afegãos e ele falou-me deste projecto, disse-lhe logo que queria participar.”

 

Uma vida colorida antes da guerra
ensaios da peça Une Histoire Bizarre, interpretada por 16 imigrantes e refugiados em Portugal; ideia original de Sebastião Martins, encenação de Júlio Martin, foto © Salomé Anukem

Bushra Shhadah num momento de ensaio da peça: “Às vezes as coisas boas aparecem.” Foto © Miguel Henriques.

 

Na peça, Bushra diz um texto sobre a guerra. Onze anos vive o seu país assim. “Antes disso tínhamos uma vida colorida”, recorda. “Uma boa vida, com família, amigos, bom ambiente, uma situação económica razoável.” A agora refugiada-actriz estava na universidade quando o conflito rebentou. Conseguiu manter-se protegida, como numa “bolha”, encontrando-se com amigos e amigas. Mas a mãe de um amigo morreu num bombardeamento e financeiramente a situação tornou-se “miserável”…

Hoje, vê o que se passa com a Ucrânia e percebe a história a repetir-se com outros. Sente “simpatia” para com quem tem de fugir: “Somos todos seres humanos, sentimos o sofrimento deles.” Mas também percebe que deixou de se falar da Síria: “Não posso culpar ninguém, só a nós próprios. Os media não mostram a realidade, cada um apresenta a sua versão: é como mostrar o fogo num quarto e dizer que é todo o quarto que está a arder.”

Vinda para Portugal num grupo de meia centena de universitários ao abrigo do programa lançado pelo antigo Presidente Jorge Sampaio para acolhimento de estudantes, Bushra só lamenta que “nem todos os países abriram portas aos sírios”.

Saeideh Shekoshi, 33 anos, e o marido Faribourz Najarzadeh, 31, têm uma situação diferente: vieram do Irão como imigrantes há sete meses, começaram a trabalhar há três – ela como designer de exposições, ele como especialista de comunicação. Saíram do seu país por causa da difícil situação económica, foram para a Malásia, voltaram ao Irão, até que decidiram vir para Portugal.

Ambos tinham interesse em fazer teatro e a oportunidade surgiu por causa de um amigo que também conhecia os responsáveis da peça. Nesta Une Histoire Bizarre, contam, vão falar sobre a cultura iraniana e a sua forte espiritualidade. “Apresentamos o amor ao mundo e o modo como podemos limpar o corpo numa Perspectiva espiritual, fazendo o bem.”

Lana Alqarnwi, 34 anos, jornalista iraquiana de Bassorá, está em Portugal há três anos depois de se ter sentido ameaçada por grupos extremistas. “Não falávamos de religião, vivíamos em harmonia”, conta ao 7MARGENS. Só depois da queda do antigo ditador Saddam Hussein a religião passou a ser um tema e um factor de divisão. O teatro dá-lhe “força” para falar do seu sonho de ser actriz. No texto onde falará da sua história, contará como foi ameaçada.

 

“Espaços protegidos”
ensaios da peça Une Histoire Bizarre, interpretada por 16 imigrantes e refugiados em Portugal; ideia original de Sebastião Martins, encenação de Júlio Martin, foto © Salomé Anukem

Uma dança em Une Histoire Bizarre: a questão da relação com o corpo foi um dos temas surgidos na preparação da peça. Foto © Miguel Henriques.

 

Há ainda actores-intérpretes vindos do Sudão, Afeganistão, Moçambique, Gâmbia e Nigéria. Ali Zain, do Paquistão, com 17 anos, é um dos dois mais novos (com o afegão Mahdi Qarbani). Vem de Gujranwala, no Punjab (norte do país, perto da fronteira com a Índia de da zona disputada de Caxemira) e está há um ano em Portugal. Muçulmano, a trabalhar num restaurante na Baixa de Lisboa, nem sempre consegue conciliar o trabalho com os ensaios.

Depois de três anos a viver sozinho na Grécia – coisa em que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras “não acredita”, pedindo-lhe sempre “mais um papel que falta” – Ali sente-se realizado a cantar na peça. “Gosto de cantar e de partilhar a minha experiência através do canto.”

“Precisamos de espaços protegidos, de santuários de humanidade, que propiciem o encontro e a partilha entre iguais e possibilitem diálogos profundos que possamos fazer juntos”, escreve o encenador Júlio Martin no guião da peça. “Espaços de criação artística onde seja possível purificar o nosso olhar e a nossa escuta, dar voz às pessoas e experienciar e entender a liberdade.”

Esse é também o objectivo a mais médio prazo: criar uma incubadora artística que permita integrar refugiados e imigrantes, diz Sebastião Martins, que trabalhara com Júlio Martin no TUT – Teatro da Universidade de Lisboa. “O palco é um santuário de liberdade onde as pessoas podem comunicar e partilhar, mesmo vindo de sítios diferentes”, diz ao 7MARGENS. E isso também se tem visto nesta peça, que foi já encenada nos últimos dois fins-de-semana em Sintra e Lisboa. “A relação com o corpo, a voz, a língua portuguesa, ver as pessoas a ganhar amizades que não seria possível sem este projecto são aspectos interessantes deste projecto.”

Um teatro, como um consultório improvisado, podem ser um porto de abrigo para pessoas que perdem o chão de um instante para o outro. Foi talvez o que aconteceu com uma senhora do Congo que um dia entrou no consultório onde estava Sebastião Martins, 27 anos, num campo de refugiados em Lesbos, na Grécia. Era a sua primeira missão humanitária como médico, logo depois de ter acabado a faculdade em Junho de 2019.

Em Agosto, a congolesa queria falar com alguém e só ele percebia francês. “Ela entrou tímida e cabisbaixa, era a última senhora daquele longo dia.” Sentou-se e disse-lhe: “Je vais vou raconter une histoire bizarre”, vou contar-lhe uma história bizarra. Era a sua: “Com soluços na voz, incapaz de me olhar nos olhos, contou a história da sua vida pela primeira vez desde que tinha chegado à Europa”, conta Sebastião. A viagem, as lutas, a chegada à Europa. Havia de tudo na sua tragédia contínua: “Casa assaltada, ela violada, viu as suas filhas serem abusadas também. Decidiu fugir, mas as filhas foram levadas e nunca mais as tinha visto.”

Durante a conversa, o jovem médico não disse nada. “Fiquei apenas a ouvir e deixei-a contar a sua história. Não sei quanto tempo passou. Cinco minutos, meia hora, duas horas… Ia falar, tentar dizer alguma coisa para quebrar aquele insondável silêncio. Antes que pudesse dizer algo, olhou-me num tímido relance e disse: ‘Merci’. E saiu.

Uma história bizarra. Como tantas outras. Como estas que se podem ouvir no palco. Huwaida, que vem do Sudão, outro país africano martirizado, conta que no seu país há um ditado que diz: “Qualquer país para onde vás, será o teu país.” E afirma: “Portugal agora é o meu país!”

 

Une Histoire Bizarre
Ideia original de Sebastião Martins
Direcção artística de Júlio Martín e Sebastião Martins
Encenação de Júlio Martín
Sábado, 7, 21h; Domingo, 8, 17h; Auditório de Santa Joana, Lisboa (Rua Lagares d’el Rei)
Bilhetes a 8 €; o espectáculo de dia 8 será transmitido em directo pela RTP Palco, via digital.

 

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