Guiné-Bissau: das “cicatrizes do tempo” ao renascer do povo

| 30 Dez 19

Rio Mansoa, entre Cacheu e Bissau. Foto © Alice Cardoso

 

Este mês fui de visita à Guiné. Uma viagem de memória para quem, como eu, não tinha memórias da Guiné. Estive em Luanda ainda em criança, mas as memórias são as próprias da idade. Excepção à única em que o meu pai me bateu. Às cinco da tarde saí de casa e às dez da noite descobriram-me a assistir, divertida, ao baile no clube. Uma criança de cinco anos, branca e loura, desaparecida na Luanda dos anos 1960 não augurava coisa boa, o que gerou o pânico dos meus pais. Daí a tareia…

Mas não é grande exemplo do que se passou durante a guerra colonial. Acompanhei os relatos com curiosidade, mas com a leitura possível para uma adolescente que, no 25 de Abril, interpretava o que via e ouvia com a informação permitida no Portugal da década de 1970. Essa mesma adolescente que viveu o 25 de Abril como um momento transformador da sociedade e da sua própria vida, alterando até mesmo a sua orientação profissional.

Ao longo dos anos tenho ouvido ex-combatentes dizerem com solenidade: “Fui militar na Guiné.” E com esta simples expressão querem transmitir tudo o que lá viveram. O terror e o medo, é certo, mas também alguma melancolia e saudosismo que nunca compreendi.

Fui à Guiné numa visita de memória, para ver e perceber o que havia ali de tão diferente das memórias da guerra em outras colónias.

O mercado de Bandim, em Bissau. Foto © Alice Cardoso

 

Chegámos à noite e todos se recolheram aos seus quartos no hotel, em Bissau. Fui até ao exterior e, enquanto via o movimento na praça, um jovem local abordou-me educadamente. Mostrando-me uma embalagem de um toalhete da TAP, explicou-me que lhe havia sido oferecida por turistas portugueses, mas desejava saber para que servia. Falámos, expliquei, sorriu, agradeceu e afastou-se.

A minha filha, que assistiu do átrio do hotel, chamou-me a atenção para a leviandade de falar com estranhos. Parecia ridículo perante a inocência do jovem com quem falei. Afinal, ali a estranha era eu.

Esta cordialidade para com os portugueses foi algo que veio a marcar toda a viagem.

O desejo de paz e desenvolvimento deste povo é tão marcante que se torna tão enternecedor quanto humilhante para nós, para a nossa falta de vontade ou incapacidade de ajudar.

De Bissau seguimos para outros locais como Cacheu, Praia Varela, Bafatá, Guiledje, Saltinho, Bijagós, Bolama.

Forte de Cacheu. Foto © Alice Cardoso

 

O forte de Cacheu, abandonado, guarda antigos monumentos que representam figuras históricas. Reclinados sobre as ameias do forte, sobrevivem num pequeno jardim, com uma pluméria alba repleta de flores e que exulta de fulgor com as borboletas a esvoaçarem e a relembrar a expressão de Luís Pedro Nunes, a propósito do lugar “onde as borboletas voam junto às cicatrizes do tempo”.

As estradas, por vezes marcadas pelo chuvoso verão que as torna quase intransitáveis, são ladeadas pelas extensões de terra vermelha e densa vegetação de um verde escuro e intenso. Estamos em África e as cores são as que esperamos ver ao nosso redor. Mas a Guiné é plana, sem montanhas e sem rochas. Para além das casas que surgem ao longo da estrada, há uma imensa parede verde de vegetação cerrada. O mato não permite ver o que se passa para além de uns escassos metros, envolvendo em mistério o que está para além do visível. Para lá estão as gazelas, os búfalos, as aves exóticas. Mas o que nos é permitido ver são as casas de colmo, as galinhas, as inúmeras cabras e porcos e, por vezes, algumas vacas.

Escola Jardim Ilrmã Elda, da Associação Amigos da Missão. Foto © Alice Cardoso

 

Ao longo do percurso vimos aldeias e escolas, muitas escolas, num país muito jovem. A presença de escolas muçulmanas é cada vez maior em várias regiões do país com franca diminuição das missões cristãs. Mas o entusiasmo das crianças, nestas escolas onde tudo falta, não é menor.

A excisão genital feminina continua presente nas aldeias com as meninas a sofrerem de dores por não terem qualquer acompanhamento adequado e a pedirem-nos analgésicos.

Escola islâmica na Tabanca Varela. Foto © Alice Cardoso

 

As mulheres trabalham para garantir o sustento diário da família, mas o seu trabalho e o seu valor não são ainda reconhecidos. Estão demasiado ocupadas a trabalhar ou a cuidar da família para terem tempo para dedicar às decisões políticas. São os homens que decidem, apesar da parca contribuição nas tarefas diárias. São elas que estão nos barcos na margem do rio, são elas que lavam a loiça e a roupa e dão banho aos seus filhos, nas margens das águas turbulentas, no Saltinho.

O Saltinho, um lugar de guerra e terror, com o ruído de balas e helicópteros, é agora lugar de paz, de uma beleza infinita. O quartel de paraquedistas foi transformado em pousada. O ruído das águas revoltas numa zona de rio não navegável é apenas entrecortado pelo riso das crianças e pelas vozes das lavadeiras. A paz reina de novo no Saltinho e agora é um lugar sereno onde apetece ficar, apreciar e meditar.

Mulheres a trabalhar no rio Mansoa. Foto © Alice Cardoso.

 

Na Guiné não há fome, apesar da pobreza; não há pessoas descalças, apesar da pobreza; não há revolta contra os portugueses turistas, apesar da pobreza.

Há generosidade, simpatia e uma enorme vontade, manifestada por várias pessoas com quem falei, de que nós fiquemos para os ajudar no desenvolvimento. Muito há a fazer para recuperar a Guiné e ajudá-la a ser o país que deseja e merece ser. Muitos há que desejam ajudar e muitos mais o poderão fazer.

Os sucessivos governos não têm sido facilitadores deste desenvolvimento. Mas as eleições de domingo passado, 29 de Dezembro, abrem uma nova esperança.

Acredito que o futuro pode ser diferente, melhor e pleno de prosperidade para os guineenses. Que as “cicatrizes do tempo” dêem força ao renascer desta terra e deste povo.

Mulheres no Saltinho. Foto © Alice Cardoso

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