Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Depois de um primeiro texto sobre a guerra da Ucrânia e um outro sobre o Afeganistão, publicámos também uma música que evoca o apelo de paz feito por muitas mães israelitas e palestinianas, uma recensão de um álbum pela paz no meio da guerra da palestiniana Haya Zaatry, que parecia antever os dias de hoje, e dois discos de Peter Gabriel.
Por regra, esta rubrica é publicada pelo menos no dia 15 de cada mês. Os nossos leitores podem também sugerir músicas ou partes de obras musicais que possam traduzir a importância da paz, nomeadamente em regiões em conflito, podendo fazer acompanhar a sugestão de algum pequeno texto.

A magia da Guiné-Bissau, das suas gentes, das terras, dos rios e das ilhas dos Bijagós é especial, conta quem por lá já andou. Tão fantástica quanto, por oposição, é trágica a destruição que os gangues da droga e das armas levaram ao país, convertendo-o num dos mais pobres do mundo, assolado por frequentes golpes e contra-golpes, violência e corrupção, traindo os sonhos de paz e desenvolvimento que Amílcar Cabral tinha. “Guiné, oh minha terra,/ Coitada”, canta a guineense Fattú Djakité, em Guine Bissau, em forma de lamento saudoso pelo seu país natal (Fattú vive em Cabo Verde desde os cinco anos). Um lamento que se aprofunda por exemplo, em Rafugiado di guerra: “Na minha terra tem guerra, tem miséria/ (…) Crianças pequenas em cena, pele preta, morena, escura/ Que nem sabe direito o que é sonho, mas, tristonho, já sabe o que é tortura/ O sol castiga, fadiga, nós dançamos com a dor, com o peso de um andor/ Fé em Nosso Senhor e o ronco na barriga (todo santo dia)/ Tudo é guerra, tudo é briga/ Em fila como formiga/ Esmagada de forma cruel pelo papel dessa política inimiga.”
O título deste disco, Praia-Bissau, celebra uma migração que não descola da raiz, mas que, a partir dela, alarga olhares sobre trágicas realidades. Mas, com a sua voz poderosa, Fattú Djakité propõe uma música que não esquece a alegria nem a esperança, uma música que liga os ritmos tradicionais com a expressão popular mais contemporânea e que, de passagem, afirma a esperança em dias melhores. Como em O Mundo Virou, cantada em ritmo de samba: “O mundo virou, o mundo virou/ Que mundo virá?/ (…) Passarinho parou de cantar/ O rio secou/ O vento não quer mais soprar/ Alegria acabou/ Mas o Sol insiste em nascer/ O Sol é que teima em brilhar.”
Título: Praia-Bissau
Autora e intérprete: Fattú Djakité
Disponível nas plataformas digitais
(Texto publicado inicialmente no número de Outubro 2024 da revista Além-Mar)










