O Papa esteve na manhã de visita à sede do Programa Alimentar Mundial (PAM) e condenou a secundarização da ajuda humanitária em confronto com o investimento global em armamentos, apelando à renovação do compromisso multilateral contra a fome. “Os conflitos são alimentados com mais facilidade do que as pessoas são nutridas”, afirmou.
“Esta realidade reflecte não apenas insuficiências operacionais, mas também um desequilíbrio fundamental nas prioridades políticas e morais”, denunciou Leão XIV, na abertura da sessão anual do conselho de administração do PAM, uma das agências da ONU.
“A alimentação, a água e os cuidados de saúde não podem ser subordinados a considerações de mercado ou a interesses geopolíticos”, disse. E apelou “aos governos e aos povos do mundo para que renovem e reforcem o seu compromisso, aumentem os recursos dedicados ao combate à fome e às suas causas profundas, e removam os obstáculos que impedem a ajuda de chegar a quem dela necessita”.
O Papa Leão referiu o paradoxo da economia internacional, onde uma capacidade produtiva sem precedentes coexiste com a o alargamento da “extrema vulnerabilidade”.
“As mesmas forças que impulsionam o crescimento económico agravam frequentemente a exclusão e a marginalização. Embora o alívio do sofrimento humano seja amplamente reconhecido como essencial em princípio, as preocupações humanitárias correm o risco crescente de serem remetidas para um plano secundário nas prioridades internacionais”, advertiu.
“Os Estados têm afectado crescentemente os seus recursos à segurança nacional, ao crescimento económico e à estabilidade interna, descurando a estreita ligação entre essas questões e a cooperação multilateral.”
Lamentando a “progressiva burocratização da solidariedade” que tem levado à “silenciosa mercantilização da vida humana”, Leão acrescentou que as crises evoluíram de eventos isolados para realidades persistentes, marcadas por conflitos prolongados, insegurança alimentar crónica, volatilidade económica e crescentes vulnerabilidades climáticas”.
Defendeu, depois, que “nenhum Estado pode, sozinho, responder aos desafios globais” e que para isso são necessários “uma paz duradoura” e o “desenvolvimento humano integral e sustentável”, só “possíveis com a participação de todos, o diálogo e a “cooperação internacionais genuínos, orientados para o bem comum.”
A presidente do conselho de administração do PAM, a brasileira Carla Barroso Carneiro, destacou a importância da visita de Leão XIV, considerando que a erradicação da fome constitui um “caminho para a paz”. E lembrou, dois dias depois do Dia Mundial do Refugiado, “os milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo para quem a busca da paz, da dignidade e da liberdade da fome continua a ser uma realidade urgente e diária”.
A visita do Papa coincidiu com os dados do Relatório Global sobre Crises Alimentares, que regista um total de 266 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em todo o mundo. Leão XIV esteve ainda, em videoconferência, a falar com responsáveis do PAM em vários países, ouvindo os seus testemunhos sobre as dificuldades que encontram no terreno.
“O mundo de hoje deveria viver sem fome”, afirmou o Papa, para acrescentar: “Muitas vezes, a fome é a causa de conflitos, e os conflitos causam mais fome.”
Durante a visita à sede da agência das Nações Unidas, o Papa observou a instalação artística Um Lugar à Mesa, com pratos e tigelas de comunidades atingidas pela fome em várias regiões do planeta.










